segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"PSDB A FAVOR DO BRAZIL"

O maior golpe do mundo.

Me lembrou a proposta deles de PETROBRAX.

Veja lá a foto no RS URGENTE.

E tem gente que ainda acredita neles.

BRAZIL COM Z É O FIM!

domingo, 27 de setembro de 2009

RECOMEÇAR TODOS OS DIAS PELO RESTO DE NOSSAS VIDAS

Este título representa parte do nosso esforço cotidiano mais trivial e comezinho. Todos os dias pela manhã precisamos acordar e recomeçar a vida, retomar nossa existência quase como se tudo fosse novo.

A diferença é que nós não recomeçamos tudo, simplesmente continuamos o que começamos ontem, anteontem e dias, meses, anos e décadas atrás. É a nossa vida cara. Ela não acaba quando sonhamos e não acaba quando mudamos de lugar, simplesmente começa um novo capítulo uma nova parte desta história de vida. Não há hipótese de descontinuidade ou de interrupção real do fluxo da nossa vida, pelo menos enquanto estivermos vivendo. Enquanto nada de extraordinariamente arrasador nos arraste para uma vida interrompida ou prejudicada. Nesta situação em que o nosso eu perde suas referências de memória.

Mas ocorrem alguns problemas por aí, com a gente e com outros. Sofremos acidentes, cometemos imprudências e muitas vezes nos precipitamos arriscadamente para fora deste nosso contínuo da nossa existência. Ora a frequência deste acontecimentos não determina ainda a anormalidade das ligações diárias que fazemos ao passado, seja o mais remoto seja o mais recente ou intermediário. Não há porque julgar que não possamos recomeçar todos os dias pelo resto de nossas vidas sem grandes esforços.

O personagem de Sandler, Henry, precisa reinicializar a personagem de Drew Barrymore todos os dias simplesmente - se é que dá para considerar isso simples - porque ela não inicializa legal. Ele casa com ela e monta estratégias de BOOT.

O amor é lindo e a sabedoria o acompanha diria Diotima.

PEQUENA REFLEXÃO SOBRE EXTERNALISMO, MEMÓRIA E IDENTIDADE

Meu amigo César Schirmer dos Santos está as voltas com um doutorado sobre o tema do externalismo. O César tem até um blog sobre o trabalho dele, em que ele publica coisas, textos e notícias sobre o tema desde 2004, e recomendo muito aos amigos curiosos e aos alunos mais curiosos, chama-se MEMÓRIA e AMBIENTE: Diário de uma tese de filosofia.

Se você entrar no google agora e digitar esta palavra Externalismo encontrará lá um verbete bem construído sobre isto, o que provavelmente foi o próprio César que fez aliás. A conferência da segunda passada, ou melhor o Colóquio Inteiro tratava disto sob diversos enfoques.

Em homenagem ao esforço do meu amigo e ex-colega fiquei pensando num exemplo que talvez ajude ou complique mais o tratamento adequado do tema. Senão vejamos.

Ao assistir uma das exposições fiz notas que depois revisei e fiquei pensando com meus botões durante a semana toda. No almoço, no café da manhã em alguns dias e noites, caminhando e sentado no carro, em sala de aula enquanto tratava de outras questões, inclusive em meio a reuniões sobre outros assuntos.

A minha intuição original foi a seguinte: será que a nossa identidade, aquela que nós encontramos ao acordar de manhã cedinho é determinada pelo ambiente que nos cerca, por uma memória recente de quem nós somos ou por uma programete básico do nosso cérebro tipo aquele conjunto de arquivos do meu computador o do teu que inicializa o nosso sistema antes mesmo de ele lidar com qualquer informação externa, ou por todas estas coisas combinadas e associadas?

Penso que o meus computadores e o meu cérebro não são tão diferentes não. Que aqui como aí precisamos de algumas informações básicas e outras informações mais profundas para sabermos quem somos. Sempre lembro daquele filme do Adam Sandler Como se fosse a primeira vez - o qual prefiro em relação ao Jim Carrey disparadamente. Neste filme, só para lembrar, temos uma mocinha que sofreu um acidente e que amanhece todos os dias pela manhã sem saber o que aconteceu ontem, ela até sabe quem é, sabe quem é o pai e o irmão, mas se casar ontem amanhecerá sem saber disto e provavelmente se aborrecerá com o rapaz que estiver deitado ao lado dela na cama. Em resumo naquele filme ela tem uma memória remota, mas não possui uma memória de eventos próximos no tempo. É uma boa hipótese, pois neste caso ela inicializa o sistema mas perde algumas informações recentes ao fazer isto. Mesmo neste caso, ela preserva sua identidade, porque as informações familiares anteriores ao seu trauma se mantém registradas.

Será que o nosso sistema despertaria igual caso mudassemos de contexto de um dia para o outro. Creio que não. Creio que não é possível isto. Ou seja, mesmo que eu tome um porre homérico ou que me levem para alter terra (ou twin heart) não esquecerei de minha identidade e ao inicializar o meu sistema passarei desde já - como minhas memórias - a reconhecer diferenças e semelhanças entre este ambiente atual e o meu ambiente tradicional de despertar.

Se mudar o contexto não muda o sujeito e o sujeito passa a reconstruir o seu conhecimento ambiental em seguida quase que automaticamente.

Talvez não ajude em nada ao meu amigo, mas já é um começo naturalista para um problema mental do externalismo.

UM PROGRAMA DE FILOSOFIA PARA O TERCEIRO TRIMESTRE

Iniciamos o segundo trimestre deste ano com a pergunta sobre a possibilidade do conhecimento humano.

Vimos que podemos responder a esta pergunta com, pelo menos, dois ou três tipos de respostas.

Sim, o conhecimento é possível.

Não, o conhecimento não é possível.

E, talvez ou depende, se tal e tal for o caso, então o conhecimento é possível.

Ou noutra chavezinha, admitindo-se determinadas condições e restrições, sim o conhecimento é possível, não aceitando-se estas condições, não o conhecimento não é possível.

Sabemos que boa parte dos modernos fazem uma certa opção pela última alternativa, isto é, o conhecimento é possível se consideramos certas condições e somente certas condições.

Apresentei duas versões de respostas deste tipo. Sumariamente as respostas de Rene Descartes e de Immanuel Kant. Uma resposta que é de certa forma inaugural para a filosofia moderna e outra que praticamente fecha a filosofia moderna e dá inicio ou inaugura a filosofia contemporânea.

Registrei que a primeira resposta, aquela de Descartes, inicia-se pelo franco objetivo de demonstrar em que o nosso conhecimento das coisas - de todas as coisas - é muito incerto e duvidoso e que acaba por ser necessário que ele seja completamente reconstruído em sua possibilidade. Passando-se primeiro por um exercício de colocar em dúvida tudo aquilo que nós julgamos ser verdadeiro, passa-se a reconstruir o conhecimento a partir de um fundamento único o Eu Penso, logo existo, o bem conhecido Cogito cartesiano. Afirmei que a principal característica deste método é que ele é conhecido como o Método da Dúvida (da dúvida hiperbólica, exagerada ou sobre todas as coisas como você preferir). Informei também que Descartes inaugura o Racionalismo com isto na idade moderna e que a sua busca das razões acaba por nos embaraçar muito.

Registrei também que a segunda resposta, aquela de Kant, inicia-se pressupondo o conhecimento e sondando a respeito das suas condições de possibilidade, ou seja, a partir das condições que racionalmente tornam possível o conhecimento. Afirmei que este método pode ser chamado de método crítico, ou Filosofia Crítica. E expressei que bem entendidas algumas coisas acabaremos por concluir que o título da obra de Kant A CRÍTICA DA RAZÃO PURA, será vista como um grande exercício de colocar a razão em confronto consigo mesma, colocar a razão à prova de fogo, testá-la e provocá-la a demonstrar sua capacidade e os limites de sua capacidade.

Bem o nosso programa para este trimestre é começar com Kant e acabar em Heidegger e Wittgenstein para tentar mostrar e compreender que os poderes da razão tem por base e por limites elementos práticos ligados ao nosso uso da linguagem e a nossa compreensão do mundo. Ao mesmo tempo veremos que a velha e boa questão do ser pode ser entendida ainda como uma questão desafiadora para o nosso entendimento e racionalidade.

IMMANUEL KANT - VERBETE DO DICIONÁRIO

Kant, Immanuel (1724-1804) Um dos filósofos que mais profundamente influenciou a formação da filosofia contemporânea, Kant nasceu em Koenigsberg, na Prússia Oriental (Alemanha), atualmente Kaliningrado na Rússia, onde passou toda a sua vida, tendo chegado a reitor da Universidade de Kõnigsberg, onde foi estudante e professor. O pensamento de Kant é tradicionalmente dividido em duas fases: a pré-crítica (1755- 1780) e a crítica (1781 em diante), que se inicia com a publicação da Crítica da razão pura, sua obra capital. Na fase pré-crítica o pensamento kantiano está totalmente inserido na tradição do sistema metafísico de Leibniz e Wolff, então dominante nos meios acadêmicos alemães. Sua principal obra nesse período é a Dissertação de 1770, com a qual tomou-se catedrático da universidade, e que, embora elaborada dentro do quadro conceitual da metafísica tradicional, prenuncia alguns dos temas centrais da fase crítica, como a questão dos limites da razão e da solução dos problemas metafísicos. A fase crítica se inicia, nas palavras do próprio Kant, por influência de suas leituras dos empiristas ingleses, sobretudo de Hume. É famosa sua afirmação nos Prolegômenos de que “Hume despertou-me de meu sono dogmático”. As objeções céticas de Hume ao racionalismo dogmático e à metafísica especulativa levaram Kant a questionar e reconsiderar essa tradição, ao mesmo tempo procurando defender a possibilidade da ciência e da moral, contra o ceticismo arrasador de Hume. A filosofia crítica se resume, portanto, a quatro grandes questões: 1) 0 que podemos saber? 2) o que devemos fazer? 3) o que temos o direito de esperar? e 4) o que é o homem? Em sua Lógica (1800), Kant afirma que “a filosofia ... é por um lado a ciência da relação entre todo conhecimento e todo uso da razão; e, por outro, do fim último da razão humana, fim este ao qual todos os outros se encontram subordinados e para o qual devem se unificar”. A primeira questão é tratada essencialmente na Crítica da razão pura, em que Kant investiga os limites do emprego da razão no conhecimento, procurando estabelecer as condições de possibilidade do conhecimento e assim distinguir os usos legítimos da razão na produção de conhecimento, dos usos especulativos da razão que, embora inevitáveis, não produzem conhecimento e devem ser distinguidos da ciência. São duas as fontes do conhecimento humano: a sensibilidade e o enten dimento Através da primeira, os objetos nos são dados; através do segundo, são pensados. Só pela conjugação desses dois elementos é possível a experiência do real. Por outro lado, nossa experiência da realidade é condicionada por essa estrutura em que se combinam sensibilidade e entendimento, de tal forma que só conhecemos realmente o mundo dos fenômenos, da experiência, dos objetos enquanto se relacionam a nós, sujeitos, e não a realidade em si, tal qual ela é, independentemente de qualquer relação de conhecimento, O método transcendental, que Kant então formula, caracteriza-se precisamente como análise das condições de possibilidade do conhecimento, ou seja, como reflexão crítica sobre os fundamentos da ciência e da experiência em geral. A Crítica da razão prática (1788) analisa os fundamentos da lei moral, formulando o famoso princípio do imperativo categórico: “age de tal forma que a norma de tua ação possa ser tomada como lei universal” Trata-se de um princípio formal e univer sal estabelecendo que só devemos basear nossa conduta em valores que todos possam adotar, embora não prescrevendo especificamente quais são esses valores. Na Crítica da faculdade dejulgar (1790), Kant procura estabelecer as bases objetivas para o juízo estético, em um princípio semelhante ao ético. Na verdade, essa obra vai além da questão da estética, envolvendo todo juízo teleológico e o reconhecimento de um fim ou propósito que daria sentido à natureza. Assim, “a beleza é a forma da finalidade em um objeto, percebido entretanto separadamente da representação de um fim”. Kant escreveu alnda outras obras de grande importância como os Prolegômenos a toda metafísica finura (1783), que pretende ser uma retomada das idéias da Crítica da razão pura de forma mais acessível; os Fundamentos da metafísica dos costumes (1785), que também tratam da questão ética; um tratado sobre a Religião nos limites da simples razão (1793); uma obra política, o Tratado sobre a paz perpétua(1795); a Antropologia de um ponto de vista pragmático (1798); a Lógica (1800); além de vários outros textos dentre os quais se destacam “A idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita’ (1784), considerado como origem da filosofia alemã da história; e “O que significa o iluminismo’?” (1783), em que analisa o racionalismo iluminista e seu projeto filosófico.

FONTE: DICIONÁRIO BÁSICO DE FILOSOFIA. Hilton Japiassú & Danilo Marcondes. 4ª Edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006, pp. 158-159.
(obs. Obra que faz parte do Acervo do Programa Nacional Biblioteca de Escola para o Ensino Médio – PNBEM/2008 custeado com recursos do FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação do Ministério da Educação do Brasil – encontra-se no acervo da biblioteca da escola.)

Recomendo a consulta para outros verbetes.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

FILOSOFIA - COMO É BOM RESPIRAR TEU AR.....

Segunda-feira passada, após 12 anos de afastamento voltei à minha faculdade para assistir a uma aula da pós graduação, ou melhor uma conferência de um de meus mestres preferidos.

Como é bom o fluxo do pensamento, o bom debate, a controvérsia racional e o espírito gracioso que sempre aparece quando as idéias ganham importãncia real.

Me senti satisfeito, por um lado, por não ter tantas dificuldades para acompanhar uma exposição extremamente técnica e complexa de um tema, mas que foi feita com a clareza devida. Também me senti satisfeito, por outro lado, porque reacenderam-se boas e velhas dúvidas que não ouso responder abruptamente e que continuam a me desafiar. Não vou resumir isto aqui, porque melhor mesmo é citar o texto que evoca este debate.

Bem, só quem já bebeu desta fonte sabe o sabor desta água. Só quem já respirou estes ares sabe o quanto meus pulmões vibraram. Mas é só um sentimento. Não expresso aqui nenhuma idéia.

Fica só um registro afetivo.

Outro dia falarei das idéias.

sábado, 19 de setembro de 2009

Nossa Virtudes, Nossas Façanhas

A REVOLUÇÃO FARROUPILHA situa-se na história do Rio Grande como um problema interpretativo. As declarações dos seus líderes ao longo dos seus dez anos de determinada independência frente ao Império (1835-1945), o que é uma façanha, oscilaram entre o separatismo republicano e liberal e a mera constestação dentro do sistema monárquico (FLORES. 1998). Mas este problema não tira o mérito da iniciativa social - a sua virtude, representada pela revolução. Pois a revolução era liberal em suas divisas LIBERDADE, IGUALDADE e HUMANIDADE e, ao mesmo tempo, tinha o objetivo de movimentar um pouco mais a população gaúcha já tão adaptada à defesa não bem correspondida do território Brasileiro. E isso fez-se HISTÓRIA, colocando-nos como protagonistas dos grandes momentos do Brasil.

Sabe-se, com rigor, que as relações políticas e econômicas entre o Regime Monárquico e os cidadãos da Província de São Pedro não eram lá essas coisas. Do ponto de vista ECONÕMICO, a província era sobretaxada pelo Império. Do ponto de vista POLÍTICO, a Província de São Pedro era absolutamente submetida às vontades do Império, com nenhum poder de auto-determinação. Sejam estes cidadãos poucos dentro de uma sociedade de classes cuja hierarquia era determinada pela propriedade da terra, das armas ou da lei, ou os muitos que constituiam a base social de escravos, peões, colonos, soldados, pequenos comerciantes, etc.

De qualquer modo, o maior mérito da Revolução Farroupilha talvez tenha sido justamente ter provocado, semeado e aprofundado uma certa UNIDADE POPULAR de caráter liberal, que fizesse frente aos poderes ilimitados e excessivos do regime e de seus representantes. A Revolução Farroupilha, de certo modo, nem foi uma revolução, pois que a ruptura por ela produzida não foi duradoura, mas e daí? Afinal, a Revolução Francesa também teve seus retrocessos em Napoleão e após Napoleão. E a Revolução Russa idem.

Mas porque, então, nos orgulhamos dela? Será que é porque ela foi farroupilha, farrapa, ou seja, um levante dos miseráveis, dos maltrapilhos, dos esfarrapados? Em parte sim, mas já se sabe bem que a tal Revolução Farroupilha tinha um LIBERALISMO dirigido à satisfação dos interesses da elite dos estancieiros e dos grandes comerciantes exportadores e importadores, não aos anseios de liberdade do populacho. Mas isso não rebaixa o nosso orgulho. Por quê? Talvez porque a Revolução Farroupilha seja a extrema expressão da virtude preferida aqui nesse território.

Pois então vejamos. O que há de comum entre os Heróis da Revolução, as diversas batalhas da Revolução e os Movimentos Revolucionários, isto é, em todos os PROTAGONISTAS e FATOS da Revolução, mesmo naqueles que se colocavam ao lado do Império? O que tinham de "mais" Bento Gonçalves, Davia Canabarro, Giuseppe Garibaldi, Anita Garibaldi, Bento Manuel Ribeiro, General Neto e os "outros"? O que tinham de "mais" a tomada da capital pelos Farrapos, a Batalha de Fanfa, o Combate do Taquari, a Retomada da Capital e etc.? Qual era a graça desses senhores e dessa senhora, quais eram as graças destes eventos?

Parece que, indubitavelmente, a Revolução Farroupilha serve para nos indicar uma certa VIRTUDE que produzirá sempre FAÇANHAS quando for acompanhada dos meios adequados para o seu exercício. Isto é, ela aponta a virtude da coragem a qual, como já dizia o Filosófo é a condição para o exercício de qualquer outra virtude, mas que depende de um juízo avaliativo prudencial que seja capaz de medir as possibilidades de sucesso, para a evitar a gravidade da desventura ou da infelicidade pela iniciativa tomada.

Os Gaúchos admiram a CORAGEM e, ao mesmo tempo, não se sentem muito bem até hoje quando tentam rebaixá-los ou dominá-los. Isso tudo tem um caráter profundamente libertário, pois, apesar de suas características conservadoras, os gaúchos estimam também a liberdade de pensamento - um sinal de coragem, e, assim, julgam até comum e adaptam-se muito bem às diferenças de opinião, posição e preferência. Talvez essa seja a lição importante hoje, saber que nossas façanhas só são possíveis por causa de nossas virtudes. Esta lição que a Revolução Farroupilha nos coloca, com mérito e rigor, merece aplicação no presente e no desenho do futuro.

COMISSÃO ORGANIZADORA
DA SEMANA FARROUPILHA
ESCOLA ESTADUAL OLINDO FLORES DA SILVA
SETEMBRO DE 2000

PS.: Este é um texto feito para um belo trabalho realizado no ano de 2000 na escola. Houve, inclusive, acampamento Farroupilha na escola naquele ano. As controvérsias histórica merecem uma discussão à parte. recomendo agora uma visita no Blog Diário gauche que faz um bom debate sobre a comparação entre o 20 de setembro e o 14 de julho na história do Rio Grande do Sul. Um debate bem respeitável e admirável por sinal. Recomendo também a leitura de textos sobre patriotismo aqui neste Blog e sobre o Hino do Rio Grande no Blog do Nassif.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PROPOSTA DE DIRETRIZES GERAIS PARA UM PROGRAMA DE GESTÃO DA ESCOLA PÚBLICA

CINCO PROPOSTAS DE GESTÃO

1. DEMOCRATIZAÇÃO;

2. HUMANIZAÇÃO;

3. MODERNIZAÇÃO;

4. QUALIFICAÇÃO;

5. PROFISSIONALIZAÇÃO.

E a partir destas diretrizes gerais definir ações, concepções e metas específicas.

Manter sob avaliação constante as ações e metas e sistematizar resultados.

CARTA SOBRE RECONHECIMENTO AO PROFESSOR QUE QUER COLABORAÇÃO

Caro Professor

Gostaria de lhe dar respeitosamente conhecimento da minha compreensão superficial do ponto que discutimos na ocasião da sua apresentação.

Quero fazer isso por boas razões.

A primeira é que realmente gostei do seu livro e que este me desperta o interesse de dialogar com o senhor em continuidade sobre esse e outros pontos, se assim o senhor quiser.

A segunda é que creio que o melhor diálogo filosófico é aquele que podemos fazer por escrito.

E a terceira é talvez fruto da minha exclusiva vaidade e engano, mas para mim é a importância daquilo que eu penso sobre filosofia e da sua relação com a escola à qual eu pertenço por formação e influência. Nessa terceira razão encontra-se um trabalho que eu realizei para o Professor Balthazar Barbosa Filho com o título “O medo racional em Hobbes: uma certa “leitura” da natureza humana na origem do estado” (abril de 1996) o qual, ainda que superficialmente e de um modo inacabado, toca com alguns pontos de convergência em suas lições e em outros trabalhos dos membros do departamento de filosofia.

Um bom conceito não tem obrigações determinadas por preferências. É o uso, aquilo de que o conceito é capaz, que se impõe através dele. É por isso que a categoria de reconhecimento pode substituir contemporaneamente, sem problemas e com vantagens, a categoria de dominação e, também, a categoria de colaboração - ainda que bem determinada. Pois tanto o “dominar” quanto o “colaborar” dependem para serem compreendidos, seja como violentos, seja como livres e ideais, de um reconhecimento prévio de algo. A discussão de fundo é, quero assim mostrar, não sobre palavras mas sobre conceitos com significação aproximada mas diversos nas suas formas e posições de uso.

A categoria da dominação é dada da mesma forma que qualquer outra categoria, isto é, através de um acordo nos juízos. Ora, um acordo nos juízos é provavelmente o objeto por excelência de uma forma original de reconhecimento que deve ser, para qualquer discurso, levada em conta, sob pena desse discurso não ser compreendido, nem surtir os efeitos que ele procura (Austin).

Uma humilde compreensão da dominação permite discriminar o conteúdo violento do fenômeno do seu conteúdo inteligível - desde que não se seja a vítima e se possa reconstituir o processo de uma forma suave de compreensão. Isso quer dizer, então, que toda violência, da banal à outra, tem sempre um juízo subjacente que deve ser procurado.

Este juízo indica outros juízos - mesmo que nós só encontremos neles uma aproximação, eles são indicativos das expressões que sucedem e antecedem no curso do processo. Assim, não será difícil destacar da forma primária de violência uma interpelação do juízo ou, mais ainda, uma obrigação e uma força.

A força, vai se observar, não é simplesmente dirigida aos sujeitos de submissão ou de reconhecimento simplesmente, ela é dirigida intencionalmente a certa ação ou omissão dos sujeitos.

Isso significa que é possível extrair do fenômeno processado o tipo de juízo que é dirigido pelo agente aos sujeitos com a finalidade de obter algo. Seja a obediência a uma ordem, seja o acatamento de uma restrição, seja a autoridade mesma do agente, por parte dos sujeitos através das suas posteriores ações, às quais para demonstrarem acordo nos juízos e obterem efeito precisam de reconhecimento em algum sentido pleno.

Com a categoria da colaboração ou co-participação, creio que o reconhecimento tem anterioridade, principalmente porque, concedendo que o colaborar não tem uma mera expressão no “colaboracionismo”, o colaborar é derivado de uma conjunção entre as expressões “comum” e “labor”. Sendo a primeira referida necessariamente a um juízo e podendo, inclusive, ser parafraseada com “fazer em comum com outros algo” o que faz o juízo envolver pelo menos a admissão de um outro juízo de caráter intencional em que “esse algo parece ser x” para todos é subjacente, o que, ainda assim, envolve um reconhecimento compartilhado de algo. Já a segunda expressão da conjunção envolve não somente um objeto intencional em comum no juízo de alguns, mas também uma atividade objetiva que é recíproca e feita em comum externamente. O “colaborar” é, portanto, uma categoria importante, mas a sua compreensão envolve a compreensão de uma categoria mais fundamental, a saber, a categoria de reconhecimento.

Se o senhor permitir a minha sugestão eu creio que a substituição da categoria “colaborar” por “reconhecimento” na passagem do seu texto especificada indica uma análise interessante e vantajosa do fenômeno do poder de um ponto de vista do filósofo político contemporâneo que corrobora a sua análise, pois se admitimos que:
“Temos, aqui, um processo que estabelece a transição do súdito ao cidadão, daquele que obedece pura e simplesmente para aquele que, em sua obediência, participa dos processos decisórios.” (ROSENFIELD. Lições de Filosofia Política, p.45).

Me parece ser necessária a consequencia de que esta forma de participação, para romper a mera dominação pela força, com consentimento, deve apresentar um sentido no juízo que é reconhecido como racional o que, sendo um reconhecimento livre, é um reconhecimento não mais da mera força do estado ao qual se obedece, mas sim de um juízo no qual esse cidadão pode declarar:
“O estado é a expressão do meu interesse racional e é por mim assim reconhecido.”

Como isto parece ser de consenso, tal adesão racional à regras que provavelmente tem mesmo por objeto “o poder do regramento legal justificado” (Lições, cap. 1), depende do reconhecimento e do cultivo mais elaborado das formas de reconhecimento que é dado pela educação e não da violência ou do medo da força eminente do estado.

Que a lição da razão ( eivada de realidade ) deve, ainda que distante da sua completa realização e sujeita aos acidentes da história, ser motivacional e, por isso mesmo, permitir uma boa esperança aos agentes políticos que a reconhecem.

Uma análise dessa raiz intencional parece, aliás, ser muito fértil na resolução e interpretação de fenômenos políticos de baixa ou de fina estirpe. Se não estou enganado é isto um ponto que o Prof. Brum Torres permite extrair do seu artigo “Actes Foundateurs dans le Domaine Politique”.

O “reconhecimento”, sobre o qual podemos falar em outra ocasião um pouco mais, parece envolver, no que diz respeito aos direitos humanos e no que toca às diferenças sociais duas condições de reconhecimento necessário: aos primeiros o reconhecimento de direitos comuns aos homens em modalidades jurídicas, às segundas as condições de reconhecimento e a interpretação explícita e consistente da realidade e a busca das causas das diferenças sociais, as quais, também, via boa percepção e sensibilidade social (Aristóteles) podem levar à possibilidade da sua supressão.

Aí entra, novamente, a desejada por muitos educação republicana sugerida pelo prof. João Carlos Brum Torres. O pessimismo contrário a estas idéias repousa sobre uma emergência das análises do caráter e da pessoa com certa aversão bem demonstrada à regras, a qual por hábito e interesse de legitimação é a mesma que consegue tornar as suas razões mais veiculadas que o estado.

Devo confessar, finalmente, que não tenho uma formação hegeliana para dirimir, compreender ou interpretar aqui o conceito hegeliano de “reconhecimento”, mas que, se como o senhor afirmou, trata-se do reconhecimento recíproco entre desiguais (o que é necessariamente um evento dialético), por exemplo, o senhor e o escravo, pode ser interessante, para a continuidade da análise da obediência e das suas formas, que se entenda o reconhecimento da autoridade, como uma modalidade de reconhecimento de juízos e, portanto, de interesses por parte tanto dos agentes quanto dos sujeitos políticos e, também, morais.

Dito isso, acrescento também que admitida a tal intransparencia pós-moderna (como diz Habermas em A nova Intransparência), podemos buscar ou apenas desejar superá-la pela razão. A continuidade na compreensão disso me parece ser parte da fortuna da escola à qual nós, quiçá o senhor e os outros professores deste departamento de filosofia estão destinados com certeza, na filosofia civil e política da cidade de Porto Alegre, do estado do Rio Grande do Sul e, também, do Brasil.

Atenciosamente, agradeço o estímulo dado a esta missiva um pouco ingênua pela sua obra.

Daniel Adams Boeira - UFRGS - Porto Alegre, 18/07/96

OS.: Um dia eu escrevi isto que me parece ser um profundo divisor de águas, por mais simples e singelo que pareça. Foi a objeção de um aluno a um mestre, mas abriu-se ali um verdadeiro abismo filosófico que hoje tem muito mais sentido do que tinha então. Na época recebi um comentário de quês esta pequena diferença atravessa séculos de filosofia com sua matriz na Grécia antiga justamente entre a democracia e a tirania. Justamente entre a filosofia e o dogmatismo. E lembro que só hoje consigo compreender a diferença real disto tudo. Pois a diferença conceitual (ou nominal) pode até preceder na ordem de compreensão a diferença real, mas a diferença real é aquela que realmente faz sentido na nossa história e na nossa vida. Talvez só os colegas de escola lembrem exatamente o contexto decisivo deste debate lá na Universidade em 1996. Para mim começou ali o meu divórcio intuitivo de idéias e posições.

A questão de fundo aí é: o que vem antes reconhecimento ou colaboração? E é uma questão que só faz sentido se pensarmos na genese cognitiva do poder.

São Leopoldo – 17 de setembro de 2009.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

FOGO

Essa foi demais mesmo.
Espero que sirva de alerta aos ditos conselheiros místicos da senhora desgovernadora de que as coisas vão muito mal mesmo, incluso, no chamado domínio dos elementais.

Assisti ao vídeo e concluo que quem montou aquela geringonça para a chama criola é um verdadeiro tolo. A desgovernadora escapou de algo que poderia ter sido pior. Mas não deixa de ser vergonhoso como diz a minha sogra. Uma muié que não consegue nem acender o fogo direito. Nossa...

Só faltava esta nos pagos, um candieiro descontrolado e uma cerimônia que mais parece um festim diabólico. Que fase hein dotora!!!

Larga mão....

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

LENIN - OS ENSINAMENTOS DA CRISE

LAS ENSEÑANZAS DE LA CRISIS


Vladimir Ilich Lenin

Publicado en el periódico Iskra, núm. 7, agosto de 1901.

Hace ya casi dos años que se prolonga la crisis comercial e industrial. Según todas las apariencias, se extiende cada vez más, abarca nuevas ramas de la industria y nuevas regiones, y se ahonda con nuevos colapsos bancarios. Nuestro periódico, desde el mes de diciembre del año pasado, ha venido señalando en cada uno de sus números, en una u otra forma, la evolución de la crisis y sus desastrosos efectos. Ha llegado el momento de plantear el problema general de las causas y el significado de este fenómeno. Para Rusia es relativamente nuevo, como lo es todo nuestro capitalismo. En cambio, en los viejos países capitalistas — o sea, en aquellos donde la mayoría de los productos se fabrican para la venta, donde la mayoría de los obreros no poseen tierra ni instrumentos de labranza y venden su fuerza de trabajo a otros, a los propietarios de tierras, fábricas, máquinas, etc. — , las crisis son un fenómeno antiguo que se repite de tiempo en tiempo, como los abscesos de una enfermedad crónica. Por lo tanto, cuando el capitalismo comenzó a desarrollarse en Rusia de manera particularmente rápida, la literatura socialdemócrata pronosticó la crisis actual. En el folleto Tareas de los socialdemócratas rusos, escrito a fines de 1897, se decía: “Es evidente que en el momento actual estamos en el período del ciclo capitalista [en el cual se repiten los mismos acontecimientos, como se repiten el invierno y el verano] en que la industria ‘prospera', el comercio es muy activo, las fábricas trabajan a pleno rendimiento y aparecen, como hongos después de la lluvia, en número incontable, nuevas fábricas, nuevas empresas, sociedades anónimas, la construcción de ferrocarriles, etc., etc. No hay que ser profeta para predecir la bancarrota inevitable (más o menos violenta) que debe seguir a esta ‘prosperidad' de la industria. Tal bancarrota arruinará a gran número de pequeños patronos, convertirá en desocupados a gran número de obreros...” La bancarrota se produjo, y de manera tan violenta como Rusia jamás conoció hasta el presente. ¿Cuál es la causa de esta terrible enfermedad crónica de la sociedad capitalista, que se repite con tanta regularidad que se puede predecir su aparición?


La producción capitalista no puede desarrollarse de otro modo que a saltos: dos pasos adelante y un paso (algunas veces dos) atrás. Como hemos observado ya, la producción capitalista es producción para la venta, producción de mercancías para el mercado. Quienes disponen de esa producción son los capitalistas individuales, cada uno de los cuales obra por su cuenta, de manera que ninguno puede saber con exactitud la cantidad y la clase de productos que demanda el mercado. Producen al azar, y sólo se preocupan por aventajarse unos a otros. Es natural, entonces, que la cantidad producida pueda no corresponder a las necesidades del mercado. Y esta posibilidad resulta particularmente grande cuando un mercado enorme abarca de repente nuevas y vastas regiones aún inexploradas. Tal era el estado de cosas no hace mucho, cuando comenzó en nuestro país “la prosperidad” de la industria. Los capitalistas de toda Europa extendieron sus garras hacia una parte del mundo, Asia, poblada por centenares de millones de seres, y donde hasta entonces sólo la India y una pequeña parte de la periferia estaban estrechamente ligadas al mercado mundial. El ferrocarril del Trascaspio comenzó a “abrir” el Asia Central para el capital; el “Gran Ferrocarril Siberiano” (grande no sólo por su extensión, sino también por el escandaloso robo que sus constructores perpetraron contra el fisco, y por la inhumana explotación de que fueron objeto los obreros que lo construyeron), despejó el camino a Siberia; Japón comenzó a convertirse en una nación industrial e intentó abrir una brecha en la muralla de China, con lo que puso al descubierto un bocado apetitoso en el que los capitalistas de Inglaterra, Alemania, Francia, Rusia e inclusive Italia se apresuraron a hincar los dientes. Todo esto — la construcción de gigantescas líneas férreas, el ensanchamiento del mercado mundial y el crecimiento del comercio — originó una inesperada reanimación de la industria, la aparición de nuevas empresas, la búsqueda desenfrenada de mercados para la venta, la carrera tras la ganancia, la fundación de nuevas sociedades, la afluencia a la producción de masas de nuevos capitales, formados en parte, también, por los escasos ahorros de los pequeños capitalistas. No es sorprendente, pues, que esta frenética carrera mundial tras nuevos e inexplorados mercados haya conducido a una bancarrota de tales proporciones.


Para formarse una idea clara de la naturaleza de tal carrera, es preciso tener en cuenta a los colosos que participaron en ella. Cuando se dice “empresas particulares”, “capitalistas individuales”, se olvida con frecuencia que, en esencia, estas expresiones son inexactas. En realidad, lo único particular e individual es la apropiación de la ganancia, pues la producción en sí se ha vuelto social. Los gigantescos derrumbes se hicieron posibles e inevitables sólo porque poderosas fuerzas productivas sociales fueron dominadas por una camarilla de potentados cuya única preocupación es el lucro. Aclaremos esto con un ejemplo tomado de la industria rusa. En los últimos tiempos la crisis afectó también a la producción petrolera. En esta industria tienen un papel preponderante empresas tales como la Compañía de Producción Petrolera Nobel Hermanos. En 1899 la compañía vendió 163 millones de puds de productos petroleros por la suma de 53.500.000 rublos, en tanto que en 1900 vendió 192 millones de puds por la suma de 72.000.000 de rublos. ¡ En un año, una sola empresa aumentó la producción en 18.500.000 rublos ! Esta “empresa particular aislada” es mantenida por el trabajo en común de decenas y centenares de miles de obreros, ocupados en la extracción de petróleo, en su elaboración y en su trasporte por oleoductos, ferrocarriles, mares y ríos, en la construcción de maquinarias, depósitos, materiales, balsas, barcos, etc., necesarios para ello. Esas decenas de miles de obreros trabajan para la sociedad en su conjunto, pero su trabajo es apropiado por un puñado de millonarios, que se queda con toda la ganancia que rinde el trabajo organizado de las masas ( la Compañía Nobel obtuvo en 1899 una utilidad neta de 4 millones de rublos, y en 1900 de 6 millones, de los cuales los accionistas percibieron un dividendo de 1.300 rublos por cada acción de 5.000, en tanto que cinco miembros del directorio recibieron, en calidad de gratificación, la suma de 528.000 rublos ! ). Cuando varias de estas empresas se lanzan a una frenética carrera para apoderarse de un lugar en un mercado desconocido, ¿puede sorprendernos el advenimiento de la crisis?


Es más. Para que la empresa dé ganancia, es preciso vender las mercancías, encontrar los compradores. Ahora bien, el comprador debe ser toda la población, porque esas enormes empresas producen montañas de productos. Pero en todos los países capitalistas las nueve décimas partes de la población se compone de gente pobre: obreros que perciben el salario más exiguo, campesinos que en general viven en condiciones peores aun que los obreros. Y cuando, en el período de prosperidad, la gran industria se lanza a producir el máximo posible, inunda el mercado con una cantidad de mercancías tal, que la mayoría desposeída del pueblo no está en condiciones de pagarlas. La cantidad de máquinas, instrumentos, depósitos, ferrocarriles, etc., sigue creciendo, pero este crecimiento se interrumpe de tiempo en tiempo porque el pueblo, para el cual, en definitiva, están destinados esos medios de producción perfeccionados, continúa en una situación de pobreza rayana en la miseria. La crisis demuestra que la sociedad actual podría producir incomparablemente más productos, los que servirían para mejorar el nivel de vida de todo el pueblo trabajador, si la tierra, las fábricas, las máquinas, etc., no hubieran sido usurpadas por un puñado de propietarios privados, quienes extraen sus millones de la miseria del pueblo. La crisis enseña que los obreros no pueden limitarse a luchar por obtener de los capitalistas concesiones parciales: durante el período de prosperidad industrial tales concesiones pueden ser conquistadas (los obreros rusos, con su enérgica lucha, las conquistaron más de una vez en los años que van de 1884 a 1898), pero cuando se produce el crac, los capitalistas no sólo arrebatan a los obreros las concesiones otorgadas, sino que se aprovechan de su situación de impotencia para reducirles aun más el salario. Y así continuará sucediendo inevitablemente, mientras los ejércitos del proletariado socialista no derroquen el dominio del capital y de la propiedad privada. La crisis demuestra cuan miopes eran los socialistas (que se llamaban a sí mismos “críticos”, sin duda porque hacían suyas, sin crítica alguna, las teorías de los economistas burgueses), que dos años atrás anunciaban ruidosamente que los cracs son hoy menos probables.


Las enseñanzas de la crisis, que revelan lo absurdo del sometimiento de la producción social a la propiedad privada, resultan tan aleccionadoras, que ahora la propia prensa burguesa reclama que, por ejemplo, se refuerce el control sobre los bancos. Pero control alguno podrá impedir que los capitalistas funden durante los períodos de prosperidad empresas que luego irán a la quiebra inevitablemente. Alchevski, fundador de los bancos Agrario y Comercial de Jarkov, ambos ahora en quiebra, obtuvo, por medios lícitos e ilícitos, los millones de rublos necesarios para fundar y sostener empresas mineras y metalúrgicas que prometían montañas de oro. Una depresión en la industria provocó la ruina de esos bancos y esas empresas mineras (Sociedad del Donets-Iúrievo). ¿Pero qué significa esta “ruina” de empresas en la sociedad capitalista? Significa que los capitalistas más débiles, los de “segunda magnitud”, son desplazados por los grandes millonarios. Alchevski, el millonario de Jarkov, es suplantado por el millonario moscovita Riabushinski, quien, como dispone de un capital mayor, oprimirá con más fuerza a los obreros. El desplazamiento de capitalistas de segunda magnitud por los de primera magnitud, el aumento del poder del capital, la ruina de gran cantidad de pequeños propietarios (por ejemplo, los pequeños inversores, que con la quiebra de los bancos pierden toda su fortuna), el terrible empobrecimiento de los obreros: esto es lo que trae consigo la crisis. Recordemos, además, los casos publicados por Iskra, en los que se describe cómo los capitalistas alargan la jornada de trabajo y procuran remplazar a los obreros más concientes por otros más dóciles y sumisos, provenientes de las aldeas.

En general, los efectos de la crisis son infinitamente más graves en Rusia que en cualquier otro país. A la paralización de la industria se agrega el hambre entre los campesinos. A los obreros desocupados se los arroja de las ciudades al campo, ¿pero adonde enviar a los campesinos sin trabajo? Con la expulsión de los obreros al campo se pretende limpiar las ciudades de gente que provoca intranquilidad, pero puede ocurrir que los expulsados logren despertar de su secular sumisión aunque sea a una parte de los campesinos y la induzcan, no sólo a solicitar, sino también a exigir. A los obreros y campesinos los une hoy, no sólo el hambre y la desocupación, sino también el yugo policial, que priva a los obreros de la posibilidad de unirse y de defenderse, y a los campesinos de la ayuda que les envían donantes de buena voluntad. La pesada garra policíaca se vuelve cien veces más pesada para los mil millones de personas que han perdido todo medio de subsistencia. Los gendarmes y la policía en las ciudades, los comisarios y sargentos de policía en las aldeas, perciben con toda claridad que el odio hacia ellos crece a diario, y empiezan a temer, no sólo los comedores populares en las aldeas, sino hasta los anuncios sobre la colecta de donativos que aparecen en los diarios. ¡ Miedo a las donaciones ! Resulta así verdad aquello de que el ladrón tiene cola de paja. Cuando el ladrón ve que un transeúnte da una limosna a la persona a quien él ha despojado, se imagina que ambos se estrechan la mano para mancomunar sus esfuerzos y acabar con él.

NOTA: Talvez alguns leitores considerem um texto ultrapassado. Mas é bom as pessoas conhecerem as idéias de quem já fez muita diferença na história, ainda que a história faça um belo esforço para fazerem desaparecer os seus sujeitos ao longo dos tempos, séculos e anos. Lenin é um belo exemplo disto. Desculpe-me, somente, pelo texto em espanhol, mas é da vida.....

domingo, 13 de setembro de 2009

COMEÇA HOJE A SEMANA FARROUPILHA - DEVERÍAMOS PENSAR EM QUAL É A LUTA DE HOJE...

Porque este papo de que no passado era melhor é coisa de imbecil completo.

Toma vergonha nesta cara bolachuda e pensa o que deves fazer agora se és tributário de fato de alguma tradição de luta.

E é somente por isto que tenho alguma reverência e respeito pela história do Rio Grande o resto é tudo balela e coisa de mocinho.

Em frente gauchada....

O passado já se fez...

importa agora fazer no presente...

importa agora escolher o futuro...

Bom churrasco dominical....

UM MÊS SEM FUMAR - A REVOLUÇÃO SE INICIA

Há exatos 30 dias fumei o último cigarro descendo a lomba aqui de casa seguindo a caminho do trabalho. Foi uma decisão rápida que, de certa forma, se encaixou num raciocínio de médio prazo que eu vinha levando desde janeiro, desde o meu aniversário.

A minha relação de usuário com cigarros começou lá pelos doze anos de idade. Tanto minha mãe como meu pai fumam - e ainda fumam aliás - apesar do enfisema de um e do pulmão extirpado do outro - só isto já bastaria para pensar seriamente em parar de fumar. Meu pai fuma menos hoje, bem menos, mas ainda fuma e minha mãe de certa forma deixa o cinzeiro fumar por ela dando um peguinhas ligeiros e largando de volta.

Eu tinha dito lá no dia 13 de agosto que haviam duas motivações por trás do meu ato: de um lado a convicção de que já fumei todos os cigarros que eu gostaria de fumar e que nenhum mais fará diferença positiva alguma e, de outro lado, aquela construção malandra de me dar presentes - coisas que eu gosto a cada mês sem fumar. Pois bem, hoje é o dia dos presentes ou "pelentes" como tem falado minha filha Antônia. E eu inda não sei bem qual presente. Meu celular tá virado num chapéu véio, mas não ando muito apaixonado por isto não, estou mais afim de alguns sapatos e camisas, mas também penso num relógio de pulso novo e, velho hábito, cds, livros e filmes.

É uma verdadeira revolução na minha vida. Porque mudaram vários hábitos. Por exemplo, a atitude frequente minha - e creio da maior parte dos fumantes - é frente a qualquer aborrecimento, frustração, limitação ou necessidade de engolir algo, você vai lá se afasta e liga um cigarro, como se fosse um tubo de oxigênio para alguém que ficou sem ar, mas ora essa, é o contrário mano, é um tubo de intoxicação, um tubo justamente de afogamento do teu corpo e mente. Se alguém desconfiar de que estou me tornando um daqueles ex-fumantes chatos, podes crer que é justamente o contrário. Tenho a maior compreensão com os meus amigos fumantes e não vou censurar nenhum deles não.

Minha irmã Rachel - que nunca fumou na vida - ficou preocupada comigo dizendo que quem sabe eu procurasse um psiquiatra, ou um médico para ver direitinho como tratar saudavelmente desta saida, sem me aborrecer demais e sem ficar ranzinza. Disse-me, com toda a clareza, que ao ver dela todo fumante é um depressivo e que, portanto, é preciso tratar também da depressão para conseguir parar de fumar.

Eu não discordo dela, sobre a depressão e a necessidade de apoio, mas estou confiando no meu taco nesta questão e é por isto que estou chamando este processo de revolução. Na minha construção subjetiva sobre este assunto, para de fumar é somente uma peça numa construção maior. Para os amigos, como arquitetos e engenheiros, entenderem melhor parar de fumar é só o banheiro na reforma da casa, tem várias outras peças que clamam por uma nova atitude também.

Só para ampliar o foco um pouco. Pretendo - esta é boa - mudar boa parte da minha forma tradicional de me relacionar com um monte de coisas, incluso nisto, minha própria relação profissional, social e política. Penso que é chegada a hora já do Daniel estabelecer certas prioridades para os próximos anos. E entre estas entra também aquela minha velha e boa relação com a saúde do meu corpo, com a prática de esportes e com a natureza. Isto creio é uma coisa que não depende do cigarro, mas que eu sei que com ele não é possível de forma satisfatória. E para mim isto é uma revolução na vida. Não é trocar de carro, de emprego, de casa, etc, é mudar a forma de vida mesmo.

Tem sido um muito bom começo.

E eu estou cada vez gostando mais do fato de poder pensar com mais clareza e precisão sobre as coisas.

Por fim, hoje também fazem três meses que eu iniciei este blog.

Bons tempos estes que se iniciaram neste ano.

sábado, 12 de setembro de 2009

LENIN - SOBRE O ESQUERDISMO E A DISCIPLINA REVOLUCIONÁRIA

Esquerdismo, doença infantil do comunismo

Lenin

I – Em que sentido se pode falar da significação internacional da Revolução Russa?

Nos primeiros meses que se seguiram à conquista do Poder político pelo proletariado na Rússia (25-X/7-XI de 1917) poder-se-ia acreditar que, em virtude das enormes diferenças existentes entre a Rússia atrasada e os países adiantados da Europa Ocidental, a revolução proletária nesses países seria muito pouco parecida com a nossa. Atualmente já possuímos uma experiência internacional bastante considerável, experiência que demonstra, com absoluta clareza, que alguns dos aspectos fundamentais da nossa revolução não têm apenas significação local, particularmente nacional, russa, mas revestem-se, também, de significação internacional, E não me refiro à significação internacional no sentido amplo da palavra: não são apenas alguns, mas sim todos os aspectos fundamentais - e muitos secundários - da nossa revolução que têm significação internacional quanto à influência que exercem sobre todos os países. Refiro-me ao sentido mais estrito da palavra, isto é, entendendo por significação internacional a sua transcendência mundial ou a inevitabilidade histórica de que se repita em escala universal o, que aconteceu em nosso país, significação que deve ser reconhecida em alguns dos aspectos - fundamentais da nossa revolução.

Naturalmente, seria o maior dos erros exagerar o alcance dessa verdade, aplicando-a a outros aspectos da nossa revolução além de alguns dos fundamentais. Também seria errado não ter em conta que depois da vitória da revolução proletária, mesmo que seja em apenas um dos países adiantados, se produzirá, com toda certeza, uma radical transformação: a Rússia, logo depois disso, transformar- se-á não em país modelo, e sim, de novo, em pais atrasado (do ponto de vista “soviético” e socialista).

No momento histórico atual, porém, trata-se exatamente de que o exemplo russo ensina algo a todos os países, algo muito substancial, a respeito de seu futuro próximo e inevitável. Os operários evoluídos de todos os países já compreenderam isso há muito tempo e, mais que compreender, já perceberam, sentiram com seu instinto de classe revolucionária. Daí a “significação” internacional (no sentido estrito da palavra) do Poder Soviético e dos fundamentos da teoria e da tática bolcheviques. Esse fato não foi compreendido pelos chefes “revolucionários” da II Internacional, como Kautsky na Alemanha e Otto Bauer e Friedrich Adler na Áustria, que, por isso, se converteram em reacionários, em defensores do pior dos oportunismo e da social-traição. Assinalemos, de passagem, que o folheto anônimo A Revolução Mundial (Weltre-revolution) , publicado em 1919 em Viena (Sozialistische Bücherei, Heft II; Ignaz Brand*), apresenta com particular clareza todo o processo de desenvolvimento do pensamento e todo o conjunto de raciocínios, ou melhor, todo esse abismo de incompreensões, pedantismo, vilania e traição aos interesses da classe operária, tudo isso mascarado sob a “defesa” da idéia da “revolução mundial”.

Mas teremos de deixar para outra ocasião o exame mais pormenorizado desse folheto. Consignemos aqui apenas o seguinte: na época, já bem distante, em que Kautsky era um marxista e não um renegado, previa, ao abordar a questão como historiador, a possibilidade do surgimento de uma situação em que o revolucionarismo do proletariado russo se converteria em modelo para a Europa Ocidental. Isso foi em 1902, quando Kautsky publicou na Iskra revolucionária o artigo Os eslavos e a revolução, no qual dizia:

"Atualmente" (ao contrário de 1848) "pode-se acreditar que os eslavos não só se incorporaram às fileiras dos povos revolucionários, como, também, que o centro de gravidade das idéias e da obra revolucionárias se desloca, dia a dia, para os eslavos. O centro revolucionário está se transferindo do Ocidente para o Oriente. Na primeira metade do século XIX encontrava-se na França e, em alguns momentos, na Inglaterra. Em 1848, a Alemanha também se incorporou às fileiras das nações revolucionárias. .. O novo século inicia-se com acontecimentos que sugerem a idéia de que caminhamos para um novo deslocamento do centro revolucionário: concretamente, de sua transferência para a Rússia... É possível que a Rússia, que assimilou tanta iniciativa revolucionária do Ocidente, esteja hoje, ela própria, pronta para servir-lhe de fonte de energia revolucionária. O crescente movimento revolucionário russo será, talvez, o meio mais poderoso para eliminar esse espírito de filisteísmo flácido e de politicagem de praticismo mesquinho que começa a difundir-se em nossas fileiras e ressuscitará a chama viva do anseio de luta e a fidelidade apaixonada aos nossos grandes ideais. Há muito tempo que a Rússia deixou de ser para a Europa Ocidental um simples reduto da reação e do absolutismo. O que acontece atualmente é, talvez, exatamente o contrário. A Europa Ocidental torna-se o reduto da reação e do absolutismo russos... É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar há muito tempo se não fossem obrigados a lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o capital europeu. Esperamos que dessa vez consigam derrotar ambos os inimigos e que a nova “santa aliança" desmorone, mais rapidamente que suas predecessoras. Contudo, seja qual for o resultado da luta atual na Rússia, o sangue e o sofrimento dos mártires que essa luta cria, infelizmente em demasia, não serão inúteis e sim, pelo contrário, fecundarão os germes da revolução social em todo o mundo civilizado, fazendo-os crescer com maior esplendor e rapidez. Em 1848, os eslavos eram uma terrível geada que calcinava as flores da primavera popular. É bem possível que agora venham a representar o papel da tormenta que romperá o gelo da reação e trará consigo irresistivelmente, uma nova e feliz primavera para os povos". (Karl Kautsky, Os eslavos e a revolução, artigo publicado na Iskra, jornal revolucionário da social-democracia, russa, n.º 18, 10 de março de 1902).

Como Karl Kautsky escrevia bem, há dezoito anos!

II - Uma das condições fundamentais do êxito dos bolcheviques

Hoje, sem dúvida, quase todo mundo já compreende que os bolcheviques; não se teriam mantido no poder, não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, não fosse a disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, de nosso Partido, não fosse o total e incondicional apoio da massa da classe operária, isto é, tudo que ela tem de consciente, honrado, abnegado, influente e capaz de conduzir ou trazer consigo as camadas atrasadas.

A ditadura do proletariado é a guerra. mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, cuja resistência está decuplicada, em virtude de sua derrota (mesmo que em apenas um país), e cuja potência consiste não só na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, como também na força do costume, na força da pequena produção. Porque, infelizmente, continua a haver no mundo a pequena produção em grande escala, e ela cria capitalismo e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo espontâneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária, e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem uma guerra prolongada, tenaz, desesperada, mortal; uma guerra que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única.

A experiência da ditadura proletária triunfante na Rússia, repito, demonstrou, de modo palpável, a quem não sabe pensar ou a quem não teve oportunidade de refletir sobre esse problema, que a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia.

Fala-se disso com freqüência. Mas não se medita suficientemente sobre o que isso significa e sobre as condições em que isso se torna possível. Não conviria que as saudações entusiásticas ao Poder dos Sovietes e aos bolcheviques fossem acompanhadas, mais amiúde, pela mais séria análise das causas que permitiram aos bolcheviques forjar a disciplina de que necessita o proletariado revolucionário?

0 bolchevismo existe como corrente do pensamento político e como partido político desde 1903. Somente a história do bolchevismo em todo o período de sua existência é capaz de explicar satisfatoriamente as razões pelas quais ele pôde forjar e manter, nas mais difíceis condições, a disciplina férrea, necessária à vitória do proletariado.

A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como é ela comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar, pela consciência da vanguarda proletária e por sua fidelidade à revolução, por sua firmeza, seu espírito de sacrifício, seu heroísmo. Segundo, por sua capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias. Finalmente, pela justeza da linha política seguida por essa vanguarda, pela justeza de sua estratégia, e de sua tática políticas, com a condição de que as mais amplas massas se convençam disso por experiência própria. Sem essas condições é impossível haver disciplina num partido revolucionário realmente capaz de ser o partido da classe avançada, fadada a derrubar a burguesia e a transformar toda a sociedade. Sem essas condições, os propósitos de implantar uma disciplina convertem-se, inevitavelmente, em ficção, em frases sem significado, em gestos grotescos. Mas, por outro lado, essas condições não podem surgir de repente. Vão se formando somente através de um trabalho prolongado, de uma dura experiência; sua formação é facilitada por uma acertada teoria revolucionária que, por sua vez, não é um dogma e só se forma de modo definitivo em estreita ligação com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário.

Se o bolchevismo pode elaborar e levar à prática com êxito, nos anos de 1917/1920, em condições de inaudita gravidade, a mais rigorosa centralização e uma disciplina férrea, deve-se simplesmente a uma série de particularidades históricas da Rússia.

De um lado, o bolchevismo surgiu em 1903 fundamentado na mais sólida base da teoria do marxismo. E a justeza dessa teoria revolucionária - e de nenhuma outra - foi demonstrada tanto pela experiência internacional de todo o século XIX como, em particular, pela experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões do pensamento revolucionário na Rússia. No decurso de quase meio século, aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento de vanguarda na Rússia, sob o jugo do terrível despotismo do czarismo selvagem e reacionário, procurava avidamente uma teoria revolucionária justa, acompanhando com zelo e atenção admiráveis cada “última palavra” da Europa e da América nesse terreno. A Rússia tornou sua a única teoria revolucionária justa, o marxismo, em meio século de torturas e sacrifícios extraordinários, de heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível energia e abnegada pesquisa, de estudo, de experimentação na prática, de desilusões, de comprovação, de comparação com a experiência da Europa. Graças à emigração provocada pelo czarismo, a Rússia revolucionária da segunda metade do século XIX contava, mais que qualquer outro país, com enorme riqueza de relações internacionais e excelente conhecimento de todas as formas e teorias do movimento revolucionário mundial.

Por outro lado, o bolchevismo, surgido sobre essa granítica base teórica, teve uma história prática de quinze anos (1903/1917) sem paralelo no mundo, em virtude de sua riqueza de experiências. Nenhum país, no decurso desses quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente, por uma experiência revolucionária tão rica, uma rapidez e um variedade semelhantes na sucessão das diversas formas do movimento, legal e ilegal, pacífico e tumultuoso, clandestino e declarado, de propaganda nos círculos e entre as massas, parlamentar e terrorista. Em nenhum país esteve concentrada, em tão curto espaço de tempo, semelhante variedade de formas, de matizes, de métodos de luta, de todas as clames da sociedade contemporânea, luta que, além disso, em conseqüência do atraso do país e da opressão do jugo czarista, amadurecia com singular rapidez e assimilava com particular: sofreguidão e eficiência a “última palavra” da experiência política americana e européia.

III - As principais etapas da história do bolchevismo

Anos de preparação da revolução (1903/1905). Prenúncio de grande tempestade em toda parte, fermentação e preparativos em todas as classes. No estrangeiro, a imprensa dos emigrados expõe teoricamente todas as questões essenciais da revolução. Com uma luta encarniçada de concepções programáticas e táticas, os representantes das três classes fundamentais, das três correntes políticas principais - a liberal-burguesa, a democrático-pequeno- burguesa (encoberta pelos rótulos de social-democrá tica” e “social-revolucioná ria”) é a proletária revolucionária - prenunciam e preparam a futura luta aberta de classes. Todas as questões que motivaram a luta armada das massas em 1905/1907 e em 1917/1920 podem (e devem) ser encontradas, em forma embrionária, na imprensa daquela época. Naturalmente, entre essas três tendências principais existem todas as formações intermediárias, transitórias, híbridas que se queira. Em termos mais exatos: na luta entre os órgãos da imprensa, os partidos, as frações e os grupos vão se cristalizando as tendências ideológicas e políticas com caráter realmente de classe; cada uma das classes forja para si uma arma ideológica e política para as batalhas futuras.

Anos de revolução (1905/1907). Todas as classes agem abertamente. Todas as concepções, programáticas e táticas são comprovadas através da ação das massas. Luta grevista sem precedentes no mundo inteiro por sua amplitude e dureza. Transformação da greve econômica em greve política e da greve política em insurreição. Comprovação prática das relações existentes entre o proletariado dirigente e os camponeses dirigidos, vacilantes e instáveis. Nascimento, no processo espontâneo da luta, da forma soviética de organização. As discussões de então sobre o papel dos Soviets são uma antecipação da grande luta de 1917/1920. A sucessão das formas de luta parlamentares e não parlamentares, da tática de boicote do parlamento e de participação no mesmo, e das formas legais e ilegais de luta,, assim como suas relações recíprocas e as ligações existentes entre elas, distinguem-se por uma assombrosa riqueza de conteúdo. Do ponto de vista do aprendizado dos fundamentos da ciência política pelas massas e os chefes, pelas massas e os partidos - cada mês desse período eqüivale a um ano de desenvolvimento “pacifico” e “constitucional” . Sem o “ensaio geral” de 1905, a vitória da Revolução de Outubro de 1917 teria sido impossível.

Anos de reação (1907/1910). 0 czarismo triunfou. Foram esmagados todos os partidos revolucionários e de posição. Desânimo, desmoralização, cisões, dispersão, deserções, pornografia em vez de política. Fortalecimento da tendência para o idealismo filosófico, misticismo como disfarce de um estado de espírito contra-revolucioná rio. Todavia, ao mesmo tempo, justamente essa grande derrota dá aos partidos revolucionários e à classe revolucionária uma verdadeira lição extremamente proveitosa, uma lição de dialética histórica, de compreensão, de destreza e arte na direção da luta política. Os amigos se manifestam na desgraça. Os exércitos derrotados passam por uma boa escola.

0 czarismo vitorioso vê-se obrigado a destruir apressadamente os remanescentes do regime pré-burgues e patriarcal na Rússia. O desenvolvimento burguês do país progride com notável rapidez. As ilusões à margem e acima das classes, as ilusões sobre a possibilidade de evitar o capitalismo se dissipam. A luta de classes manifesta-se de modo absolutamente novo e com maior relevo.

Os partidos revolucionários têm de completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada pela de saber recuar ordenadamente. É preciso compreender - e a classe revolucionária aprende a compreendé-la através de sua própria e amarga experiência - que não se pode triunfar sem saber atacar e empreender a retirada com ordem. De todos os partidos revolucionários e de oposição derrotados, foram os bolcheviques que recuaram com maior ordem, com menores perdas para seu “exército”, conservando melhor seu núcleo central, com cisões menos profundas e irreparáveis, menos desmoralização e com maior capacidade para reiniciar a ação de modo mais amplo, justo e vigoroso. E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam.

Anos de ascenso (1910/1914). A principio, o ascenso foi de uma lentidão incrível; em seguida, depois dos acontecimentos do Lena2. em 1912, verificou-se com rapidez um pouco maior. Vencendo dificuldade3 inauditas, os bolcheviques eliminaram os mencheviques, cujo papel como agentes da burguesia no movimento operário foi admiravelmente compreendido depois de 1905 por toda a burguesia e aos quais, por isso mesmo, ela apoiava de mil maneiras contra os bolcheviques. Estes nunca teriam conseguido eliminar os mencheviques, caso não houvessem aplicado uma tática justa, combinando o trabalho ilegal com a utilização obrigatória das “possibilidades legais”. Na mais reacionária das Dumas, os bolcheviques conquistaram toda a bancada operária.

Primeira guerra imperialista mundial (1914/1917). 0 parlamentarismo legal, com um “parlamento” ultra-reacioná rio, presta os mais úteis serviços ao partido do proletariado revolucionário, aos bolcheviques. Os deputados bolcheviques são deportados para a Sibéria. Na imprensa dos emigrados encontram entre nós sua mais plena expressão todos os matizes das concepções do social-imperialismo , do social-chovinismo, do social--patriotismo , do internacionalismo inconseqüente e do conseqüente, do pacifismo e, da negação revolucionária das ilusões pacifistas. Os imbecis sabichões e as velhas comadres da II Internacional, que franziam o cenho com desdém e arrogância ante a abundância de “frações” no socialismo russo e ante a luta encarniçada que havia entre elas, foram incapazes, quando a guerra suprimiu em todos os países adiantados a tão alardeada “legalidade” de organizar, ainda que apenas aproximadamente, um intercâmbio livre (ilegal) de idéias e uma elaboração livre (ilegal) de concepções justas, como os revolucionários russos organizaram na Suíça e em outros países. Precisamente por isso, tanto os social-patriotas declarados como os “kautskistas” de todos os países revelaram-se os piores traidores do proletariado. E se o bolchevismo foi capaz de triunfar em 1917/1920, uma das causas fundamentais dessa vitória consiste em que desmascarou impiedosamente, já desde fins de 1914, a vileza, a infâmia e a abjeção do social-chovinismo e do “kautskismo” (ao qual correspondem o longuetismo3 na França, as idéias dos chefes do Partido Trabalhista Independente4 e dos fabianos5 na Inglaterra, de Turati na, Itália, etc.) e em que as massas foram se convencendo cada vez mais, por experiência própria, de que as concepções dos bolcheviques eram justas.

Segunda revolução russa (fevereiro-outubro de 1917). 0 incrível grau de decrepitude e caducidade do czarismo criou contra ele (com ajuda dos reveses e sofrimentos de uma guerra infinitamente penosa) uma tremenda força destruidora. Em poucos dias, a Rússia converteu-se numa república burguesa democrática mais livre (nas condições da guerra) que qualquer outro país. Os chefes dos partidos de oposição e revolucionários começaram a formar o governo, como nas repúblicas do mais “puro parlamentarismo” , pois o título de chefe de partido de oposição no parlamento, mesmo no mais reacionário jamais havido, sempre facilitou o papel ulterior desse chefe na revolução Em poucas semanas, os mencheviques e os “social-revolucioná rios” assimilaram com perfeição todos os maneirismos, e posições, argumentos o sofismas dos heróis europeus da II Internacional, dos ministerialistas e de toda a corja oportunista Tudo que hoje lemos sobre os Scheidemann e os Noske, Kautsky e Hilferding, Renner e Austerlitz, Otto Bauer e Fritz Adler, Turati e Longuet, sobre os fabianos e os chefes do Partido Trabalhista Independente da Inglaterra nos parece (e é, na realidade) uma repetição monótona de um assunto antigo e conhecido. A História os ludibriou, obrigando os oportunistas de um país atrasado a se manifestarem antes dos oportunistas de uma série de países adiantados.

Se todos os heróis da II Internacional fracassaram e se cobriram de opróbrio na questão do papel e da importância dos Soviets e do Poder Soviético; se eles se cobriram de ignominia com singular “brilhantismo” e se os chefes dos três grandes partidos que se separaram agora da II Internacional (Partido Social-Democrata Independente da Alemanha6, Partido Longuetista da França e Partido Trabalhista Indepedente da Inglaterra) se confundiram nossa questão; se todos eles se tornaram escravos dos preconceitos da democracia pequeno-burguesa (exatamente da mesma maneira que os pequeno-burgueses de 1848, que se chamavam “social-democratas” ), também é verdade que já vimos tudo isso no exemplo dos mencheviques. A História fez esse gracejo: os Soviets surgiram na Rússia em 1905, foram falsificados em fevereiro-outubro de 1917 pelos mencheviques - que fracassaram por não haver compreendido o papel e a importância dos Soviets --- e hoje surgiu no mundo inteiro a idéia do Poder Soviético, idéia que se difunde com inusitada rapidez entre o proletariado de todos os países. Enquanto isso, os antigos heróis da II Internacional fracassam em toda parte, por não terem sabido compreender, do mesmo modo que os nossos mencheviques, o papel e a importância dos Soviets. A experiência demonstrou que, em algumas questões essenciais da revolução proletária, todos os países passarão, inevitavelmente, por onde a Rússia passou.

Contrariamente às opiniões que não raro se expendem agora na Europa e na América, os bolcheviques começaram com muita prudência e não prepararam de modo algum com facilidade a sua vitoriosa luta contra a república burguesa parlamentar (de fato) e contra os mencheviques. No início do período citado, não conclamamos à derrubada do governo, e sim explicamos a impossibilidade de fazê-lo sem modificar previamente a composição e o estado de espírito dos Soviets. Não declaramos o boicote ao parlamento burguês, mas, pelo contrário, dissemos - e a partir da Conferência de nosso Partido, celebrada em abril de 1917, passamos a dizê-lo oficialmente em nome do Partido - que uma república burguesa com uma Constituinte era preferível à mesma república sem Constituinte, mas que a república “operária-camponesa” soviética é melhor que qualquer república democrático-burguesa , parlamentar. Sem essa preparação prudente, minuciosa, sensata e prolongada não teríamos podido alcançar nem manter a vit6ria; de Outubro de 1917.

IV - Quais foram os inimigos que o bolchevismo enfrentou, dentro do movimento operário, para poder crescer, fortalecer-se e temperar-se?

Em primeiro lugar, e acima de tudo, na luta contra o oportunismo que, em 1914, transformou- se definitivamente em social -chovinismo e se bandeou, de uma vez por todas, para o lado da burguesia, contra o proletariado. Esse era, naturalmente, o principal inimigo do bolchevismo dentro do movimento operário, e continua sendo, em escala mundial. O bolchevismo prestou e presta a esse inimigo a maior atenção. Esse aspecto da atividade dos bolcheviques já é muito bem conhecido no estrangeiro.

Quanto a outro inimigo do bolchevismo no movimento operário, a coisa já é bem diferente. Pouco se sabe, no estrangeiro, que o bolchevismo cresceu, formou-se e temperou-se, durante muitos anos, na luta contra o revolucionarismo pequeno-burguês, parecido com o anarquismo, ou que adquiriu dele alguma coisa, afastando-se, em tudo que é essencial, das condições e exigências de uma conseqüente luta de classes do proletariado. Para os marxistas está plenamente provado do ponto de vista teórico - e a experiência de todas as revoluções e movimentos revolucionários da Europa confirmam-no totalmente - que o pequeno proprietário, o pequeno patrão (tipo social muito difundido em vários países europeus e que tem caráter de massas), que, muitas vezes sofre sob o capitalismo uma pressão contínua e, amiúde, uma agravação terrivelmente brusca e rápida de suas precárias condições de vida, não sendo difícil arruinar-se, passa-se facilmente para uma posição ultra-revolucionária, mas é incapaz de manifestar serenidade, espírito de organização, disciplina e firmeza. O pequeno-burguês “enfurecido” pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenômeno social comum a todos os países capitalistas.

São por demais conhecidas a inconstância e a esterilidade dessas veleidades revolucionárias, assim como a facilidade com que se transformam rapidamente em submissão, apatia, fantasias, e mesmo num entusiasmo “furioso” por essa ou aquela tendência burguesa “em moda”. Contudo, o reconhecimento teórico, abstrato, de tais verdades não é suficiente, de modo algum, para proteger um partido revolucionário dos antigos erros, que sempre acontecem por motivos inesperados, com ligeira variação de forma, com aparência ou contorno nunca vistos, anteriormente, numa situação original (mais ou menos original).

0 anarquismo foi, muitas vezes, uma espécie de expiação dos pecados oportunistas do movimento operário. Essas duas anomalias completavam- se reciprocamente. Se o anarquismo exerceu na Rússia uma influência relativamente insignificante nas duas revoluções (1905 e 1917) e durante sua preparação, não obstante a população pequeno-burguesa ser aqui mais numerosa que nos países europeus, isso se deve, em parte, sem dúvida, ao bolchevismo, que sempre lutou impiedosa e inconciliavelmente contra o oportunismo. Digo “em parte” porque o que mais contribuiu para debilitar o anarquismo na Rússia foi a possibilidade que teve no passado (década de 70 do século XIX) de alcançar um desenvolvimento extraordinário e revelar profundamente seu caráter falso e sua incapacidade de servir como teoria dirigente da classe revolucionária.

Ao surgir em 1903, o bolchevismo herdou a tradição de luta implacável contra o revolucionarismo pequeno-burguês, semi-anarquista (ou capaz de “namoricar” o anarquismo), tradição que sempre existira na social-democracia revolucionária e que se consolidou particularmente em nosso país em 1900/1903, quando foram assentadas as bases do partido de massas do proletariado revolucionário da Rússia. O bolchevismo fez sua e continuou a luta contra o partido que mais fielmente representava as tendências do revolucionarismo pequeno-burguê s (isto é, o partido dos “socialistas revolucionários” ) em três pontos principais. Em primeiro lugar, esse partido, que repudiava o marxismo, obstinava-se em não querer compreender (talvez fosse mais justo dizer que não podia. compreender) a necessidade de levar em conta, com estrita objetividade, as forças de classe e suas relações mútuas antes de empreender qualquer ação política. Em segundo lugar, esse partido via um sinal particular de seu “revolucionarismo” ou de seu “esquerdismo” no reconhecimento do terror individual, dos atentados, que nós, marxistas, rejeitávamos categoricamente. É claro que condenávamos o terror individual exclusivamente por conveniência; as pessoas capazes de condenar “por princípio” o terror da grande revolução francesa ou, de modo geral, o terror de um partido revolucionário vitorioso, assediado pela burguesia do mundo inteiro, já foram fustigadas e ridicularizadas por Plekhanov em 1900/1903, quando este era marxista e revolucionário. Em terceiro lugar, ser “esquerdista” consistia, para os social-revolucioná rios, em rir dos pecados oportunistas, relativamente leves, da social-democracia alemã, ao mesmo tempo que imitavam os ultra-oportunistas desse mesmo partido, em questões como a agrária ou a da ditadura do proletariado.

A História, diga-se de passagem, confirmou hoje, em grande escala, em escala histórico-mundial, a opinião que sempre defendemos, isto é: que a social-democracia revolucionária alemã (devemos levar em conta que, já em 1900/1903, Plekhanov reclamava a expulsão de Bernstein do partido e que os bolcheviques, mantendo sempre essa tradição, desmascaravam em 1913 toda a vilania, a baixeza e a traição de Legien) estava mais próxima que ninguém do partido de que o proletariado revolucionário necessitava para triunfar. Agora, em 1920, depois de todos os rompimentos e crises ignominiosos da época da guerra e dos primeiros anos que a sucederam, vê-se com clareza que, de todos os partidos ocidentais, a social-democracia revolucionária alemã é, exatamente, a que deu os melhores chefes e que mais rapidamente se recuperou, corrigiu e fortaleceu. Isso também se verifica no partido dos espartaquistas7 e na ala esquerda, proletária, do “Partido Social-Democrata Independente da Alemanha”, que mantém uma luta firme contra o oportunismo e a falta de caráter dos Kautsky, Hilferding, Ledebour e Crispien. Se dermos agora uma olhada num período histórico completamente encerrado, que vai da Comuna de Paris à primeira República Socialista Soviética, veremos delinear-se com relevo absolutamente definido e indiscutível a posição do marxismo diante do anarquismo. Afinal de contas, o marxismo demonstrou ter razão. E se os anarquistas assinalavam com justeza o caráter oportunista das concepções sobre o Estado que imperavam na maioria dos partidos socialistas, é preciso observar, em primeiro lugar, que esse caráter oportunista provinha de uma deformação e até mesmo de uma ocultação consciente das idéias de Marx a respeito do Estado (em meu livro 0 Estado e a Revolução registrei que Bebel manteve no fundo de uma gaveta durante 36 anos, de 1875 a 1911, a carta em que Engels denunciava com singular realce, vigor, franqueza e clareza o oportunismo das concepções social-democratas em voga sobre o Estado); e, em segundo lugar, que a retificação dessas idéias oportunistas e o reconhecimento do Poder Soviético e de sua superioridade sobre a democracia parlamentar burguesa partiram com maior amplitude e rapidez precisamente das tendências mais marxistas existentes no selo dos partidos socialistas da Europa e da América.

Houve dois momentos em que luta do bolchevismo contra os desvios “esquerdistas” de seu próprio partido adquiriu dimensões particularmente consideráveis: em 1908, em torno da participação num “parlamento” ultra-reacioná rio e nas associações operárias legais, regidas pelas leis mais reacionárias, e em 1918 (paz de Brest), em torno da admissibilidade desse ou daquele “compromisso”.

Em 1908, os bolcheviques “de esquerda” foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em não querer compreender a necessidade de participar num “parlamento” ultra-reacioná rio. Os “esquerdistas” , entre os quais havia muitos excelentes revolucionários que depois foram (e continuam sendo) honrosamente membros do Partido Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz experiência do boicote de 1905. Quando o czar anunciou, em agosto de 1905, a convocação de um “parlamento” consultivo, os bolcheviques, contra todos os partidos da oposição e contra os mencheviques, declararam o boicote a esse parlamento, que foi liqüidado, com efeito, pela revolução de outubro de 1905. Naquela ocasião, o boicote foi justo, não porque seja certo abster-se, de modo geral, de participar nos parlamentos reacionários, mas porque foi levada em conta, acertadamente, a situação objetiva, que levava à rápida transformação das greves de massas em greve política e, sucessivamente, em greve revolucionária e em insurreição. Além disso, o motivo da luta era, nessa época, saber se se devia deixar nas mãos do czar a convocação da primeira instituição representativa, ou se se devia tentar arrancá-la das mãos das antigas autoridades. Como não havia, nem podia haver, a plena certeza de que a situação objetiva era semelhante e que seu desenvolvimento havia de realizar-se no mesmo sentido e com igual rapidez, o boicote deixava de ser justo.

O boicote dos bolcheviques ao “parlamento” em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares. Mas transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito critico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros. O que já constituíra um erro, embora pequeno e facilmente corrigível *, foi o boicote dos bolcheviques à “Duma” em 1906. Os boicotes de 1907, 1908 e dos anos seguintes foram erros muito mais sérios e dificilmente reparáveis, pois, de um lado, não era acertado esperar que a onda revolucionária se reerguesse com muita rapidez e se transformasse em insurreição e, por outro lado, o conjunto da situação histórica originada pela renovação da monarquia burguesa impunha a necessidade de combinar-se o trabalho legal com o ilegal. Hoje, quando se considera retrospectivamente esse período histórico já encerrado por completo, cuja ligação com os períodos posteriores já se manifestou plenamente, compreende-se com extrema clareza que os bolcheviques não teriam podido conservar (já não digo consolidar, desenvolver e fortalecer) o núcleo sólido do partido revolucionário do proletariado durante os anos 1908/1914, se não houvessem defendido, na mais árdua luta, a combinação obrigatória das formas legais com as ilegais, a participação obrigatória num parlamento ultra-reacioná rio e numa série de instituições regidas por leis reacionárias (associações de mútuo socorro, etc.).

Em 1918, as coisas não chegaram à cisão. Os comunistas “de esquerda” só constituíram, na ocasião, um grupo especial, ou “fração”, dentro de nosso Partido, e por pouco tempo. No mesmo ano, os mais destacados representantes do “comunismo de esquerda”, Rádek e Bukharin, por exemplo, reconheceram abertamente seu erro. Achavam que a paz de Brest era um compromisso com os imperialistas, inaceitáveis por princípio e

funesto para o partido do proletariado revolucionário. Tratava-se, realmente, de um compromisso com os imperialistas; mas era precisamente um compromisso dessa espécie que era obrigatório naquelas circunstâncias.

Hoje, quando ouço, por exemplo, os “social-revolucionários” atacarem nossa tática ao assinar a paz de Brest, ou uma observação como a que me foi feita pelo camarada Landsbury durante uma conversa: “Os chefes de nossas trade-unions inglesas dizem que também se podem permitir um compromisso, uma vez que os bolcheviques se permitiram”, respondo habitualmente, antes de tudo, com uma comparação simples e “popular”:

Imagine que o automóvel em que você está viajando é detido por bandidos armados. Você lhes dá o dinheiro, a carteira de identidade, o revólver e o automóvel; mas, em troca disso, escapa da agradável companhia dos bandidos. Trata-se, evidentemente, de um compromisso. Do ut des (“dou” meu dinheiro, minhas armas e meu automóvel, “para que me dês” a possibilidade de seguir em paz). Dificilmente, porém, se encontraria um homem sensato capaz de declarar que esse compromisso é “inadmissível do ponto de vista dos princípios”, ou de denunciar quem o assumiu como cúmplice dos bandidos (ainda que esses, possuindo o automóvel, e as armas, possam utilizá-los para novas pilhagens). Nosso compromisso com os bandidos do imperialismo alemão foi semelhante a esse.

Mas quando os mencheviques e os social-revolucioná rios na Rússia, os partidários de ScheideMann (e, em grande parte, os kautskistas) na Alemanha, Otto Bauer e Friedrich Adler (sem falar dos Srs. Renner e outros) na Áustria, os Renaudel, Longuet & Cia. na França, os fabianos, os “independentes” e os “trabalhistas” 8 na Inglaterra assumiram, em 1914/1918 e em 1918/1920, com os bandidos de sua própria burguesia e, às vezes, da burguesia “aliada”, compromissos dirigidos contra o proletariado revolucionário de seu próprio país, esses senhores agiram como cúmplices dos bandidos.

A conclusão é clara: rejeitar os compromissos “por principio”, negar a legitimidade de qualquer compromisso, em geral, constitui uma infantilidade que é inclusive difícil de se levar a sério. O político que queira ser útil ao proletariado revolucionário deve saber distinguir os casos concretos de compromissos que são mesmo inadmissíveis, que são uma expressão de oportunismo e de traição, e dirigir contra esses compromissos concretos toda a força da critica, todo esforço de um desmascaramento implacável e de uma guerra sem quartel, não permitindo aos socialistas, com sua grande experiência de “manobristas”, e aos jesuítas parlamentares que se livrem da responsabilidade através de preleções sobre os compromissos em geral”. Os senhores “chefes” das trade-unions inglesas, assim como os da Sociedade Fabiana e os do Partido Trabalhista “Indepedente”, pretendem, exatamente desse modo, eximir-se da responsabilidade da traição que cometeram, por haver assumido semelhante compromisso que, na realidade, nada mais é que oportunismo, defecção e traição da pior, espécie.

Há compromissos e compromissos. É preciso saber analisar a situação e as circunstâncias concretas de cada compromisso, ou de cada variedade de compromisso. É preciso aprender a distinguir o homem que entregou aos bandidos sua bolsa e suas armas para diminuir o mal causado, por eles e facilitar sua captura e execução, daquele que dá aos bandidos sua bolsa e suas armas para participar da divisão do saque. Em política, isso está muito longe de ser sempre assim tão difícil como nesse pequeno exemplo de simplicidade infantil. Seria, porém, um simples charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma fórmula que, antecipadamente, apresentasse soluções adequadas para todas as circunstâncias da vida, ou aquele que prometesse que na política do proletariado nunca surgirão dificuldades nem situações complicadas.

A fim de não deixar margem a interpretações falsas, tentarei esboçar, ainda que em poucas palavras, algumas teses fundamentais para a análise dos casos concretos de compromisso.

O partido que acertou com o imperialismo alemão o compromisso de firmar a paz de Brest vinha elaborando na prática o seu internacionalismo desde fins de 1914. Esse partido não receou proclamar a derrota da monarquia czarista e estigmatizar a “defesa da pátria”, na guerra entre duas aves de rapina imperialistas. Os deputados desse partido no parlamento foram deportados para a Sibéria, em vez de seguir o caminho que leva às pastas ministeriais num governo burguês. A revolução, ao derrubar o czarismo e proclamar a república democrática, submeteu esse partido a uma nova e importante prova: não ajustou nenhum acordo com os imperialistas de “seu” país, e sim preparou sua derrubada e os derrubou. Esse mesmo partido, uma vez dono do Poder político, não deixou pedra sobre pedra nem da propriedade agrária nem da propriedade capitalista. Depois de publicar e inutilizar os tratados secretos dos imperialistas, esse partido propôs a paz a todos os povos e só cedeu ante a violência dos bandidos de Brest quando os imperialistas anglo-franceses frustaram a paz e depois de os bolcheviques terem feito tudo que, era humanamente possível para acelerar a revolução na Alemanha e em. outros países. A total justeza de semelhante compromisso, assumido por tal partido nessas circunstâncias, torna-se dia a dia mais clara e evidente para todos.

Os mencheviques e social-revolucioná rios da Rússia (do mesmo modo que todos os chefes da II Internacional no mundo inteiro, em 1914/1920) começaram pela traição, justificando direta ou indiretamente a “defesa da pátria”, isto é, a defesa de sua burguesia espoliadora, e persistiram na traição coligando-se com a burguesia de seu país e lutando a seu lado contra o proletariado revolucionário de seu próprio país. Sua união na Rússia com Kerenski e os democratas constitucionalistas9 e, depois, com KoIchak e Denikin, assim como a aliança de seus correligionários estrangeiros com a burguesia de seus respectivos países, foi uma deserção para o campo da burguesia, contra o proletariado. Seu compromisso com os bandidos do imperialismo consistiu, do principio ao fim, em tornar-se cúmplices do banditismo imperialista.


* Pode-se dizer, da política e dos partidos, com as variações correspondentes, o mesmo que dos indivíduos. Inteligente não é aquele que não comete erros. Não há, nem pode haver, homens que não cometam erros. Inteligente é aquele que comete erros não muito graves e sabe corrigi-los acertada e rapidamente. (Nota do autor)

V – O comunismo “de esquerda” na Alemanha. Chefes, partido, classe, massa.

Os comunistas alemães, de quem vamos falar agora, não se chamam de “esquerdistas” , mas de “oposição de princípio”, se não me engano. Mas, pelo que se segue, pode-se ver que têm todos os sintomas da “doença infantil do esquerdismo”.

0 folheto intitulado Cisão no Partido Comunista da Alemanha (Liga dos Espartaquistas) , que reflete o ponto de vista dessa oposição e que foi editado pelo “Grupo local de Francfort-sobre- o-Meno”, expõe com. grande evidência, exatidão, clareza e concisão a essência dos pontos de vista dessa oposição. Algumas citações serão suficientes para mostrar aos leitores essa essência:

“0 Partido Comunista é o partido da luta de classes mais decidida..."

“Do ponto de vista político, esse período de transição” (entre o capitalismo e o socialismo) "é o período da ditadura do proletariado. .."

"Surge a seguinte pergunta: quem deve exercer a ditadura; o Partido Comunista ou a classe proletária? Por princípio, devemos tender para a ditadura do Partido Comunista ou para a ditadura da classe proletária?". ..

(Os grifos são do original).

Mais adiante, o autor do folheto acusa o “CC” do Partido Comunista da Alemanha de procurar uma coalizão com o Partido Social-democrata Independente da Alemanha, de ter levantado “a questão do reconhecimento, em princípio, de todos os meios políticos” de luta, entre eles o parlamentarismo, somente para ocultar suas verdadeiras e principais intenções de coligar-se com os independentes. E o folheto continua:

“A oposição escolheu outro caminho. Defende o critério de que a questão da hegemonia do Partido Comunista e de sua ditadura nada mais é que uma questão de tática. Em todo caso, a hegemonia do Partido Comunista é a última forma de toda hegemonia de partido. Por principio, deve-se tender para a ditadura da classe proletária. E todas as medidas do Partido, sua organização, suas formas de luta, sua estratégia e sua tática devem orientar-se, para esse objetivo. De acordo com isso é preciso rejeitar do modo mais categórico todo compromisso com os demais partidos, todo retorno aos métodos parlamentares de luta, que já caducaram histórica e politicamente, toda política de manobra e conciliação". "Os métodos especificamente proletários de luta revolucionária devem ser ressaltados com energia. E, para abarcar os mais amplos setores e camadas proletários, que devem incorporar-se à luta revolucionária sob a direção do Partido Comunista, é preciso criar novas formas de organização, sobre a mais ampla base e com os mais amplos limites. Esse lugar de agrupamento de todos os elementos revolucionários é a União Operária, construída sobre a base das organizações de fábrica. Nela devem unir-se todos os operários fiéis ao lema: Fora dos Sindicatos! É nela que se forma o proletariado militante nas mais amplas fileiras combativas. Para ser admitido basta reconhecer a luta de classes, o sistema dos Soviets e a ditadura. Toda a educação política posterior das massas militantes e sua orientação política na luta é missão do Partido Comunista, que se encontra fora da União Operária..."

" ... Há agora, por conseguinte, dois partidos comunistas frente à frente:

"Um, é o partido dos chefes, que trata de organizar e dirigir a luta revolucionária de cima, aceitando os compromissos e o parlamentarismo com a finalidade de criar situações que permitam a esses chefes participar de um governo de coalizão, em cujas mãos esteja a ditadura.

O outro, é o partido das massas, que espera o ascenso da luta revolucionária de baixo, que conhece e aplica nessa luta um único método que leva firmemente ao objetivo traçado, rejeitando todos os processos parlamentares e oportunistas; esse método único é a derrubada incondicional da burguesia para depois implantar a ditadura de classe do proletariado, com a finalidade de instaurar o socialismo.. .”

“'... De um lado, a ditadura dos chefes; de outro, a ditadura das massas! Essa é a nossa palavra de ordem”.

Tais são as teses fundamentais que caracterizam o ponto de vista da oposição no Partido Comunista Alemão.

Todo bolchevique que tenha participado conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha observado de perto, não poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de haver lido tais opiniões: “Que velharias conhecidas! Que infantilidades de “esquerda”!”.

Examinemos, porém, mais de perto essas opiniões.

O simples fato de perguntar “ditadura do Partido ou ditadura da classe?” – “ditadura (partido) dos chefes ou ditadura (partido) das massas?” demonstra a mais incrível e irremediável confusão de idéias. Há pessoas que se esforçam para inventar alguma coisa inteiramente original e que, no seu afã de sabedoria, não conseguem senão cair no ridículo. Todos sabem que as massas se dividem em classes, que só é possível opor as massas às classes num sentido; opondo-se uma esmagadora maioria (sem dividi-la de acordo com as posições ocupadas no regime social da produção) a categorias que ocupam uma posição especial nesse regime; que as classes são, geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos), dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos são dirigidos, via de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados pelas pessoas mais prestigiosas, influentes o sagazes, eleitas para os cargos de maior responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e claro. Que necessidade havia de trocar isso por tais confusões, por essa espécie de volapuk*1 ? Essas pessoas se desnortearam, pelo visto, caindo numa situação difícil, em virtude da rápida sucessão da vida legal e ilegal do Partido, que altera as relações comuns, normais e simples entre os chefes, os partidos e as classes. Na Alemanha, como nos demais países europeus, as pessoas estão excessivamente habituadas com a legalidade, a eleição livre e regular dos “chefes” pelos congressos ordinários dos partidos, a comprovação cômoda da composição de classe desses últimos através das eleições parlamentares, dos comícios, imprensa, estado de espírito dos sindicatos e outras organizações, etc. Quando, em virtude da marcha impetuosa da revolução e do desenvolvimento da guerra civil, foi preciso passar dessa rotina para a sucessão da legalidade e da ilegalidade e sua combinação, para métodos “pouco cômodos”, “não, democráticos’, a fim de designar, formar ou conservar os “grupos de dirigentes’, essas pessoas perderam a cabeça e começaram a inventar um monstruoso absurdo. Ao que parece, os “tribunistas” holandeses10, que tiveram o azar de nascer num país pequeno, com uma tradição e condições de situação legal particularmente privilegiada e estável, e que nunca assistiram à sucessão das situações legais e ilegais, desorientaram- se e perderam a cabeça, favorecendo invenções absurdas.

Por outro lado, salta aos olhos o uso impensado e ilógico de algumas palavras “da moda” em nossa época sobre “a massa” e “os chefes”. Essas pessoas ouviram muitos ataques contra “os chefes” e os sabe de cor, ouviram como se os contrapunha à “massa”, mas não souberam raciocinar sobre o significado de tudo isso e ver as coisas com clareza.

No fim da guerra imperialista e depois dela, manifestou-se em todos os países com singular vigor e evidência o divórcio entre “os chefes” e “a massa”. A causa fundamental desse fenômeno foi explicada muitas vezes por Marx e Engels, de 1852 a 1892, usando o exemplo da Inglaterra. A situação monopolista, desse país originou o nascimento de uma “aristocracia operária” oportunista, semi-pequeno- burguesa, saída da “massa”. Os chefes dessa aristocracia operaria passavam-se freqüentemente para o campo da burguesia, que os sustentava direta ou indiretamente. Marx foi alvo do ódio, que lhe honra, desses canalhas, por havê-los, qualificado publicamente de traidores. O imperialismo moderno (do século XX) criou uma situação privilegiada, monopolista, para alguns países avançados, e, nesse terreno, surgiu em toda parte, dentro da II Internacional, esse tipo de chefes traidores, oportunistas, social-chovinistas, que defendem os interesses de sua corporação, de seu reduzido grupo de aristocracia operária. Esses partidos oportunistas afastaram-se das “massas”, isto é, dos setores mais amplos de trabalhadores, de sua maioria, dos operários pior remunerados. A vitória do proletariado revolucionário torna-se impossível sem a luta contra esse mal, sem o desmascaramento, a desmoralização e a expulsão dos chefes oportunistas social-traidores; essa política, exatamente, foi a aplicada pela II Internacional.

Mas, com tal pretexto, chegar a contrapor, em termos gerais, a ditadura das massas à ditadura dos chefes é um absurdo ridículo, uma tolice. O mais engraçado é que, de fato, em lugar dos antigos chefes que se limitavam a idéias comuns sobre as coisas simples, destacam-se (dissimulados pela palavra de ordem “abaixo os chefes”) chefes novos, que dizem supremos disparates e asneiras. Tais são, na Alemanha, Lauffenberg, Wolfweim, Horner11, Karl Schroeder, Friedrich Wendell e Karl Erler*2. As tentativas desse último para “aprofundar” a questão e proclamar, de modo geral, a inutilidade e o “caráter burguês” dos partidos políticos representam verdadeiras colunas de Hércules da estupidez, deixando qualquer um estupefato. Como é certo que de. um pequeno erro se pode fazer sempre um monstruosamente grande, caso se persista nele, caso se o aprofunde para justificá-lo, caso se tente “levá-lo às últimas conseqüências”!

Negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária: eis o resultado a que chegou a oposição. E isso eqüivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da burguesia. Eqüivale precisamente à dispersão, instabilidade, incapacidade de de dominar-se para unir-se e atuar de modo organizado, defeitos tipicamente pequeno-burgueses, que, se formos indulgentes com eles, causam inevitavelmente a ruína. de todo movimento revolucionário do proletariado. Negar a necessidade do Partido, do ponto-de-vista do comunismo, é dar um salto das vésperas da derrocada do capitalismo (na Alemanha) não até a fase inferior ou média do comunismo, mas até a sua fase superior. Na Rússia (depois de mais de dois anos da derrubada da burguesia) ainda estamos dando os primeiros passos na transição do capitalismo para o socialismo, ou fase inferior do comunismo. As classes continuam existindo e existirão durante anos em toda parte, depois da conquista do Poder pelo proletariado. É possível que na Inglaterra, onde não há camponeses (apesar de haver pequenos patrões) esse prazo seja mais curto. Suprimir as classes significa não só expulsar os latifundiários e os capitalistas - isso nós fizemos com relativa facilidade - como também suprimir os pequenos produtores de mercadorias; estes, porém, não se pode expulsar, não se pode esmagar; é preciso conviver com eles, e só se pode (e deve) transformá-los, reeducá-los, mediante um trabalho de organização muito longo, lento e prudente. Esses pequenos produtores cercam o proletariado por todos os lados de uma atmosfera pequeno-burguesa, embebem-no nela, corrompem-no com ela, provocam constantemente no seio do proletariado recaídas de frouxidão, dispersividade e individualismo pequeno-burgueses, de oscilações entre entusiasmo e abatimento. Para fazer frente a isso, para permitir que o proletariado exerça acertada, eficaz e vitoriosamente sua função organizadora (que é sua função principal), são necessárias uma centralização e uma disciplina severíssimas no partido político do proletariado. A ditadura do proletariado é uma luta tenaz, cruenta e incruenta, violenta e pacífica, militar e econômica, pedagógica e administrativa, contra as forças e as tradições da antiga sociedade. A força do hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível. Sem partido férreo e temperado na luta, sem um partido que goze da confiança de tudo que exista de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba tomar o pulso do estado de espírito das massas e influir nele é impossível levar a cabo com êxito essa luta. É mil vezes mais fácil vencer a grande burguesia centralizada que “vencer” milhões e milhões de pequenos patrões, os quais, com seu trabalho, invisível, de corrupção, trabalho intangível, diário, obtêm os mesmos resultados de que a burguesia necessita, que determinam a restauração da burguesia. Quem concorre para enfraquecer, por pouco que seja, a disciplina férrea do Partido do proletariado (principalmente na época de sua ditadura) ajuda, na realidade, a burguesia contra o proletariado.

Ao lado da questão sobre os chefes, o partido, a classe e a massa, é preciso exprimir a dos sindicatos “reacionários”. Mas, antes, a fim de facilitar a compreensão da conclusão, tomarei a liberdade de fazer algumas observações baseadas na experiência de nosso Partido. Nele, sempre houve ataques contra a “ditadura dos chefes”. Que eu lembre, a primeira vez foi em 1895, quando nosso Partido ainda não existia formalmente, mas já começava a se constituir em Petersburgo o grupo central que iria encarregar-se da direção dos grupos distritais. No IX Congresso de nosso Partido (abril de 1920) houve uma pequena oposição que também se pronunciou contra a “ditadura dos chefes”, a “oligarquia”, etc. Não há, portanto, nada de surpreendente, nada de novo, nada de alarmante na “doença infantil do “comunismo de esquerda” entre os alemães. Essa doença manifesta-se sem perigo e, uma vez curada, chega mesmo a fortalecer o organismo. Por outro lado, a rápida sucessão do trabalho legal e ilegal, que implica na necessidade de “ocultar”, de envolver com singular segredo o Estado-Maior, os chefes, originou em nosso país, algumas vezes, fenômenos profundamente perigoso. O pior deles foi a infiltração no Comitê Central bolchevique, em 1912, de um agente provocador - Malinovski. Este delatou dezenas e dezenas dos mais abnegados e excelentes camaradas,. causando a sua condenação a trabalhos forçados e provocando a morte de muitos deles. Se não causou maiores danos foi porque estabelecêramos adequadamente a correlação entre os trabalhos legal e ilegal. Para ganhar nossa confiança, Malinovski, como membro do Comitê Central do Partido e deputado à Duma, teve de ajudar-nos a organizar a publicação de diários legais que, inclusive sob o czarismo, souberam lutar contra o oportunismo dos mencheviques e difundir, com os disfarces necessários, os princípios fundamentais do bolchevismo. Com uma das mãos, Malinovski enviava para a prisão e para a morte dezenas e dezenas dos melhores combatentes do bolchevismo; com a outra via-se obrigado a contribuir para a educação de .dezenas e dezenas de milhares de novos bolcheviques, através da imprensa legal. Sobre este fato deveriam refletir cuidadosamente os camaradas alemães (e também os ingleses, americanos, franceses e italianos) que tem diante de si a tarefa de aprender a realizar um trabalho revolucionário nos sindicatos “reacionários”*3.

Em muitos países, até nos mais adiantados, a burguesia infiltra e continuará infiltrando, sem a menor dúvida, provocadores nos Partidos Comunistas. Um dos meios de lutar contra esse perigo consiste em saber combinar acertadamente o trabalho ilegal com o legal.

*1 Volapuk - Idioma internacional artificial inventado por SchIeyer, em 1879. (Nota de Ediciones en Lenguas Extranjeras)

*2 No Diário Operário Comunista 12 (n.º. 32, Hamburgo, 7 de fevereiro de 1920), Karl Erler, num artigo intitulado A dissolução do Partido, escreve: "A classe operária não pode destruir o Estado burguês sem aniquilar a democracia burguesa, e não pode aniquilar a democracia burguesa sem destruir os partidos “.

As mais confusas cabeças dos sindicalistas e anarquistas latinos podem sentir-se "satisfeitas" : alguns alemães importantes que pelo visto, se consideram marxistas (em seus artigos no jornal citado, K. Erler e K. Horner demonstram serenamente que se consideram firmes marxistas, apesar de dizerem de modo singularmente ridículo tolices inacreditáveis, manifestando assim não conhecer o ABC do marxismo) chegam a afirmar coisas completamente absurdas. Por si só, o reconhecimento do marxismo não exime ninguém dos erros. . Os. russos bem sabem disso, porque o marxismo, com muita freqüência, esteve “em moda" em nosso pais. '(Nota do autor)

*3Malinovski esteve preso na Alemanha. Quando regressou à Rússia, já no Poder bolchevique, foi imediatamente entregue aos tribunais e fuzilado por nossos operários. Os mencheviques criticaram-nos acerbamente pelo erro de ter abrigado um, provocador no Comitê Central de nosso Partido, Mas, quando no período de Kerenskí exigimos que fosse detido e julgado o presidente da Duma, Rodzianko, que desde antes da guerra sabia que Malinovski era um provocador e não comunicara o fato aos deputados "trudoviques" (trabalhistas) e operários da Duma, nem os mencheviques nem os social-revolucioná rios, que formavam no governo de Kerenski, apoiaram nossa exigência, e Rodzianko ficou em liberdade e pode unir-se a Denikin sem o menor obstáculo. (Nota do autor)

VI - Os revolucionários devem atuar nos sindicatos reacionários ?

Os “esquerdistas” alemães acham que podem responder a essa pergunta com uma negativa absoluta. Na sua opinião, a algazarra e os gritos encolerizados contra os sindicatos “reacionários” e “contra-revolucioná rios” (K. Horner destaca-se pela “seriedade” e estupidez com que faz isso) bastam para “demonstrar” a inutilidade e até a inadmissibilidade da atuação dos revolucionários, os comunistas, nos sindicatos amarelos, social-chovinistas, conciliadores e dos legienístas*1.

Mas, por muito convencidos que estejam os “esquerdistas” alemães do caráter revolucionário de semelhante tática, ela é, na realidade, profundamente errônea e nada contém, a não ser frases vazias.

Para esclarecer o que digo, partirei de nossa própria experiência, de acordo com o plano geral deste folheto, que tem por objetivo aplicar à Europa Ocidental o que a história e a tática atual do bolchevismo tem de aplicável, importante e obrigatório em toda parte.

A correlação entre chefes, partido, classe e massa e, ao mesmo tempo, a atitude da ditadura do proletariado o de seu partido no que concerne aos sindicatos apresentam entre nós, atualmente, da seguinte forma concreta: a ditadura é exercida pelo Proletariado organizado nos Soviete e dirigido Pelo Partido Comunista Bolchevique, que, segundo os dados do último Congresso (abril de 1920), conta com 611 000 membros. O número de filiados oscilou muito, tanto antes como depois da Revolução de Outubro, e foi mesmo consideravelmente menor em 1918/1919. Receamos ampliar excessivamente o Partido porque os arrivistas e aventureiros, que nada merecem além de ser fuzilados, tendem inevitavelmente a infiltrar-se no partido governante. A última vez que abrimos de par em par as portas do Partido - exclusivamente para operários e camponeses - foi nos dias (inverno de 1919) em que Yudenich estava a algumas verstas de Petrogrado e Denikin. estava em Oriol (a umas trezentas e cinqüenta verstas de Moscou), isto é, quando a República Soviética corria um perigo terrível, mortal, e os aventureiros, arrivistas, aproveitadores e, de modo geral, todos os elementos instáveis não podiam, de jeito nenhum, esperar fazer uma carreira vantajosa se aderissem aos comunistas, pois era mais fácil a perspectiva da forca o das torturas. O Partido, que convoca congressos anuais (no último, a representação foi de um delegado para cada mil militantes), é dirigido por um Comitê Central de 19 membros, eleito no congresso; a gestão dos assuntos cotidianos é exercida em Moscou por dois organismos ainda mais restritos, denominados “Birô de Organização” e “Birô Político”, eleitos em sessões plenárias do Comitê-Central. Em. cada um desses dois organismos participam cinco membros do CC. Estamos, por conseguinte, diante de uma verdadeira oligarquia”. Nenhuma questão importante, política ou de organização, é resolvida por qualquer instituição estatal de nossa República sem as diretrizes do Comitê Central do Partido.

Em seu trabalho, o Partido apoia-se diretamente nos sindicatos, que têm agora, segundo os dados do último Congresso (abril de 1920), mais de quatro milhões de filiados e que, no aspecto formal, são sem partido. De fato, todas as instituições dirigentes da imensa maioria dos sindicatos e sobretudo, naturalmente, a central, ou Birô sindical de toda a Rússia (Conselho Central dos Sindicatos da Rússia), compõem-se de comunistas e aplicam todas as diretrizes do Partido. Obtém-se, no conjunto, um dispositivo proletário, formalmente não comunista, flexível e relativamente amplo, poderosíssimo, por meio do qual o Partido está estreitamente ligado à classe e às massas, e através do qual se exerce, sob a direção do Partido, a ditadura da classe. É claro que nos teria sido impossível governar o país e exercer a ditadura, já não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, se não houvesse a mais- estreita ligação com os sindicatos, seu apoio entusiasta, seu abnegadíssimo trabalho tanto na organização econômica como na militar. Como se pode compreender, esta estreitíssima ligação significa, na prática, um trabalho de propaganda e agitação bastante complexo e variado, reuniões oportunas e freqüentes, não só com os dirigentes, mas geralmente com os militantes que têm influência nos sindicatos, e também uma luta decidida contra os mencheviques, que conservaram até hoje um certo número de adeptos – bem pequeno, é verdade - aos quais ensinam todas as artimanhas da contra-revoluçã o, desde a defesa ideológica da democracia (burguesa) e a pregação da “independência” dos sindicatos (independência. .. em relação ao Poder estatal proletário!) até à sabotagem à disciplina proletária, etc., etc.

Reconhecemos que o contato com as “massas” através dos sindicatos não é suficiente. No transcurso da revolução criou-se em nosso pais, na prática, um organismo que procuramos manter a todo custo, desenvolver e ampliar: as conferências de operários e camponeses sem partido, que nos possibilitam observar o estado de espírito das massas, aproximarmo- nos delas, corresponder a seus desejos, promover aos postos do Estado seus melhores elementos, etc. Um decreto recente sobre a transformação do Comissariado do Povo de Controle do Estado em “Inspeção Operária e Camponesa” concede a essas conferências sem partido o direito de eleger membros para o Controle do Estado, encarregados das mais diversas funções de revisão, etc.

Além disso, como é natural, todo o trabalho do Partido realiza-se através dos Soviets, que agrupam as massas trabalhadoras, sem distinção de ofício. Os congressos distritais dos Soviets representam uma instituição democrática como jamais se viu nas melhores repúblicas democráticas do mundo burguês. Por meio desses congressos (cujo trabalho procura acompanhar o Partido com a maior atenção possível) assim como através da designação constante dos operários mais conscientes para diversos cargos nas povoações rurais, o proletariado exerce sua função dirigente com relação ao campesinato, realiza-se a ditadura do proletariado urbano, a luta sistemática contra os camponeses ricos, burgueses, exploradores e especuladores, etc.

Esse é o mecanismo geral do Poder estatal proletário examinado “de cima”, do ponto de vista da realização prática da ditadura. É de esperar que o leitor compreenda por que o bolchevique russo, que conhece tal mecanismo e o viu nascer dos pequenos círculos ilegais e clandestinos no decurso de 25 anos, só pode achar ridículas, pueris e absurdas todas as discussões sobre a ditadura de cima ou de baixo, a ditadura dos chefes ou a ditadura das massas, etc., ridículas, pueris e absurdas como uma discussão acerca da maior ou menor utilidade que tem para o homem a perna esquerda ou o braço direito.

Também não podemos deixar de achar um absurdo ridículo e pueril as argumentação ultra-sábias, empoladas e terrivelmente revolucionárias dos esquerdistas alemães a respeito de idéias como: os comunistas não podem nem devem atuar nos sindicatos reacionários; é lícito renunciar a semelhante atividade; é preciso abandonar os sindicatos e organizar obrigatoriamente uma “união operária” novinha em folha e completamente pura, inventada por comunistas muito simpáticos (e na maioria dos casos, provavelmente, bem jovens), etc., etc.

O capitalismo lega inevitavelmente ao socialismo, de um lado, as antigas diferenciações profissionais e corporativas entre os operários, formadas mo decorrer dos séculos, e, por outro lado, os sindicatos, que só muito lentamente, no transcurso dos anos, podem transformar- se, e se transformarão, em sindicatos de indústria mais amplos, menos corporativos (que abarcam indústrias inteiras, em vez de englobar somente corporações, ofícios e profissões). Depois, por meio desses sindicatos de indústria, será iniciada a supressão da divisão do trabalho entre os homens, a educação, instrução e formação de homens universalmente desenvolvidos e universalmente preparados, homens que saberão fazer tudo. O comunismo marcha e deve marchar para esse objetivo, que será atingido, embora somente dentro de muitos anos. Tentar hoje antecipar-se na prática a esse resultado futuro de um comunismo chegado ao fim de seu completo desenvolvimento, solidez e formação, de sua realização integral e de seu amadurecimento, é o mesmo que querer ensinar matemáticas superiores a uma criança de quatro anos.

Podemos (e devemos) empreender a construção do socialismo não com um material humano fantástico, nem especialmente criado por nós, mas com o que nos foi deixado de herança pelo capitalismo. Não é necessário dizer que isso é muito “difícil”; mas, qualquer outro modo de abordar o problema é tão pouco sério que nem vale a pena falar dele.

Os sindicatos representaram um progresso gigantesco da classe operária nos primeiros tempos do desenvolvimento do capitalismo, visto que significavam a passagem da dispersão e da impotência dos operários aos rudimentos da união de classe. Quando começou a desenvolver- se a forma superior de união de classe dos proletários, o partido revolucionário do proletariado (que não será merecedor desse nome enquanto não souber ligar os líderes à classe e às massas num todo único e indissolúvel) , os sindicatos começaram a manifestar inevitavelmente certos aspectos reacionários, certa estreiteza grupal, certa tendência para o apoliticismo, certo espírito de rotina, etc. O desenvolvimento do proletariado, porém, não se realizou, nem podia realizar-se, em nenhum país de outra maneira senão por intermédio dos sindicatos e por sua ação conjunta com o partido da classe operária. A conquista do Poder político pelo proletariado representa um progresso gigantesco deste, considerado como classe, e o partido deve dedicar-se mais, de modo novo e não apenas pelos processos antigos, para educar os sindicatos, dirigi-los, sem esquecer, ao mesmo tempo, que estes são e serão durante muito tempo uma “escola de comunismo” necessária, uma escola preparatória dos proletários para a realização de sua ditadura, a associação indispensável dos operários para a passagem gradual da direção de toda a economia do país inicialmente para as mãos da classe operária (e não de profissões isoladas) e, depois, para as mãos de todos os trabalhadores. Na ditadura do proletariado é inevitável a existência de certo “espirito reacionário” nos sindicatos, no sentido assinalado. Não compreender esse fato significa não compreender absolutamente as condições fundamentais da transição do capitalismo ao socialismo. Temer esse “espírito reacionário”, tentar prescindir dele, ignorá-lo, é uma grande tolice, pois eqüivale a temer o papel de vanguarda do proletariado, que consiste em instruir, ilustrar, educar, atrair para uma vida nova as camadas e as massas mais atrasadas da classe operária e do campesinato. Por outro lado, adiar a ditadura do proletariado até que não reste nenhum operário de estreito espírito profissional, nenhum operário com preconceitos tradeunionistas e corporativistas, seria um erro ainda mais grave. A arte do político (e a justa compreensão dos seus deveres no comunista) consiste, precisamente, em saber aquilatar com exatidão as condições e o momento em que a vanguarda do proletariado pode tornar vitoriosamente o Poder; em que pode, por ocasião da tomada do Poder e depois dela conseguir um apoio suficiente de setores bastante amplos da classe operária e das massas trabalhadoras não proletárias; em que pode, uma vez obtido esse apoio, manter, consolidar e ampliar seu domínio, educando, instruindo e atraindo para si massas cada vez maiores de trabalhadores.

Prossigamos. Em países mais adiantados que a Rússia se fez sentir, e devia fazer-se sentir de modo muito mais acentuado, sem dúvida, que entre nós, certo espírito reacionário dos sindicatos. Aqui, os mencheviques tinham (e em parte ainda tem, num reduzidíssimo número de sindicatos) apoio entre os sindicatos, graças, exatamente, a essa .estreiteza corporativa, a esse egoísmo e ao oportunismo. Os mencheviques de Ocidente “entrincheiraram- se” muito mais firmemente nos sindicatos, e lá surgiu uma camada muito mais forte que em nosso pais de aristocracia operária, profissional, mesquinha, egoísta, desalmada, ávida, pequeno-burguesa, de espírito imperialista, subornada e corrompida pelo imperialismo. Isto é indiscutível. A luta contra os Gompers, contra os senhores Jouhaux, Henderson, Merrheim, Legien e Cia. na Europa Ocidental é muito mais difícil que a luta contra os nossos mencheviques, que representam um tipo social e político totalmente homogêneo. E' preciso sustentar essa luta implacavelmente e mantê-la obrigatoriamente, como o fizemos, até desmoralizar e desalojar dos sindicatos todos os chefes incorrigíveis do oportunismo e do social-chovinismo. É impossível conquistar o Poder político (e não se deve nem pensar em tomar o Poder político) enquanto essa luta não tiver atingido certo grau; este certo grau não é o mesmo em todos os países e sob todas as condições, e só dirigentes políticos sensatos, experimentados e competentes do proletariado podem determiná-lo com acerto em cada país. (Na Rússia o termômetro do êxito dessa luta, entre outras coisas, foram .as eleições de novembro de 1917 para a Assembléia Constituinte, alguns dias depois da revolução proletária de 25 de outubro de 1917. Nessas eleições, os mencheviques sofreram fragorosa derrota, obtendo 700 000 votos - 1400 000 contando os da Transcaucásia - contra os 9 000 000 alcançados pelos bolcheviques. Ver. meu artigo As eleições para a Assembléia Constituinte e a ditadura do proletariado, publicado no número 7/8 de A Internacional Comunista).

Mas sustentamos a luta contra a “aristocracia operária” em nome das massas operárias e para colocá-las ao nosso lado; sustentamos a luta contra os chefes oportunistas e social-chovinistas para ganhar a classe operária. Seria tolice esquecer esta verdade mais que elementar e evidente. E é essa, precisamente, a tolice cometida pelos comunistas alemães “de esquerda”, que deduzem do caráter reacionário e contra-revolucioná rio dos chefetes dos sindicatos que é necessário ... sair dos sindicatos!! ., renunciar ao trabalho neles!!, criar formas de organização operária novas, inventadas!! Uma estupidez tão imperdoável, que eqüivale ao melhor serviço que os comunistas podem prestar à burguesia. Isso porque nossos mencheviques, como todos os líderes sindicais oportunistas, social-chovinistas e kautskistas nada mais são que “agentes da burguesia no movimento operário” (Como sempre dissemos ao falar dos mencheviques) ou, em outras palavras, os “lugar-tenentes operários da classe dos capitalistas” (labor lieutenants of the capitalist class), segundo a magnífica expressão, profundamente exata, dos discípulos de Daniel de León nos Estados Unidos. Não atuar dentro dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes reacionários, dos agentes da burguesia, dos operários aristocratas ou operários aburguesados” (ver a carta de Engels e Marx em 1858 a respeito dos operários ingleses).

Precisamente a absurda “teoria” da não participação dos comunistas nos sindicatos é que demonstra do modo mais evidente a leviandade com que esses comunistas “de esquerda” encaram a questão da influência sobre as “massas” e como abusam de seu alarido em torno das “massas”. Para saber ajudar a “massa” e conquistar sua simpatia, adesão e apoio é preciso não temer as dificuldades, mesquinharias, armadilhas, insultos e perseguições dos “chefes” (que, sendo oportunistas e social-chovinistas, estão, na maioria das vezes relacionados direta ou indiretamente com a burguesia e a policia). Além disso, deve-se trabalhar obrigatoriamente onde estejam ao massas. É necessário saber fazer todas as espécies de sacrifícios e transpor os maiores obstáculos para realizar uma propaganda e uma agitação sistemática, pertinaz, perseverante e paciente exatamente nas instituições, associações e sindicatos, por mais reacionários que sejam, onde haja massas proletárias ou semi-proletárias. E os sindicatos e cooperativas operários (estas pelo menos em alguns casos) são precisamente as organizações onde estão as massas. Na Inglaterra, segundo dados publicados pelo jornal sueco Folkets Dagblad Politiken*2 a 10 de março de 1920, o número e membros das trade-unions, que em fins de 1917 era de 5 500 000, aumentou nos últimos dias de 1918 para 6 600 000, isto é, 19%. Em fins de 1919, seus efetivos elevavam-se, segundo os cálculos, a 7 500 000. Não tenho à mão os números correspondentes à França e à Alemanha; mas alguns fatos, absolutamente indiscutíveis e que todos conhecem, atestam o notável incremento do número de membros dos sindicatos também nesses países.

Tais fatos provam com toda clareza o que é confirmado por outros milhares de sintomas: o desenvolvimento da consciência o do desejo de organização justamente nas massas proletárias, em seus “setores inferiores”, atrasados. Na Inglaterra, França e Alemanha, milhões de operários passam pela primeira vez da completa desorganização. É impossível conceber maior insensatez, maior dano causado à revolução pelos revolucionários “de esquerda”! Se hoje, na Rússia, depois de dois anos e meio de triunfos sem precedentes sobre a burguesia da Rússia e a da Entente estabelecêssemos como condição de ingresso nos sindicatos o “reconhecimento da ditadura”, faríamos uma tolice, perderíamos nossa influência sobre as massas e ajudaríamos os mencheviques, pois a tarefa dos comunistas consiste em saber convencer os elementos atrasados, saber atuar entre eles, e não em isolar-se deles através de palavras de ordem tiradas subjetivamente de nossa cabeça e infantilmente “esquerdistas” .

Não há dúvida de que os senhores Gompers, Henderson, Jouhaux e Legien ficarão muito agradecidos a esses revolucionários “de esquerda”, que, como os da oposição “de princípio” alemã (que o céu nos proteja de semelhantes “princípios” ou alguns revolucionários da “Operários Industriais do Mundo” nos Estados Unidos, pregam a saída dos sindicatos reacionários a renúncia à atuação neles. Não duvidamos de que os senhores “chefes” do oportunismo recorrerão a todos os artifícios da diplomacia burguesa, à ajuda dos governos burgueses, dos padres, da policia e dos tribunais para impedir a entrada dos comunistas nos sindicatos, para expulsá-los de lá por todos os meios e tornar o seu trabalho nos sindicatos o mais desagradável possível, ofendê-los, molestá-los e persegui-los. E' preciso saber enfrentar tudo isso, estar disposto a todos os sacrifícios e, inclusive, empregar - em caso de necessidade - todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a verdade, com o objetivo de penetrar nos sindicatos, permanecer neles e ai realizar, custe o que custar, um trabalho comunista. Sob o regime tzarista, até 1905, não tivemos nenhuma “possibilidade legal”; mas quando o policial Subatov organizou suas assembléias e associações operárias ultra-revolucioná rias, com a finalidade de caçar os revolucionários e lutar contra eles, infiltramos ali membros de nosso Partido (lembro entre eles o camarada Babushkin, destacado operário petersburguense, fuzilado em 1906 pelos generais czaristas) que estabeleceram contato com a massa, conseguiram realizar sua agitação e tirar os operários da influência dos agentes de Subatov3. Naturalmente, é mais difícil, atuar assim nos países da Europa Ocidental, particular mente impregnados de preconceitos legalistas, constitucionalistas e democrático-burguese s muito arraigados. Mas se pode e deve atuar dessa maneira sistematicamente.

O Comitê Executivo da III Internacional deve, na minha opinião, condenar abertamente e propor ao próximo Congresso da Internacional Comunista que condene, de modo geral, a política de não participação nos sindicatos reacionários (explicando pormenorizadamente a insensatez que essa não participação significa e o imenso prejuízo que causa à revolução proletária) e, em particular, a linha de conduta de alguns membros do Partido Comunista Holandês, que (direta ou indiretamente, às claras ou disfarçadamente, total ou parcialmente, tanto faz) sustentaram essa política falsa. A III Internacional deve romper com a tática da II e não evitar nem ocultar as questões escabrosas, e sim levanta-las sem rebuços. Dissemos cara a cara toda a verdade aos “independentes” (Partido Social-Democrata Independente da Alemanha); do mesmo modo, é preciso dize-la- aos comunistas “de esquerda.

*[1] Subordinados ao social-democrata oportunista de direita alemão Legien. (Nota do tradutor)

*2 Diário Popular Político. (Nota da Redação)

*3 Os Gompers, os Henderson, os Johaux e os Legien nada mais são que os Subatov, diferenciando- se dele por seus trajes europeus, seu porte elegante e refinados processos aparentemente democráticos e civilizados que empregam para realizar sua abominável política. (Nota do autor)

VII - Deve-se participar nos parlamentos burgueses

Os comunistas “de esquerda” alemães com o maior desdém e a maior leviandade, respondem a essa pergunta pela negativa. Seus argumentos? Na citação transcrita no parágrafo V pode-se ler:

"... rejeitar do modo mais categórico todo retorno aos métodos parlamentares de luta, que já caducaram histórica e politicamente. .."

Além do tom ridiculamente presunçoso em que isso está dito, sua falsidade é evidente. “Retorno” ao parlamentarismo! Já existe, por acaso, uma república soviética na Alemanha? Então, como se pode falar de “retorno”? Não é uma frase vazia?

O parlamentarismo “caducou historicamente” . Isso está certo do ponto de vista da propaganda. Mas ninguém ignora que daí à sua superação na prática há 'uma enorme distância. Há muitas décadas já s6 podia dizer, com toda razão, que o capitalismo havia “caducado historicamente” ; Mas isso nem mesmo impede que sejamos obrigados a sustentar uma luta extremamente prolongada e tenaz no terreno do capitalismo. O parlamentarismo “caducou historicamente” do ponto de vista histórico-universal, isto é, a época do parlamentarismo burguês terminou, começou a época da ditadura do proletariado. Isso é indiscutível. Na história universal, porém, o tempo é contado por décadas. Nesse terreno, dez ou vinte anos a mais ou a menos não tem importância; representam um número tão modesto que, mesmo aproximadamente, é impossível aquilatar seu valor. Por isso, utilizar-se do critério da história universal para uma questão de política prática constitui o mais gritante erro teórico.

“Caducou politicamente o parlamentarismo” ? Isto já é outra questão. Se fosse verdade, a posição dos esquerdistas” seria firme. Mas isso tem que ser provado através de uma análise muito séria, análise que os esquerdistas nem sequer sabem como abordar. Do mesmo modo, não vale um tostão, como veremos, a análise contida nas Teses. Sobre o Parlamentarismo, publicado no 19 número, do Boletim do Birô Provisório de Amsterdam da Internacional Comunista (Bulletín of the Provisional Bureau in Amsterdom of Communist International, , February - 1920) e que exprime claramente as tendências esquerdistas dos holandeses, ou as tendências holandesas dos esquerdistas.

Em primeiro lugar, os “esquerdistas” alemães, como se sabe, já consideravam em janeiro de 1919 que o parlamentarismo havia “caducado politicamente” , malgrado a opinião de destacados dirigentes políticos como Rosa de Luxemburgo e Karl Leibknecht. É sabido que os “esquerdistas” se equivocaram. Tal fato é suficiente para destruir de golpe e radicalmente a tese de que o parlamentarismo “caducou politicamente” . Os “esquerdistas” tem a obrigação de demonstrar por que seu erro indiscutível de então, deixou hoje de ser um erro. Contudo, eles não apresentam, nem podem apresentar, a menor sombra de prova. A atitude de um partido político diante de seus erros é um dos critérios mais importantes e seguros para a apreciação da seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com a sua classe e as massas trabalhadoras. Reconhecer francamente os erros, pôr a nu as suas causas, analisar a situação que os originou e discutir cuidadosamente os meios de corrigi-los é, o que caracteriza um partido sério; nisso consiste o cumprimento de seus deveres; isso significa-- educar e instruir a classe e, depois, as massas. Ao não cumprir esse dever nem estudar com toda a atenção, zelo e prudência necessários seu erro evidente, os “esquerdistas” da Alemanha (e da Holanda) demonstram exatamente que não são o partido da classe, e sim um círculo; que não são o partido das massas e sim um grupo de intelectuais e de um reduzido número de operários que imitam os piores aspectos dos intelectualóides.

Em segundo lugar, no mesmo folheto do grupo “de esquerda” de Francfort, do qual transcrevemos trechos mais detalhados páginas atrás, lemos :

". . . os milhões de operários que ainda seguem a política do centro" (do partido católico- centrista) "são contra-revolucioná rio. Os proletários do campo formam as legiões dos exércitos contra-revolucioná rios". (página 3 do folheto em questão).

Como se vê, a afirmação é feita com ênfase e exagero excessivo. Mas o fato fundamental exposto aqui é indiscutível, e seu reconhecimento pelos “esquerdistas” atesta seu erro com acentuada evidência. Com efeito, como se pode dizer que o “parlamentarismo caducou politicamente” , se “milhões” e “legiões” de proletários ainda são não apenas partidários do parlamentarismo em geral, como, inclusive, francamente “contra-revolucioná rios”!? E evidente que o parlamentarismo na Alemanha ainda não caducou politicamente. E evidente que os “esquerdistas” da Alemanha consideraram seu desejo, suas concepções político- ideológicas, uma realidade objetiva. Este é o mais perigoso dos erros para os revolucionários. Na Rússia, onde o jugo sumamente selvagem e feroz do czarismo criou, durante um período prolongadíssimo e com formas particularmente variadas, revolucionários de todos os matizes, revolucionários de abnegação, entusiasmo, heroísmo e força de vontade assombrosos, pudemos observar bem de perto, estudar com singular atenção e conhecer minuciosamente este erro dos revolucionários, o que nos faz vê-lo com particular clareza nos outros. Como é natural, para os comunistas da Alemanha o parlamentarismo “caducou politicamente” ; mas, trata-se exatamente de não julgar que o caduco para nós tenha caducado para a classe, para a massa. Mais uma vez, constatamos que os “esquerdistas” não sabem raciocinar, não sabem conduzir-se como o partido da classe, como o partido das massas. Vosso dever consiste em não descer ao nível das massas, ao nível dos setores atrasados da classe. Isso não se discute. Tendes a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burguese s e parlamentares não passam disso: preconceitos. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparo de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).

Mesmo que não fossem “milhões” e “legiões”, e sim uma simples minoria bastante considerável de operários industriais que seguisse os padres católicos e de trabalhadores agrícolas que seguisse os latifundiários e camponeses ricos (Grossbauern) , poderíamos assegurar sem, vacilar que o parlamentarismo na Alemanha ainda não caducou politicamente, que a participação nas eleições parlamentares e na luta através da, tribuna parlamentar são obrigatórias para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar os setores atrasados de sua classe, precisamente para despertar e instruir a massa aldeã inculta, oprimida e ignorante. Enquanto não tenhais força para dissolver o parlamento burguês e qualquer outra organização reacionária, vossa obrigação é atuar no seio dessas instituições, precisamente porque ainda há nelas operários embrutecidos pelo clero e pela vida nos rincões: mais afastados do campo. Do contrário, correi o risco de vos converter em simples charlatães.

Em terceiro lugar, os comunistas “de esquerda” são pródigos de elogios a nós bolcheviques. às vezes dá-nos vontade de dizer-lhes: louvem-nos menos e tratem de compreender melhor a nossa tática, familiarizar- se mais com ela! Participamos das eleições ao parlamento burguês da Rússia, à Assembléia Constituinte, em setembro-novembro de 1917. Era justa ou não a nossa tática? Se não era, é preciso dize-lo com clareza o demonstrá-lo; isso é indispensável para que o comunismo internacional elabore a tática justa. Se era, é preciso tirar as conclusões que se impõem. Naturalmente, não se trata absolutamente de equiparar as, condições da Rússia às da Europa Ocidental. Mas, quando se trata em particular do significado que tem a idéia de que “o parlamentarismo caducou politicamente” , é indispensável levar em conta com exatidão a nossa experiência, pois sem considerar uma experiência concreta, tais idéias convertem-se muito facilmente em frases vazias. Nós, bolcheviques russos, não tínhamos, porventura, em setembro-novembro de 1917, mais direito que todos os comunistas do Ocidente de considerar que o parlamentarismo havia sido superado politicamente na Rússia? Tínhamos, sem dúvida, pois a questão não se baseia em se os parlamentos burgueses existem há muito ou há pouco tempo, mas sim em até que ponto as massas trabalhadoras estão preparadas (ideológica, politicamente e na prática) para adotar o regime soviético o dissolver (ou permitir a dissolução) do parlamento democrático-burguê s. Que a classe operária das cidades, os soldados e os camponeses da Rússia estavam, em setembro-novembro de 1917, excepcionalmente preparados, em virtude de uma série de condições particulares, para adotar o regime soviético e dissolver o parlamento burguês mais democrático é um fato histórico absolutamente indiscutível e plenamente demonstrado. Contudo, os bolcheviques não boicotaram a Assembléia Constituinte, e sim, pelo contrário, participaram das eleições, tanto antes como depois da conquista do Poder político pelo proletariado. Creio haver demonstrado no artigo citado páginas atrás, no qual analiso minuciosamente os resultados das eleições para a Assembléia Constituinte da Rússia, que essas eleições tiveram conseqüências políticas de extraordinário valor (e de suma utilidade para o proletariado) .

A conclusão que se tira desse fato é absolutamente indiscutível: está provado que, mesmo algumas semanas antes da vitória da República Soviética, mesmo depois dessa vitória, a participação num parlamento democrático-burguê s, longe de prejudicar o proletariado revolucionário, permite-lhe demonstrar com maior facilidade às massas atrasadas a razão por que semelhantes parlamentos devem ser dissolvidos, facilita o êxito de sua dissolução, facilita a “supressão política” do parlamentarismo burguês. Não levar em consideração essa experiência e pretender, ao mesmo tempo, pertencer à Internacional Comunista - que deve elaborar internacionalmente a sua tática (não uma tática estreita ou de caráter estritamente nacional, mas exatamente uma tática internacional) - significa incorrer no mais profundo dos erros e precisamente afastar-se de fato do internacionalismo, embora este seja proclamado em palavras.

Consideremos agora os argumentos “esquerdistas holandeses” em prol da não participação nos parlamentos. Eis a tese, a mais importante das teses “holandesas” citadas anteriormente, traduzida do inglês:

"Quando o sistema capitalista de produção é destroçado e a sociedade atravessa um período revolucionário, a ação parlamentar perde gradualmente seu valor em comparação com a ação das próprias massas. Quando, nestas condições, o parlamento se converte em centro e órgão da contra-revoluçã o e, por outro lado, a classe operária cria os instrumentos de seu Poder sob a forma dos Soviets, pode tornar-se inclusive necessário renunciar a toda participação na ação parlamentar"

A primeira frase é, evidente, falsa, posto que a ação das massas - uma grande greve, por exemplo - é sempre mais importante que a ação parlamentar, e não só durante a revolução ou numa situação revolucionária. Esse argumento, de indubitável inconsistência e falso histórica e politicamente, só serve para mostrar com particular evidência que seus defensores desprezam completamente a experiência de toda a Europa (da França nas vésperas das revoluções de 1848 e 1870, da Alemanha entre 1878 e 1890, etc.) e da Rússia (ver acima) sobre a importância da combinação da luta legal com a ilegal. Essa questão é da maior importância, tanto no geral como no particular, porque em todos os países civilizados e adiantados aproxima-se a largas passadas a época em que tal combinação será - e, em parte, já o é - cada vez mais obrigatória para o partido do proletariado revolucionário, em conseqüência do amadurecimento e da proximidade (1ª guerra civil do proletariado contra a burguesia, em conseqüência das ferozes perseguições feitas aos comunistas pelos governos republicanos e, de modo geral, burgueses, que violam por todos os meios a legalidade (como exemplo disso basta citar os Estados Unidos), etc. Essa questão fundamental não é absolutamente compreendida pelos holandeses e esquerdistas em geral.

A segunda frase é, em primeiro lugar, falsa historicamente. Nós, bolcheviques, atuamos nos parlamentos mais contra-revolucioná rios e a experiência demonstrou que semelhante participação foi não só útil como necessária para o partido do proletariado revolucionário, precisamente depois da primeira revolução burguesa na Rússia (1905), a fim de preparar a segunda revolução burguesa (fevereiro de 1917) e, logo em seguida, a, revolução socialista (outubro de 1917), Em segundo lugar, essa frase é de um ilogismo surpreendente. Da transformação do parlamento em órgão e centro (diga-se, de passagem, que nunca foi nem pode ser realmente o “centro”) da contra-revoluçã o e da criação pelos operários dos instrumentos de seu Poder sob a forma de Soviets conclui-se que os trabalhadores devem preparar-se ideológica, política e tecnicamente para a luta dos Soviets contra o parlamento, para a dissolução do parlamento pelos Soviets. Daí, porém, não se deduz de modo algum que essa dissolução seja dificultada, ou não seja facilitada, pela presença de uma oposição soviética dentro de um parlamento contra-revolucioná rio. Nunca dissemos, durante a nossa luta vitoriosa contra Denikin e Kolchak, que a existência de uma oposição proletária, soviética, na zona ocupada por eles tenha sido indiferente para nossos triunfos. Sabemos muito bem que a dissolução da Constituinte, por nós efetuada a 5 de janeiro de 1918, longe de ser dificultada, foi facilitada pela presença: na Constituinte contra-revolucioná ria que dissolvíamos tanto de uma oposição soviética conseqüente, a bolchevique, como de uma oposição soviética inconseqüente, a dos social-revolucioná rios de esquerda. Os autores da tese confundiram- se totalmente e esqueceram a experiência de uma série de revoluções, talvez até de todas, experiência que confirma a singular utilidade que representa, por ocasião das revoluções, combinar a ação de massas fora do parlamento reacionário com uma oposição simpatizante da revolução (ou, melhor ainda, que a apoia, abertamente) dentro desse parlamento. Os holandeses e os “esquerdistas” em geral raciocinam, nesse problema, como doutrinadores da revolução que nunca participaram de uma revolução verdadeira, ou que nunca meditaram sobre a história das revoluções, ou que ingenuamente tomam a negação subjetiva de uma determinada instituição reacionária por sua efetiva destruição mediante o conjunto de forças de uma série de fatores objetivos. O meio mais seguro de desacreditar uma nova idéia política (e não somente uma idéia política) e prejudicá-la consiste em levá-la ao absurdo, a pretexto de defendê-la, uma vez que toda verdade, se a tornamos “exorbitante” (como dizia Dietzgen, pai), se a exageramos e a estendemos além dos limites em que ela é realmente aplicável, pode ser levada ao absurdo e, nessas condições, ela própria se transforma num absurdo. Eis o desserviço que os esquerdistas da Holanda e da Alemanha prestam à nova verdade da superioridade do Poder Soviético sobre os parlamentos democrático-burguese s. Naturalmente, estaria errado quem continuasse sustentando, de modo geral, a velha afirmação de que abster-se de participar dos parlamentos burgueses é inadmissível em todas as circunstâncias. Não posso tentar formular aqui as condições em que é útil o boicote, já que a finalidade desse folheto é bem mais modesta: analisar a experiência russa em relação a algumas questões atuais da tática comunista internacional. A experiência russa nos apresenta uma aplicação feliz e acertada (1905) e outra equivocada (1906) do boicote por parte dos bolcheviques. Analisando o primeiro caso, concluímos: os bolcheviques conseguiram impedir a convocação do parlamento reacionário pelo Poder reacionário, num- momento em que a ação revolucionária extraparlamentar das massas (particularmente as greves) crescia com rapidez excepcional, em que não havia nenhuma setor do proletariado e do campesinato que pudesse apoiar de modo algum o Poder reacionário, em que a influência do proletariado revolucionário sobre as grandes massas atrasadas estava assegurada pela luta grevista e pelo movimento camponês. É totalmente evidente que esta experiência é inaplicável às atuais condições. européias. Também salta aos olhos - em virtude dos argumentos acima expostos - que a defesa, mesmo condicional, da renúncia à participação nos parlamentos, feita pelos holandeses e pelos “esquerdistas” é radicalmente falsa e nociva à causa do proletariado revolucionário.

Na Europa Ocidental e nos Estados Unidos o parlamento tornou-se extremamente odioso para a vanguarda revolucionária da classe operária Isso é indiscutível. E é facilmente compreensível, pois é difícil imaginar maior vilania, abjeção e felonia que a conduta da imensa maioria dos deputados socialistas e social-democratas no parlamento, durante e depois da guerra. Contudo, deixar-se levar por esses sentimentos ao resolver a questão de conto se deve lutar contra o mal universalmente reconhecido. Pode-se dizer que, em muitos países da Europa Ocidental, o estado de espírito revolucionário ainda é uma “novidade”, uma “raridade” aguardada durante muito tempo, em vão e impacientemente, razão por que, provavelmente, predomina com tanta facilidade. E' claro que sem um estado de espírito revolucionário das massas e sem condições que favoreçam o desenvolvimento desse sentimento, a tática revolucionária não se transformará em ação; na Rússia, porém, uma experiência bastante longa, dura e sangrenta convenceu-nos de que é impossível levar em conta apenas o estado de espírito revolucionário para criar uma tática revolucionária. A tática deva ser elaborada levando-se em consideração serenamente, com estrita objetividade, todas as torças de classe do Estado em questão (e dos Estados que o rodeiam, assim como de todos os Estados em escala mundial) e também a experiência dos movimentos revolucionários. Manifestar o revolucionarismo somente através de invectivas contra o oportunismo parlamentar, apenas condenando a participação nos parlamentos, é facílimo; mas, exatamente por ser muito fácil, não representa a solução para um problema difícil, dificílimo. Nos parlamentos europeus é muito mais difícil que na Rússia criar uma fração parlamentar realmente revolucionária. Sem dúvida. Isso, porém, não é senão uma expressão parcial da verdade geral de que - na situação concreta de 1917, extraordinariamente original do ponto dê vista histórico - foi fácil à Rússia começar a revolução socialista; todavia, ser-lhe-á mais difícil que aos países europeus continuá-la e concluí-la. Já no começo de 1918 tive de assinalar essa circunstância, e a experiência dos dois anos decorridos desde então veio confirmar inteiramente a justeza dessa consideração. Condições específicas como: 1) a possibilidade de conjugar a revolução soviética com a cessação, graças a ela, da guerra imperialista, que havia esgotado indescritivelmente os operários e. camponeses; 2) a possibilidade de tirar proveito, durante certo tempo, da luta mortal em que estavam empenhados os dois grupos mais poderosos de tubarões imperialistas do mundo, grupos que não podiam unir-se contra o inimigo soviético; 3) a possibilidade de suportar uma guerra civil relativamente longa, em parte pela gigantesca extensão do país o pela deficiência de suas comunicações; 4) a existência entre os camponeses de um movimento revolucionário democrático-burguê s tão profundo que o partido do proletariado pôde tornar suas as reivindicações do partido dos camponeses (do partido social-revoluc4oná rio, profundamente hostil, em sua maioria, ao bolchevismo) e realizá-las imediatamente graças à conquista do Poder político pelo proletariado - não existem hoje na Europa Ocidental. E a repetição dessas condições ou de outras semelhantes não é nada fácil. Por isso, entre outras razões, é mais difícil para a Europa Ocidental que para nós começar a Revolução socialista. Tratar de “furtar-se” a essa dificuldade “saltando” por cima do árduo problema de utilizar os parlamentos reacionários para fins revolucionários é pura infantilidade. Quereis criar uma sociedade nova e temeis a dificuldade de criar uma boa fração parlamentar de comunistas convictos, abnegados e heróicos num parlamento revolucionário! Isso não é, por acaso, uma infantilidade? Se Karl Liebknecht na Alemanha e Z. Höglund na Suécia souberam, mesmo sem o apoio, vindo da base das massas, dar um exemplo de utilização realmente revolucionária dos parlamentos revolucionários, como é possível que um partido revolucionário de massas que cresce rapidamente não possa, em meio às desilusões o à ira do após-guerra das massas, forjar uma fração comunista nos piores parlamentos? Exatamente porque as massas atrasadas de operários e mais ainda - de pequenos camponeses estão muito mais imbuídas de preconceitos democrático-burguese s e parlamentaristas na Europa Ocidental que na Rússia, exatamente por isso, somente no seio de instituições como os parlamentos burgueses os comunistas podem (e devem) travar uma luta prolongada e tenaz, sem retroceder diante de nenhuma dificuldade, para denunciar, desvanecer e superar tais preconceitos.

Os “esquerdistas” alemães queixam-se dos. maus “chefes” de seu partido e caem no desespero, chegando ao ridículo de “negar” os “chefes”. Porém, em circunstâncias que obrigam freqüentemente a mantê-los na clandestinidade, a formação de “chefes” bons, seguros, provados é prestigiosos torna-se particularmente difícil e é impossível vencer semelhantes dificuldades sem a combinação do trabalho legal com o ilegal, sem fazer os “chefes” passarem, entre outras provas, também pela do parlamento. A crítica - a mais implacável, violenta e intransigente - deve dirigir-se não contra o parlamentarismo ou a ação parlamentar, mas sim contra os chefes que não sabem - o mais ainda contra os que não querem - utilizar as eleições e a tribuna parlamentares de modo revolucionário, comunista. Somente essa crítica - ligada, naturalmente, à expulsão dos chefes incapazes e sua substituição por outros mais capazes - constituirá um trabalho revolucionário proveitoso e fecundo, que educará simultaneamente os “chefes”, para que sejam dignos da classe operária e das massas trabalhadoras, e as massas, para que aprendam a orientar-se como é necessário na situação política e a compreender as tarefas, amiúde bastante complexas e confusas, que dessa situação decorrem.*1

*[1] Foram muito poucas as possibilidades que tive para conhecer o comunismo "de esquerda" da Itália. Sem dúvida, o camarada Bordiga e sua fração de "comunistas boicotadores" (comunistas abstencionistas) estão errados ao defender a não participação no parlamento. Mas há um ponto em que, a meu ver, têm razão, pelo que posso julgar atendo-me a dois números de seu jornal Il Soviet (números 3 e 4 de 18-1 e 1-2 de 1920), a quatro números (1, 2, 3 e 4, de 1-10 a 30-11 de 1919) da excelente revista do camarada Serrati Comunismo e a números avulsos de jornais burgueses italianos que pude ler. O camarada Bordiga e sua fração tem razão precisamente quando atacam Turati e seus partidários. que estão num partido que reconhece o Poder dos Soviets e a ditadura do proletariado, continuam' sendo membros do parlamento e prosseguem em sua antiga e perniciosa política oportunista. É natural que, ao tolerar isso, o camarada Serrati e todo o Partido Socialista Italiano incorrem num erro tão cheio de prejuízos e perigos como o havido na Hungria, onde os senhores Turati locais sabotaram internamente o Partido e o Poder dos Soviets. Essa atitude errada, inconseqüente ou sem caráter em relação aos parlamentares oportunistas, gera, por um lado, o comunismo "de esquerda" e, por outro, justifica até certo ponto a sua existência. É claro que o camarada Serrati não tem razão ao acusar de inconseqüência o deputado Turati (Comunismo, n.3) pois inconseqüente é, exatamente, o Partido Socialista Italiano, que tolera em seu seio oportunistas parlamentares como Turati e Cia. (Nota do autor)

VIII - Nenhum compromisso ?

Na citação do folheto de Francfort já vimos o tom decidido com que os “esquerdistas” lançam essa palavra de ordem. É triste ver como pessoas que, sem dúvida, se consideram marxistas e querem sê-lo esqueceram as verdades fundamentais do marxismo. Engels - que, como Marx, pertence a essa raríssima categoria de escritores, em cujos grandes trabalhos, - as frases têm todas, sem exceção, uma assombrosa profundidade de conteúdo - escrevia contra o Manifesto dos 33 comunardos-blanquis tas*1, em 1874, o seguinte:

“ ... Somos comunistas”, diziam em seu manifesto os comunardos-blanquis tas, “porque queremos atingir nosso objetivo sem nos deter-mos em etapas intermediárias e sem compromissos, que nada mais fazem que tornar distante o dia da vitória e prolongar o período de escravidão”.

“Os comunistas alemães são comunistas porque, através de todas as etapas intermediárias e de todos os compromissos criados não por eles, mas pela marcha da evolução histórica, vêem com clareza e perseguem constantemente seu objetivo final: a supressão das classes e a criação de um regime social onde não haverá lugar para a propriedade privada da terra e de todos os meios de produção. Os 33 blanquistas são comunistas por imaginarem que basta seu desejo de saltar as etapas intermediárias e os compromissos para que a coisa esteja feita, e porque acreditam firmemente que “a coisa arrebenta” num dia desses e o Poder cai em suas mãos o “comunismo será implantado” no dia seguinte. Portanto, se não podem fazer isto imediatamente, não são comunistas.

“Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento teórico!” (F. Engels; Programa dos Comunardos-bIanquis tas, no jornal social-democrata alemão Volksstaat*2 ,1874, pg 73, incluído na recompilação Artigos de 1817/1875, tradução russa, Petrogrado, 1919, páginas 52/53).

Engels expressa nesse mesmo artigo seu profundo respeito por Vaillant e fala dos “méritos indiscutíveis” deste (que foi, como Guesde, um dos chefes mais destacados do socialismo internacional antes de sua traição ao socialismo em agosto de 1914). Mas Engels não deixa de analisar em todos os detalhes seu erro evidente. É claro que os revolucionários muito jovens e inexperientes, assim como os revolucionários pequeno-burgueses mesmo de idade respeitável e grande experiência, consideram extremamente perigoso, incompreensível e errôneo “autorizar que se firmem compromisso”. E muitos sofistas (como politiqueiros ultra ou excessivamente “experimentados” ) raciocinam do mesmo modo que os chefes do oportunismo inglês citados pelo camarada Lansbury: “Se os Bolcheviques se permitem tal ou qual compromisso, por que nós não nos permitimos qualquer compromisso?” . Mas os proletários, educados por repetidas greves, (para só falar dessa manifestação da luta de classes) assimilam habitualmente de modo admirável a profundíssima verdade (filosófica, histórica, política e psicológica), enunciada por Engels. Todo proletário conhece greves, conhece “compromissos” com os odiados opressores e exploradores, depois dos quais os operários tiveram de voltar ao trabalho sem haver conseguido nada ou contentando- se com a satisfação parcial de suas reivindicações. Todo proletário, graças ao ambiente de luta de massas e do acentuado agravamento dos antagonismos de classe em que vive, percebe a diferença existente entre um compromisso imposto por condições objetivas (pobreza de fundos financeiros dos grevistas, que não contam com apoio algum, passam fome e estão extenuados ao máximo) - compromisso que em nada diminui a abnegação revolucionária nem a disposição de continuar. A luta dos operários que o assumiram - e um compromisso de traidores que atribuem a causas objetivas seu vil egoísmo (os fura-greves também assumem “compromissos” !), sua covardia, seu desejo de atrair a simpatia dos capitalistas, sua falta de firmeza ante as ameaças e, às vezes, ante as exortações, as esmolas ou as adulados capitalistas (esses compromissos de traidores são particularmente numerosos na história do movimento operário inglês por parte dos chefes da trade-unions, se bem que, sob uma ou outra forma, quase todos os operários de todos os países tenham podido observar fenômenos semelhantes) .

É claro que acontecem casos isolados extraordinariamente difíceis e complexos, em que só através dos maiores esforços se pode determinar com exatidão o verdadeiro caráter desse ou daquele “compromisso”, do mesmo modo que há a casos de homicídio em que não é nada fácil julgar se este era absolutamente justo e até obrigatório (como, por exemplo, em caso de legítima defesa) ou se era efeito de um descuido imperdoável, ou mesmo conseqüência de um plano perverso executado com habilidade. Não há dúvida de que em política, onde às vezes se trata de relações nacionais o internacionais muito complexas entre as classes e os partidos, se registrarão inúmeros casos muito mais difíceis que a questão de saber se um compromisso assumido por ocasião de uma greve é legítimo ou se se trata de uma perfídia de um fura-greve, de um chefe traidor, etc. Preparar uma receita ou uma regra geral (“nenhum compromisso”! ) para todos os casos é um absurdo. É preciso ter a cabeça no lugar para saber orientar-se em cada caso particular. A importância de possuir uma organização de partido com chefes dignos desse nome consiste precisamente, entre outras coisas, em chegar - mediante um trabalho prolongado, tenaz, múltiplo e variado de todos os representantes de uma determinada classe capazes de pensar*3 - a elaborar os conhecimentos e a experiência necessários e, além dos conhecimentos e experiência, a sagacidade política exata para resolver bem e rapidamente as questões políticas complexas.

As pessoas ingênuas e totalmente inexperientes pensam que basta admitir os compromissos em geral para que desapareça completamente a linha divisória entre o oportunismo, contra o qual sustentamos e devemos sustentar uma luta intransigente, e o marxismo revolucionário ou comunismo. Mas essas pessoas, se ainda não sabem que todas as linhas divisórias na natureza o na sociedade são variáveis e até certo ponto convencionais, só podem ser ajudadas mediante o estudo prolongado, a educação, a ilustração e a experiência política e prática. Nas questões práticas da política de cada momento particular ou específico da história é importante saber distinguir aquelas em que se manifestam os compromissos da espécie mais inadmissível, os compromissos de traição, que representam um oportunismo funesto para a classe revolucionária, e dedicar todos os esforços para explicar seu sentido e lutar contra elas. Durante a guerra imperialista de 1914/1918 entre dois grupos de países igualmente criminosos e vorazes, o principal e fundamental dos oportunismos foi o que adotou a forma de social-chovinismo, isto é, o apoio da “defesa da pátria”, o que eqüivalia de fato, naquela guerra, à defesa dos interesses de rapina da “própria” burguesia. Depois da guerra foi a defesa da espoliadora “Sociedade das Nações”, a defesa das alianças diretas ou indiretas com a burguesia do próprio país contra o proletariado revolucionário e, o movimento “soviético” e a defesa da democracia o do parlamentarismo burgueses contra o “Poder dos Soviets”. Foram essas as principais manifestações desses compromissos inadmissíveis e traidores que, em seu conjunto, culminaram num oportunismo funesto para o proletariado revolucionário e sua causa.

“ ... Repelir do modo mais categórico todo compromisso com os demais partidos... toda política de manobra e conciliação", dizem os esquerdistas da Alemanha no folheto de Francfort.

É surpreendente que, com semelhantes idéias, esses esquerdistas não condenem categoricamente o Bolchevismo! Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses!

Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional, uma guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada das guerras comuns entre Estados, e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais) , não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo? Isso não será parecido com o caso de um homem que na difícil subida de uma montanha, onde ninguém jamais tivesse posto os pés, renunciasse de antemão a fazer zigue-zagues, retroceder algumas vezes no caminho já percorrido, abandonar a direção escolhida no início para experimentar outras direções? E pensar que pessoas tão pouco conscientes, tão inexperientes (menos mal se a causa disso é a juventude de tais pessoas, juventude cujas características autorizam que se digam semelhantes tolices durante certo tempo) puderam ser apoiadas direta ou indiretamente, franca ou veladamente, total ou parcialmente, pouco importa, por alguns membros do Partido Comunista Holandês!!

Depois da primeira revolução socialista do proletariado, depois da derrubada da burguesia num pais, o proletariado desse país continua sendo durante muito tempo mais débil que a burguesia, em virtude, simplesmente, , das imensas relações internacionais que ela tem e graças à restauração, ao renascimento espontâneo e contínuo do capitalismo e da burguesia através dos pequenos produtores de mercadorias do país em que ela foi derrubada. Só se pode vencer um inimigo mais forte retesando e utilizando todas as forças e aproveitando obrigatoriamente com o maior cuidado, minúcia, prudência e habilidade a menor “brecha” entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia dos diferentes países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia dentro de cada país; também é necessário aproveitar as menores possibilidades de conseguir um aliado de massas, mesmo que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional. Quem não compreende isto, não compreende nenhuma palavra de marxismo nem de socialismo científico, contemporâneo, em geral. Quem não demonstrou na prática, durante um período bem considerável e em situações políticas bastante variadas, sua habilidade em aplicar esta verdade à vida, ainda não aprendeu a ajudar a classe revolucionária em sua luta para libertar toda a humanidade trabalhadora dos exploradores. E isso aplica-se tanto ao período anterior à conquista do Poder político pelo proletariado como ao posterior.

Nossa teoria, diziam Marx e Engels, não é um dogma, mas sim um guia para a ação, e o grande erro, o imenso crime de marxista; “registrados”, como Karl Kautski, Otto Bauer e outros consiste em não haver compreendido essa afirmação, em não haver sabido aplicá-la nos momentos mais importantes da revolução proletária. “A ação política não se parece em nada com a calçada da avenida Nevsk! (a calçada larga, limpa e lisa da rua principal de Petersburgo, rua absolutamente reta), já dizia N.G. Chernishevski, o grande socialista russo do período pré-marxista. Desde a época de Chernishevski, os revolucionários russos pagaram com inúmeras vítimas a omissão ou esquecimento dessa verdade. É preciso conseguir a todo custo que os comunistas de esquerda e os revolucionários da Europa Ocidental e da América fiéis à classe operária paguem menos caro que os atrasados russos a assimilação dessa verdade.

Os social-democratas revolucionários da Rússia aproveitaram repetidas vezes antes da queda do tzarismo os serviços dos liberais burgueses, isto é, concluíram com eles inúmeros compromissos práticos, e em 1901/1902, mesmo antes do nascimento do bolchevismo, a antiga redação da Iskra (na qual participávamos Plekhanov, Axelrod, Zasúlich, Martov, Potresov e eu) concertou - (é verdade que por pouco tempo) uma aliança política formal com Struve, chefe político do liberalismo burguês, sem deixar de sustentar, simultaneamente, a luta ideológica e política mais implacável contra o liberalismo burguês e contra as menores manifestações de sua influência no seio do movimento operário. Os bolcheviques sempre praticaram essa mesma política. Desde 1905 defenderam sistematicamente a aliança da classe operária com os camponeses contra a burguesia liberal e o tzarismo sem negar-se nunca, ao mesmo tempo, a apoiar a burguesia contra o tzarismo (na segunda fase das eleições ou nos empates eleitorais, por exemplo) e sem interromper a luta ideológica e política mais intransigente contra o partido camponês revolucionário- burguês, os “social-revolucioná rios”, que eram denunciados como democratas pequeno-burgueses que falsamente se apresentavam como socialistas.

Em 1917, os bolcheviques constituíram, por pouco tempo, um bloco político formal com os “social-revolucioná rios” para as eleições da Duma. Com os mencheviques, estivemos formalmente durante vários anos, de 1903 a 1912, num partido social-democrata único, sem interromper nunca a luta ideológica e política contra eles como portadores da influência burguesa no seio do proletariado e como oportunistas. Durante a guerra assumimos uma espécie de compromisso com os “kautskistas”, os mencheviques de esquerda (Martov) e urna parte do “social-revolucioná rios” (Chernov, Natanson). Assistimos com eles às conferências de Zimmerwal,d e Kienthal e lançamos manifestos conjuntos, mas nunca interrompemos nem atenuamos a luta política e ideológica contra os “kautskistas”, contra Martov e Chernov. (Natanson morreu em 1919 sendo já um “comunista revolucionário” -populista, muito chegado a nós e quase solidário conosco). No momento da Revolução de Outubro fizemos um bloco político, não formal, mas muito importante (e muito eficaz) com o campesinato pequeno-burguê s, aceitando na íntegra, sem a mais leve modificação, o programa agrário dos social-revolucioná rios, isto é, contraímos um compromisso indubitável para provar aos camponeses que não nos queríamos impor e sim chegar a um acordo com eles. Ao mesmo tempo, propusemos aos “social-revolucioná rios de esquerda” (e depois o realizamos) um bloco político formal com participação no governo, bloco que eles romperam depois da paz de Brest, chegando, em julho de 1918, à insurreição armada e, mais tarde, à luta armada contra nós.

É fácil, por conseguinte, compreender que o ataque dos esquerdistas alemães ao Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha, em virtude deste admitir a idéia de um bloco com os “independentes” (“Partido Social-democrata, Independente da Alemanha”, os kautskistas) pareçam-nos carecer de seriedade e que vejamos neles uma demonstração evidente da posição errada dos “esquerdistas” . Na Rússia também havia mencheviques de direita (que participaram do governo de Kerenski), equivalentes aos Scheidemann da Alemanha, e mencheviques de esquerda (Martov), que se opunham aos mencheviques de direita e eqüivaliam aos kautskistas alemães. Em 1917, assistimos plenamente à passagem gradual das massas operárias ,dos mencheviques; para os bolcheviques. No 1º Congresso dos Soviets de toda a Rússia, celebrado em junho desse ano, tínhamos uns 137o dos votos. A maioria pertencia aos social-revolucioná rios e aos mencheviques. No II Congresso dos Soviets (25 de outubro de 1917, segundo o antigo calendário) tínhamos 51% dos sufrágios. Por que será que na Alemanha uma tendência igual, absolutamente idêntica, dos operários passarem da direita para a esquerda não levou ao fortalecimento imediato dos comunistas, mas sim, no inicio, ao do partido intermediário dos “independentes” , embora esse partido nunca tenha tido nenhuma idéia política independente e nenhuma política independente, nem tenha feito outra coisa que vacilar entre Scheidemann e os comunistas ?

Não há dúvida de que uma das causas foi a tática errada dos comunistas alemães, que devem reconhecer seu erro honradamente e , sem temor, e aprender a corrigi-lo. O erro consistiu em negar-se a participar no parlamento reacionário, burguês, e nos sindicatos reacionários; o erro consistiu em múltiplas manifestações dessa doença infantil do “esquerdismo”, que agora se manifestou e que, graças a isso, será curada melhor, mais rapidamente e com maior proveito para o organismo.

O “Partido Social-democrata Independente” alemão. carece, visivelmente, de homogeneidade; ao lado dos antigos chefes oportunistas (Kautski, Hilferding e, pelo que se vê, em grande parte Crispien, Ledebour e outros), que demonstraram sua incapacidade para compreender a significação do Poder Soviético e da ditadura do proletariado e para dirigir a luta revolucionária deste, formou--se e cresce com singular rapidez, nesse partido, uma ala esquerda, proletária. Centenas de milhares de membros do partido - que tem, ao que parece, uns 750 000 membros - são proletários que se afastam de Scheidemann e caminham a largas passadas em direção ao comunismo. Esta ala proletária já no Congresso dos independentes, realizado em Leipzig em 1919, propôs a adesão imediata e incondicional à III Internacional. Temer um “compromisso” com essa ala do partido é simplesmente ridículo. Pelo contrário, para os comunistas é obrigatório procurar e encontrar uma forma adequada de compromisso com ela, que permita, de um lado, facilitar a apressar a fusão completa e necessária com ela e que, de outro, não entrave de modo algum os comunistas em suar luta ideológica e política contra a ala direita, oportunista, dos “independentes” . É provável que não seja fácil elaborar uma forma adequada de compromisso, mas só um charlatão poderia prometer aos operários e aos comunistas alemães um caminho “fácil” para alcançar a vitória.,

O capitalismo deixaria de ser capitalismo se o proletariado “puro” não estivesse rodeado de uma massa de elementos de variadíssimas graduações, elementos que representam a transição do proletário ao semiproletário (o aue obtém grande parte de seus meios de existência vendendo sua força de trabalho), do semiproletário ao pequeno camponês (e ao pequeno artesão, ao biscateiro, ao pequeno patrão em geral) do pequeno camponês ao camponês médio, etc., e se no próprio seio do proletariado não houvesse setores com um maior ao menor desenvolvimento, divisões de caráter territorial, profissional, às vezes religioso, etc. De tudo isso se depreende imperiosamente a necessidade uma necessidade absoluta - que tem a vanguarda do proletariado, sua parte consciente, o Partido Comunista, de recorrer à manobra aos acordos, aos compromissos com os diversos grupos proletários, com os diversos partidos dos operários e dos pequenos patrões. Toda a questão consiste em saber aplicar essa tática para elevar, e não para rebaixar, o nível geral de consciência, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado. É preciso assinalar, entre outras coisas, que a vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques exigiu da Revolução de Outubro de 1917, não só antes como também depois dela, a aplicação de uma tática de manobras, acordos, compromissos, ainda que de tal natureza, é claro, que facilitavam e apressavam a vitória dos bolcheviques, além de consolidar e fortalecê-los às custas dos mencheviques. Os democratas pequeno-burgueses (inclusive os mencheviques) vacilavam inevitavelmente entre a burguesia e o proletariado, entre a democracia burguesa e o regime soviético, entre o reformismo e o revolucionarismo, entre o amor aos operários e o medo da ditadura do proletariado, etc. A tática acertada dos comunistas deve consistir em utilizar essas vacilações e não, de modo algum, em desprezá-las; para utilizá-las é necessário fazer concessões aos elementos que se inclinam para o proletariado - no caso e na medida exatos em que o fazem - e, ao mesmo tempo, lutar contra os elementos que se inclinam para a burguesia. Em virtude de seguirmos uma tática acertada, o menchevismo se foi decompondo e se decompõe cada vez mais em nosso país; essa tática foi isolando os chefes obstinados no oportunismo e trazendo para o nosso campo os melhores operários, os melhores elementos da democracia pequeno-burguesa. Trata-se de um processo longo, e as “soluções” fulminantes, tais como “nenhum compromisso”, nenhuma manobra, só podem dificultar o crescimento da influência do proletariado revolucionário e o aumento de suas forças.

Finalmente, um dos erros incontestes dos “esquerdistas” da Alemanha consiste em sua insistência inflexível em não reconhecer o Tratado de Versailles. Quanto maiores são a “firmeza” e a “importância” e o tom “categórico” e sem apelação com que formula esse ponto de vista K. Horner, por exemplo, menos inteligente resulta. Não basta renegar as indignantes tolices do bolchevismo nacional (Lauffenberg e outros), que, nas atuais condições da revolução proletária internacional, chegou até a falar na formação de uma aliança com a burguesia alemã para a guerra contra a Entente. É preciso compreender que é absolutamente errônea a tática que nega a. obrigação da Alemanha Soviética (se surgisse rapidamente uma república soviética alemã) de reconhecer durante certo tempo o Tratado de Versailles e submeter-se a ele. Daí não se deduz que os “independentes” tiveram, razão ao reclamar a assinatura do Tratado de Versailles nas condições então existentes, quando os Scheidemann estavam no governo, ainda não havia sido derrubado o Poder Soviético na Hungria e ainda não estava excluída a possibilidade de uma ajuda da revolução soviética em Viena para apoiar a Hungria Soviética. Naquele momento, os “independentes” manobraram muito mal, pois tomaram para si a responsabilidade, maior ou menor, por traidores tipo Scheidemann e se desviaram em maior ou menor escala da luta de classes implacável (e friamente arquitetada) contra os Scheidemann para colocar-se “fora” ou “acima” das classes.

Mas a situação atual é de tal natureza, que os comunistas alemães não devem amarrar-se as mãos e prometer a renúncia obrigatória e indispensável ao Tratado de Versailles em caso de triunfar o comunismo. Isso seria uma tolice. É preciso que se diga: os Scheidemann e os kautskistas cometeram .uma série de traições que dificultaram (e em parte fizeram fracassar) a aliança com a Rússia Soviética e com a Hungria Soviética. Nós, comunistas, procuraremos por todos os meios facilitar e preparar essa aliança; quanto à paz de Versailles, não estamos de modo algum obrigados a rechaçá-la a todo custo e, além disso, imediatamente. A possibilidade de rechaçá-la eficazmente depende dos êxitos do movimento soviético não só na Alemanha, como também no terreno internacional. Este movimento foi dificultado pelos Scheidemann e os kautskistas; nós o favorecemos. Nisso reside a essência da questão, a diferença radical. E se nossos inimigos de classe, os exploradores e seus lacaios, os Scheidemann e os kautskistas, deixaram escapar uma série de possibilidades de fortalecer o movimento soviético alemão e internacional e a revolução soviética alemã e internacional, a culpa é deles. A revolução soviética na Alemanha robustecerá o movimento soviético internacional, que é o reduto mais forte (e o único seguro invencível e de potência universal) contra o Tratado de Versailles e contra o imperialismo mundial em geral. Colocar obrigatoriamente, a todo preço e imediatamente em primeiro plano a denúncia do Tratado de Versailles, antes da questão de libertar do jugo imperialista os demais países oprimidos pelo imperialismo, é uma manifestação de nacionalismo pequeno-burguê s (digno dos Kautsky, Hilferding, Otto Bauer & Cia.) mas não de internacionalismo revolucionário. A derrubada da burguesia em qualquer dos grandes países europeus, inclusive Alemanha, é um acontecimento tão favorável para a revolução internacional que, em proveito dessa derrubada, podemos e devemos aceitar, se for necessário, uma existência mais prolongada do. Tratado de Versailles. Se a Rússia pôde resistir sozinha durante vários meses ao Tratado de Brest, com proveito para a revolução, não é nada impossível que a Alemanha Soviética, aliada à Rússia Soviética, possa suportar mais tempo com proveito para a revolução o Tratado de Versailles.

Os imperialistas da França, Inglaterra, etc., provocam os comunistas alemães, preparando-lhes essa armadilha: “Digam que não assinarão o Tratado de Versailles”. E os comunistas “de esquerda” caem como patinhos na armadilha, em vez de manobrar com destreza contra um inimigo traiçoeiro e, no momento atual, mais forte, em vez de dizer-lhe: “Agora assinaremos o Tratado de Versailles”. Amarrarmos as mãos antecipadamente, declarar abertamente ao inimigo, hoje melhor armado que nós, que vamos lutar contra ele e em que momento, é uma tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem para nada os políticos da classe revolucionária que não sabem “manobrar”, que não sabem concertar “acordos e compromissos” a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável.

*[1] Partidários de Louis Auguste Blanqui, participantes da Comuna de Paris. (Nota do tradutor)

*2 O Estado Popular. (Nota da Redação)

*3 Mesmo no país mais culto, toda classe, inclusive a mais avançada e com o mais excepcional florescimento, de todas as suas forças espirituais gerado pelas circunstâncias do momento, conta - e contará inevitavelmente enquanto subsistirem as classes e a sociedade sem classes não estiver assentada, consolidada e desenvolvida por completo sobre seus próprios fundamentos ~ Com representantes que não pensam e que são incapazes de pensar. 0 capitalismo não seria o capitalismo opressor das massas se isso não acontecesse. (Nota do autor)

IX - 0 comunismo “de esquerda”, na Inglaterra

Na Inglaterra ainda não existe o Partido Comunista, mas entre os operários observa-se um movimento comunista jovem, amplo, poderoso, que cresce com rapidez e permite que se alimentem as mais radiosas esperanças. Há alguns partidos e organizações políticas, (“Partido Socialista Britânico”17 , “Partido Socialista Operário”, “Sociedade Socialista do Sul de Gales”, “Federação Socialista Operaría”18 que desejam fundar o Partido Comunista e que, para isso, já fazem negociações entre si. O Workers Dreadnought (t. VI, n.º. 48, de 21/11/1920), semanário da última das organizações citadas, dirigido pela camarada Sylvia Pankhurst, publicou um artigo escrito por ela, intitulado, Rumo ao Partido Comunista. Nele está exposta a marcha das negociações entre as quatro organizações citadas para constituir um Partido Comunista único, baseado na adesão à II Internacional o no reconhecimento, em vez do parlamentarismo, do sistema soviético e da ditadura do proletariado. Acontece que um dos principais obstáculos para a criação imediata de um Partido Comunista único é a falta de unanimidade no que concerne à participação no parlamento e à adesão do novo Partido Comunista ao velho “Partido Trabalhista” oportunista, social-chovinista e profissionalista, integrado predominantemente por trade-unions. A “Federação Socialista Operária” e o “Partido Socialista Operário”*1 pronunciam-se contra a participação nas eleições parlamentares e no parlamento, e contra a adesão ao “Partido Trabalhista”, discordando quanto a isso de todos ou da maioria dos membros do Partido Socialista Britânico, que, é, na sua opinião, “a ala direita dos Partidos Comunistas“ na Inglaterra (pág. 5, artigo citado de Sylvia Pankhurst).

A divisão fundamental é, portanto, a mesma que na Alemanha, malgrado as enormes diferenças de forma em que se manifestam as divergências (na Alemanha essa forma é muito mais parecida “com a russa” que na Inglaterra), além de muitas outras circunstâncias. Examinemos os argumentos dos “esquerdistas” .

Ao falar da participação no parlamento, a camarada Sylvia Pankhurst alude a uma carta à Redação do camarada W. Gallacher, publicada no mesmo número, o qual, em nome do “Conselho Operário da Escócia”, de Glasgow, escreve:

"Este Conselho é definidamente antiparlamentarista e está apoiado pela ala esquerda de várias organizações políticas. Representamos o movimento revolucionário na Escócia, que pretende criar uma organização revolucionária nas indústrias (nos diversos setores da produção) e um Partido Comunista, baseado em Comitês sociais, no país inteiro. Durante muito tempo altercamos com os parlamentares oficiais. Não achamos necessário declarar-lhes guerra abertamente e eles temem iniciar o ataque contra nós.

Semelhante estado de coisas, porém, não pode prolongar-se muito. Nós triunfamos em toda a linha.

Os membros de base do Partido Trabalhista Independente da Escócia tem uma repugnância cada vez maior pela idéia do parlamento, e quase todos os grupos locais são partidários dos Soviets (no texto inglês emprega-se o termo russo) ou Conselhos Operários. Sem dúvida, isso tem considerável importância para os senhores que consideram a política um meio de vida (como se fosse uma profissão) e põem em jogo todos os métodos para persuadir seus membros a voltarem para o parlamentarismo. Os camaradas revolucionários não devem (todos os grifos são do autor) apoiar esse bando. Nesse terreno, nossa luta será muito difícil. Um dos seus piores aspectos consistirá na traição daqueles cuja ambição pessoal é um motivo mais forte que seu interesse pela revolução. Qualquer apoio ao parlamentarismo eqüivale a contribuir para que o Poder caia nas mãos dos Scheidemann e Noske britânicos. Henderson. Clynes, & Cia são reacionários irrecuperáveis. O Partido Trabalhista Independente oficial cai, cada vez mais sob o controle dos liberais burgueses, que encontraram um refúgio espiritual no campo dos senhores MacDonald, Snowden e companhia. O Partido Trabalhista Independente oficial é violentamente hostil à III Internacional, mas a massa é partidária dela. Apoiar, seja como for, os parlamentaristas oportunistas significa simplesmente fazer o jogo desses senhores. O Partido Socialista Britânico nada significa... Precisa-se é de uma boa organização revolucionária industrial e de um Partido Comunista que atue em bases claras, bem definidas, científicas. Se nossos camaradas podem ajudar-nos a criar ambas as coisas, aceitaremos de bom gosto sua ajuda; se não podem, por Deus, não se metam nisso, se não querem trair a Revolução apoiando os reacionários, que tão cuidadosamente tratam de adquirir o "honroso" (?) (a interrogação é do autor) titulo de parlamentar e que ardem de desejos de demonstrar que são capazes de governar tão bem quanto os próprios “amos", os políticos de classe".

Esta carta à Redação exprime admiravelmente, na minha opinião, o estado de espirito e o ponto de vista dos comunistas jovens e dos operários comuns que apenas começam a chegar ao comunismo. Esse estado de espírito é altamente consolador e valioso: é preciso saber apreciá-lo e apoiá-lo, porque sem ele seria para desanimar da vitória da revolução proletária na Inglaterra (e em qualquer outro país). É preciso conservar cuidadosamente e ajudar com toda a solicitude os homens que sabem expressar esse estado de ânimo das massas e suscitá-lo (pois muito amiúde ele permanece oculto, inconsciente, adormecido). Mas, ao mesmo tempo, é mister dizer-lhes, clara e sinceramente que, por si só, esse espírito é insuficiente para dirigir as massas na grande luta revolucionária, e que esses ou outros erros em que podem incorrer ou incorrem os homens mais fiéis à causa revolucionária são capazes de prejudicá-la. A carta dirigida à Redação pelo camarada Gallacher mostra de modo inconteste, o germe de todos os erros que cometem os comunistas “de esquerda” alemães e em que incorreram os bolcheviques “de esquerda” russos em 1908 e 1918.

O autor da carta está imbuído do mais nobre ódio proletário aos “políticos de classe “ da burguesia (ódio compreensível e suscetível de penetrar, por outro lado, não só nos proletários, como em todos os. trabalhadores, todos os “pequenos”, para empregar a expressão alemã). Esse ódio de um representante das massas oprimidas e exploradas é, na verdade, o “princípio de toda a sabedoria”, a base de todo movimento socialista e comunista e de seus êxitos. Mas o autor não leva em conta, pelo visto, que a política é uma ciência e uma arte que não caem do céu, que não se obtêm gratuitamente, e que se o proletariado quiser vencer a burguesia deve formar seus “políticos de classe”, proletários, e de tal envergadura que não sejam inferiores aos políticos burgueses.

O autor compreendeu de modo admirável que não é o parlamento, e sim apenas os Soviets operários que podem constituir o instrumento necessário do proletariado para atingir seus objetivos. E, naturalmente, quem até agora não compreendeu isso, é o pior dos reacionários, mesmo que seja o homem mais culto, o político mais experiente, o socialista mais sincero, o marxista mais erudito, o mais honrado cidadão e chefe de família. Há, porém, uma questão que o autor não apresenta e nem sequer pensa que seja necessário apresentar; se se pode levar os Soviets à vitória sobre o parlamento sem fazer com que os políticos “soviéticos” entrem no parlamento, sem decompor o parlamentarismo estando dentro dele, sem preparar no interior do parlamento o êxito dos Soviets no cumprimento de sua tarefa de acabar com o parlamento. Contudo, o autor exprime uma idéia absolutamente justa ao dizer que o Partido Comunista Inglês deve atuar em bases científicas. A ciência exige, em primeiro lugar, que se leve em conta a experiência dos demais países, sobretudo se esses países, também capitalistas, passam ou passaram há pouco por uma experiência bastante parecida ; em segundo lugar, exige que se levem em conta todas as forças, todos os grupos, partidos, classes e massas que atuam dentro do pais considerado, em vez de determinar a política baseando-se exclusivamente nos desejos e opiniões, no grau de consciência e de preparação para a luta de um só grupo ou partido.

É certo que os Henderson, Clynes, MacDonald e Snowden são reacionários irrecuperáveis. E também é certo que querem tomar o Poder (ainda que prefiram a coalizão com a burguesia), que querem “governar”, de acordo com as rançosas normas burguesas e que, uma vez de posse do Poder, procederão inevitavelmente como os Scheidemann e os Noske. Tudo isso é verdade; mas dai não se deduz, absolutamente, que apoiá-los eqüivale a trair a revolução, mas sim que, no interesse dela, os revolucionários da classe operária devem conceder a esses senhores certo apoio parlamentar. Para tornar clara essa idéia usarei dois documentos políticos ingleses atuais : 1) o discurso pronunciado pelo Primeiro Ministro Lloyd George a 18 de março de 1920 (segundo o texto do The Manchester Guardian de 19 do mesmo mês) e 2) os argumentos de uma comunista “de esquerda”, camarada Sylvia Pankhurst, no artigo citado.

Em seu discurso, Lloyd George polemiza com Asquith (que fora convidado especialmente para a reunião, mas que se negou a assisti-la) e com aqueles liberais que querem uma aproximação com o Partido Trabalhista e não a coalizão com os conservadores. (Na carta dirigida à Redação pelo camarada Gallacher vimos também uma alusão à passagem de alguns liberais ao Partido Trabalhista Independente) . Lloyd George demonstra que é necessária uma coalizão dos liberais com os conservadores, inclusive uma coalizão estreita, pois de outro modo a vitória pode ser alcançada pelo Partido Trabalhista, . que Lloyd George “prefere chamar” de socialista e que aspira “à propriedade coletiva” dos meios de produção. “Na França isso se chamava comunismo” - explica em linguagem popular o chefe da burguesia inglesa a seus ouvintes, membros do Partido Liberal parlamentar, que, com certeza, até então ignoravam isso – “na Alemanha chamava-se socialismo; na Rússia chama-se bolchevismo”. Para os liberais isso é inadmissível por princípio, esclarece Lloyd George, pois os liberais são, por princípio, defensores da propriedade privada. “A civilização está em perigo”, declara o orador, razão por que devem unir-se liberais e conservadores. ..

“... Se vocês forem aos distritos agrícolas - diz Lloyd George - verão conservadas, reconheço, as antigas divisões do partido. Lá, o perigo está longe, não existe. Mas quando o perigo lá chegar, será tão grande como o é hoje em alguns distritos industriais. Quatro quintos de nosso país dedicam-se à Indústria e ao comércio; apenas um quinto vive da agricultura. Eis uma das circunstâncias que sempre tenho em mente quando penso nos perigos com que o futuro nos ameaça. Na França, a população é agrícola e por isso constitui uma base sólida de determinadas opiniões, base que não se modifica tão rapidamente e que não é facilmente excitável pelo movimento revolucionário. Em nosso país a coisa é diferente. Nosso pais é menos estável que qualquer outro, e se se começar a vacilar, a catástrofe aqui será, em virtude dos motivos citados, mais forte que nos demais países".

Através dessas citações, o leitor pode perceber que o Sr. Lloyd George não só é muito inteligente, como também que aprendeu muito com os marxistas. Nós também não faríamos nenhum mal em aprender com Lloyd George.

É igualmente interessante registrar o seguinte episódio da discussão havida depois do discurso de Lloyd George:

"G. Wallace: Gostaria de perguntar como encara o primeiro ministro os resultados de sua política nos, distritos industriais no que concerne aos operários industriais, muitos dos quais são hoje liberais e nos concedem tão grande apoio. Não se pode prever um resultado que provoque um aumento enorme da força do Partido Trabalhista por parte desses mesmos operários que hoje nos apoiam tão sinceramente?

O Primeiro Ministro: Sou de opinião completamente diferente. O fato de os liberais lutarem entre si leva, sem dúvida, um número bastante considerável deles, movidos pelo desespero, para as fileiras do Partido Trabalhista, onde há muitos liberais bastante capazes que hoje se ocupam em desacreditar o governo. O resultado dessa luta entre os liberais, evidentemente, é um importante movimento da opinião pública em favor do Partido Trabalhista. A opinião pública inclina-se não para os liberais que estão fora do Partido Trabalhista, mas sim para este, como mostram as eleições parciais".

Digamos, de passagem, que esses raciocínios provam de modo singular até que ponto se confundiram e não podem deixar de cometer desatinos irreparáveis os mais inteligentes homens da burguesia. É isto que a fará perecer. Nossos camaradas podem até fazer tolices (contanto, é claro, que não sejam muito consideráveis e possam ser reparadas a tempo) e, não obstante, acabarão por triunfar.

0 segundo documento político são as seguintes considerações da comunista “de esquerda” camarada Sylvia Pankhurst:

“...0 camarada Inkpin (secretário do Partido Socialista Britânico) denomina o Partido Trabalhista de "a principal organização do movimento da classe operária". Outro camarada do Partido Socialista Britânico expressou ainda com mais relevo o ponto de vista desse partido na Conferência da III Internacional. "Consideramos o Partido Trabalhista - disse - como a classe operária organizada".

Não compartilhamos dessa opinião a respeito do Partido Trabalhista. Ele é muito importante do ponto de vista numérico, embora seus membros sejam; em grande parte, inertes e apáticos; trata-se de operários e operárias que entraram para as trade-unions porque seus companheiros de oficina são trade-unionistas e porque desejam receber seguros e pensões.

Reconhecemos, porém, que a importância numérica do Partido Trabalhista obedece também ao fato de ser esse partido fruto de uma escola de pensamento, cujos limites ainda não foram ultrapassados pela maioria da classe operária britânica, embora se preparem grandes modificações na mentalidade do povo que transformarão brevemente esse estado de coisas... "

“... 0 Partido Trabalhista Britânico, como as organizações social-patriotas dos demais países, chegará inevitavelmente ao Poder pelo caminho natural do desenvolvimento social. O dever dos comunistas consiste em organizar as forças que derrubarão os social-patriotas, e em nosso país não devemos vacilar nem retardar essa ação.

Não devemos dispersar nossas energias aumentando as forças do Partido Trabalhista; seu advento ao Poder é inevitável. Devemos concentrar nossas forças na criação de um movimento comunista que derrote esse partido. Dentro de pouco tempo o Partido Trabalhista estará no governo; a oposição revolucionária deve estar preparada para empreender o ataque contra ele..."

Assim, pois, a burguesia liberal renuncia ao sistema dos “dois partidos” (dos exploradores) , consagrado no transcurso da história por uma experiência secular e extremamente proveitoso para os exploradores, considerando necessária a união de suas forças a fim de lutar contra o Partido Trabalhista. Uma parte dos liberais, como os ratos de um navio que afunda, corre para o Partido Trabalhista. Os comunistas de esquerda consideram inevitável a passagem do Poder para as mãos do Partido Trabalhista e reconhecem que a maior parte dos operários está atualmente a favor desse partido. De tudo isso, chegam à estranha conclusão assim formulada pela camarada Sylvia Pankhurst :

"0 Partido Comunista não deve assumir compromissos. .. Deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; sua missão é marchar na vanguarda, sem deter-se ou desviar-se de seu caminho, avançar em linha reta em direção à Revolução Comunista".

Pelo contrário, do fato de a maioria dos operários da Inglaterra ainda seguir os Kerenski e os Scheidemann ingleses de não ter passado "ainda pela experiência de um governo formada por esses homens - experiência que foi necessária tanto na Rússia como na Alemanha para que os operários se passassem em massa para o comunismo deduz-se de modo infalível que os comunistas ingleses devem participar do parlamentarismo, devem ajudar a massa operária de dentro do parlamento a ver na prática os efeitos do governo dos Henderson e dos Snowden, devem ajudar os Henderson e Snowden a derrotarem a coalizão de Lloyd George e Churchill. Proceder de outro modo significa dificultar a marcha da revolução, pois se não se produz uma modificação nas opiniões da maioria da classe operária, a revolução torna-se impossível; e essa modificação se consegue através da experiência política das massas, e nunca apenas com a propaganda. A palavra de ordem: “Avante sem compromissos, sem desviar-se do caminho!” é claramente errada, se quem a propala é uma minoria evidentemente impotente de operários que sabe (ou, pelo menos, deve saber) que dentro de pouco tempo, no caso de, Henderson e Snowden triunfarem sobre Lloyd George e Churchill, a maioria perderá a fé - em seus chefes e apoiará o comunismo (ou, em todo caso, adotará uma atitude de neutralidade e, em sua maioria, de neutralidade simpática em relação aos comunistas). É a mesma coisa que se 10.000 soldados se lançassem ao combate contra 50.000 inimigos no momento em que é necessário “deter-se”, "afastar-se do caminho”, e até concertar um “compromisso” para esperar a chegada de um reforço prometido de 100.000 homens, que não podem entrar em ação imediatamente. É uma infantilidade própria de intelectuais e não uma tática séria da classe revolucionária.

A lei fundamental da revolução, confirmada por todas as revoluções, e em particular pelas três revoluções russas do século XX, consiste no seguinte: para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de continuar vivendo como vivem e exijam transformações; para a revolução é necessário que os exploradores não possam continuar vivendo e governando como vivem e governam. Só quando os “de baixo” não querem e os “de cima” não podem continuar vivendo à moda antiga é que a revolução pode triunfar. Em outras palavras, esta verdade exprime-se do seguinte modo: a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores) . Por conseguinte, para fazer a revolução é preciso conseguir, em primeiro lugar, que a maioria dos operários (ou, em todo caso, a maioria dos operários conscientes, pensantes, politicamente ativos) compreenda a fundo a necessidade da revolução e esteja disposta a sacrificar a vida por ela ; em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação do número de homens aptos para a luta política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência e. torne possível sua rápida derrubada pelos revolucionários.

Na Inglaterra, e exatamente o discurso de Lloyd George o demonstra, entre outras coisas, desenvolvem- se a olhos vistos as duas condições de uma revolução proletária vitoriosa. E os erros dos comunistas de esquerda representam atualmente um singular perigo precisamente porque observamos em alguns revolucionários uma atitude pouco ponderada, pouco atenta, pouco consciente, pouco reflexiva com relação a cada um desses fatores. Se somos o partido da classe revolucionária, e não um grupo revolucionário, se queremos atrair as massas (sem o que corremos o risco de não passar de simples charlatães) devemos: em primeiro lugar, ajudar Henderson ou Snowden a vencer Lloyd George e Churchill (mais exatamente: devemos obrigar os primeiros a vencer os segundos, pois os primeiros tem medo de sua própria vitória!); em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razão, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência; e, em terceiro lugar, antecipar o momento em que, sobre a base da desilusão produzida pelos Henderson na maioria dos operários, se possa, com grandes probabilidades de êxito, derrubar de golpe o governo dos Henderson. Se inclusive Lloyd George, político inteligentíssimo e resoluto, que não é pequeno burguês, mas sim grande burguês, debilita-se cada vez mais (com toda a burguesia), ontem por suas “rusgas” com Churchill e hoje por suas “rusgas” com Asquith, e perde a cabeça, com muito mais facilidade a perderão os Henderson.

Falarei de modo mais concreto. Os comunistas ingleses devem, na minha opinião, unificar seus quatro partidos e grupos (todos muito débeis e alguns extraordinariamente débeis) num Partido Comunista único, baseado nos princípios da III Internacional e da participação obrigatória no parlamento. O Partido Comunista propõe aos Henderson e Snowden um “compromisso”, um acordo eleitoral: marchemos juntos contra a coalizão de Lloyd George e os conservadores, repartamos os postos no parlamento proporcionalmente aos votos dados pelos operários ao Partido Trabalhista ou aos comunistas (não nas eleições, mas numa votação especial) conservemos a mais completa liberdade, de agitação, propaganda e ação política. Sem esta última condição é impossível, naturalmente, fazer a aliança, pois seria uma traição. Os comunistas ingleses devem reivindicar e alcançar a mais completa liberdade, que lhes permita, desmascarar os Henderson e Snowden, de modo tão absoluto como o fizeram (durante 15 anos, de 1903 a 1917) os bolcheviques russos em relação aos Henderson e Snowden da Rússia, isto é, os mencheviques.

Se os Henderson e Snowden aceitarem a aliança nessas condições, sairemos ganhando, pois o que nos interessa não é, absolutamente, o número de cadeiras no parlamento. Não é esse o nosso objetivo; nesse ponto seremos transigentes (enquanto os Henderson e, sobretudo, seus novos amigos - ou seus novos amos - os liberais que ingressaram no Partido Trabalhista, correm atrás disso mais que de qualquer outra coisa). Teremos ganho porque levaremos nossa agitação às massas num momento em que o próprio Lloyd George as terá “irritado’, e ajudaremos não só o Partido Trabalhista a formar mais depressa o seu governo, como também as massas a compreenderem melhor toda nossa propaganda comunista, que realizaremos contra os Henderson sem nenhuma limitação, sem nada silenciar.

Se os Henderson e Snowden repelirem a aliança conosco, nessas condições, teremos ganho ainda mais, pois teremos mostrado na hora às massas (levem em conta que inclusive dentro do Partido Trabalhista Independente, puramente menchevique, completamente oportunista, as massas são partidárias dos Soviets) que os Henderson preferem sua intimidade com os capitalistas à união de todos os trabalhadores. Teremos ganho imediatamente ante a massa, a qual, sobretudo depois das explicações brilhantíssimas, extremamente acertadas e úteis (para o comunismo) dadas por Lloyd George, simpatizará com a idéia da união de todos os .operários contra a coalizão de Lloyd George com os conservadores. Teremos ganho desde o primeiro momento, pois teremos demonstrado às massas que os Henderson e Snowden receiam vencer Lloyd George, receiam tomar o Poder sozinhos e aspiram a conseguir em segredo o apoio de Lloyd George, que estende a mão abertamente aos conservadores contra o Partido Trabalhista. É preciso lembrar que na Rússia, depois da revolução de 27 de fevereiro de 1917 (calendário antigo), o êxito da propaganda dos bolcheviques contra os mencheviques e social-revolucioná rios (isto é, os Henderson e Snowden russos) foi devido precisamente às mesmas circunstâncias. Dizíamos aos mencheviques e aos social-revolucioná rios: tomem todo o Poder sem a burguesia, posto que vocês têm a maioria nos Soviets (no I Congresso dos Soviets de toda a Rússia, celebrado em junho de 1917, os bolcheviques não tinham mais que 13% dos votos). Mas os Henderson e Snowden russos tinham medo de tomar o Poder sem a burguesia, e quando esta adiou as eleições para a Assembléia Constituinte porque sabia perfeitamente que os social-revolucioná rios e os mencheviques alcançariam a maioria*2 (ambos formavam um bloco político muito estreito, representavam praticamente uma só democracia pequeno-burguesa) , os social-revolucioná rios e os mencheviques ficaram impotentes para lutar com energia e até o fim contra esses adiamentos.

Se os Henderson e Snowden se negassem a formar uma aliança com os comunistas, estes sairiam ganhando de imediato, pois conquistariam a simpatia das massas, enquanto os Henderson e Snowden ficariam desacreditados. Pouco nos importaria então perder algumas cadeiras no parlamento por causa disso. Só apresentaríamos candidatos num número ínfimo de circunscrições absolutamente seguras, isto é, onde isto não representasse a vitória de um liberal contra um trabalhista. Realizaríamos a nossa campanha eleitoral distribuindo volantes de propaganda do comunismo e convidando o povo, em todas as circunscrições em que não apresentássemos candidato, a votar no trabalhista contra o burguês. Enganam-se os camaradas Sylvia Pankhurst e Gallacher se vêem nisso uma traição ao comunismo ou uma renuncia à luta contra os social-traidores. Pelo contrário, não há dúvida de que a causa da revolução sairia ganhando.

Hoje em dia, é muito difícil para os comunistas ingleses inclusive aproximar-se das massas, fazer com que elas os ouçam. Contudo, se me apresentar como comunista e, ao mesmo tempo, convidar a votar em Henderson contra Lloyd George, é certo que serei ouvido. E poderei explicar de modo acessível não só por que os Soviets são melhores que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor que a ditadura de Churchill (mascarada sob o rótulo de “democracia”, burguesa), como também por que eu gostaria de sustentar Henderson com meu voto do mesmo modo que a corda sustenta o enforcado; que a aproximação dos Henderson a um governo formado por eles mesmos demonstrará a minha razão, atrairá as massas para o meu lado e acelerará a morte política dos Henderson e Snowden, exatamente como aconteceu com seus correligionários na Rússia e na Alemanha.

E se replicarem dizendo que esta tática é muito “astuta” ou complicada, que as massas não a compreenderão, que dispersará e desagregará nossas forças impedindo-nos de concentrá-las, na revolução soviética, etc., responderei aos meus contestadores “de esquerda”: não atribuam às massas o seu próprio doutrinarismo ! É de supor-se que na Rússia as massas não são mais cultas, mas, pelo contrário, que são menos cultas que na Inglaterra. Apesar disso, compreenderam os bolcheviques; e, em vez de prejudicá-los, favoreceu-os o fato de, nas vésperas da revolução soviética de setembro de 1917, comporem, listas de candidatos seus ao parlamento burguês (à Assembléia Constituinte) e tomarem parte, no dia seguinte à revolução soviética de novembro de 1917, nas eleições para essa mesma Constituinte, dissolvida por eles no dia 5 de janeiro de 1918.

Não posso examinar pormenorizadamente a segunda divergência entre os comunistas ingleses, consistente em se devem ou não aderir ao Partido Trabalhista. Tenho pouquíssimos dados sobre essa questão extremamente complexa, dada a extraordinária originalidade do “Partido Trabalhista” Britânico, muito pouco parecido estruturalmente com os habituais partidos políticos do continente europeu. Mas não há dúvida de que, em primeiro lugar, também incorre inevitavelmente em erro quem deduz a tática do proletariado revolucionário de princípios como este: “0 Partido Comunista deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; sua missão é marchar na vanguarda, sem deter-se ou desviar-se de seu caminho, avançar em linha reta em direção à Revolução Comunista”. Princípios como este só fazem repetir o erro dos comunardos-blanquí stas franceses, que em 1874 proclamavam a “negação” de todo compromisso e de toda etapa intermediária. Em segundo lugar, não há dúvida de que nesse ponto a tarefa consiste, como sempre, em saber aplicar os princípios gerais e fundamentais do comunismo às peculiaridades das relações entre as classes e os partidos, às peculiaridades do desenvolvimento objetivo rumo ao comunismo, próprias a cada pais e que é necessário saber estudar, descobrir e adivinhar.

Mas é preciso falar a respeito disso não só em relação ao comunismo inglês, mas sim em relação às conclusões gerais que se referem ao desenvolvimento do comunismo em todos os países capitalistas. Este é o tema que vamos abordar agora.

*1 Pelo visto, esse partido opõe-se à adesão ao "Partido Trabalhista" , mas nem todos os seus membros são contra a participação no parlamento. (Nota do autor)

*2 As eleições de novembro de 1917 para a Assembléia Constituinte na Rússia, segundo dados que abrangem mais de 36 milhões de eleitores, deram 25% dos votos aos bolcheviques, 13% aos diferentes partidos dos latifundiários e da burguesia e 62% à democracia pequeno-burguesa, isto é, aos social-revolucioná rios e mencheviques juntamente com os pequenos grupos chegados a eles. (Nota do autor)

X - Algumas conclusões

A revolução burguesa de 1905 na Rússia evidenciou uma reviravolta extraordinariamente original da história universal: num dos países capitalistas mais atrasados, o movimento grevista alcançou, pela primeira vez no mundo, força e amplitude inusitadas. Só em janeiro de 1905, o número de grevistas foi dez vezes maior que a média anual de grevistas durante os dez anos anteriores (1895/1904); de janeiro a outubro de 1905, as greves aumentaram incessantemente e em proporções gigantescas. Sob a influência de uma série de fatores históricos completamente originais, a Rússia atrasada deu ao mundo o primeiro exemplo não só de um salto brusco, em época de revolução, da atividade espontânea das massas oprimidas (coisa que ocorreu em todas as grandes revoluções), como também de uma projeção do proletariado que superava infinitamente o que se podia esperar por sua pequena percentagem entre a população; mostrou pela primeira vez a combinação da greve econômica com a greve política, com a transformação desta última em insurreição armada, o nascimento de uma nova forma de luta de massas e de organização de massas das classes oprimidas pelo capitalismo: os Soviets.

As revoluções de fevereiro e outubro de 1917 levaram ao desenvolvimento multilateral dos Soviets em todo o pais e, depois, à sua vitória na revolução proletária, socialista. Menos de dois anos mais tarde manifestou-se o caráter internacional dos Soviets, a extensão dessa forma de luta e de organização ao movimento operário mundial, o destino histórico dos Soviets de serem os coveiros, os herdeiros e os sucessores do parlamentarismo burguês, da democracia burguesa em geral.

Mais ainda. A história do movimento operário mostra atualmente que ele está destinado a atravessar em todos os países (e já começou a atravessar) um período de luta do comunismo nascente, cada dia mais forte, que marcha para a vitória, sobretudo e principalmente contra o “menchevismo>> próprio (de cada país), isto é, contra o oportunismo e o social-chovinismo e, de outro lado, como complemento, por assim dizer, contra o comunismo “de esquerda”. A primeira dessas lutas desenvolveu- se em todos os países, ao que parece sem exceções, sob a forma de luta entre a II Internacional (hoje praticamente morta) e a III. A segunda luta manifesta-se na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos (onde pelo menos uma parte dos “Operários Industriais do Mundo” e das tendências anarco-sindicalista s apoiam os erros do comunismo de esquerda, ao mesmo tempo em que reconhecem de maneira quase geral, quase incondicional, o sistema soviético) e na França (atitude de uma parte dos ex-sindicalistas em relação ao partido. político e ao parlamentarismo, também paralelamente ao reconhecimento do sistema dos Soviets), isto é, manifesta-se não só em escala internacional, como universal.

Contudo, embora a escola preparatória que leva o movimento operário à vitória sobre a burguesia seja em toda parte idêntica em sua essência, seu desenvolvimento efetua-se em cada país de modo original. Os grandes países capitalistas adiantados avançam por esse caminho muito mais rapidamente que o bolchevismo, ao qual a história concedeu um prazo de quinze anos para preparar-se como tendência política organizada a fim de conquistar a vitória. No curto prazo de um ano, a III Internacional já alcançou um triunfo decisivo ao desfazer a II Internacional, a Internacional amarela, social-chovinista, que há poucos meses era incomparavelmente mais forte que a III, parecia sólida e poderosa, e dispunha do apoio da burguesia mundial sob todas as formas, diretas e indiretas, materiais (postos ministeriais, passaporte, imprensa) e morais.

O que importa agora é que os comunistas de cada país levem em conta com plena consciência tanto as tarefas fundamentais, de principio, da luta contra o oportunismo e o doutrinarismo “de esquerda”, como as particularidades concretas que esta luta adquire e deve adquirir inevitavelmente em cada país, de acordo com os aspectos originais de sua economia, sua política, sua cultura, sua composição nacional (Irlanda, etc.), suas colônias, diversidade de religiões, etc., etc. Sente-se expandir e crescer em toda parte o descontentamento contra a II Internacional por causa de seu oportunismo e sua inépcia, sua incapacidade para criar um órgão realmente centralizado e dirigente, apto para orientar a tática internacional do proletariado revolucionário em sua luta pela república soviética universal. É preciso compreender perfeitamente que esse centro dirigente não pode, de modo algum, ser formado segundo normas táticas estereotipadas de luta, mecanicamente igualadas, idênticas. Enquanto subsistirem diferenças nacionais e estatais entre os povos e os países e essas diferenças subsistirão inclusive durante muito tempo depois da instauração universal da ditadura do proletariado - a unidade da tática internacional do movimento operário comunista de todos os países exigirá, não a supressão da variedade, não a supressão das particularidades nacionais (o que é, atualmente, um sonho absurdo), mas sim uma tal aplicação dos princípios fundamentais do comunismo (Poder Soviético e ditadura do proletariado) que modifique acertadamente esses princípios em seus detalhes, que os adapte, que os aplique acertadamente às particularidades nacionais e nacional-estatais. Investigar, estudar, descobrir, adivinhar, captar o que há de particular e específico, do ponto de vista nacional, na maneira pela qual cada país aborda concretamente a solução do problema internacional comum, do problema do triunfo sobre o oportunismo e o doutrinarismo de esquerda no movimento operário, a derrubada da burguesia, a instauração da república soviética e da ditadura proletária, é a principal tarefa do período histórico que atualmente atravessam todos os países adiantados (e não só os adiantados). Já se fez o principal - claro que não se fez tudo, absolutamente, mas já se fez o principal - para ganhar a vanguarda da classe operária para colocá-la ao lado do Poder Soviético contra o parlamentarismo, ao lado da ditadura do proletariado contra a democracia burguesa. Agora é preciso concentrar todas as forças e toda a atenção no passo seguinte, que parece ser - e, de certo modo, é realmente - menos fundamental, mas que, em compensação, está mais perto da solução efetiva do problema, isto é: procurar as formas de passar à revolução proletária ou de abordá-la.

A vanguarda proletária está ideologicamente conquistada. Isto é o principal. Sem isto não é possível dar sequer o primeiro passo para a vitória. Mas daí para o triunfo ainda falta uma grande distância a percorrer. Apenas com a vanguarda é impossível triunfar. Lançar a vanguarda sozinha à batalha decisiva, quando toda a classe, quando as grandes massas ainda não adotaram uma posição de apoio direto a essa vanguarda ou, pelo menos, de neutralidade simpática, e não são totalmente incapazes de apoiar o adversário, seria não só uma estupidez, como um crime. E para que realmente toda a classe, para que realmente as grandes massas dos trabalhadores e dos oprimidos pelo capital cheguem a ocupar essa posição, a propaganda e a agitação, por si, são insuficientes. Para isso necessita-se da própria experiência política das massas. Tal é a lei fundamental de todas as grandes revoluções, confirmada hoje com força e realce surpreendentes tanto pela, Rússia como pela Alemanha. Não só as massas incultas, em muitos casos analfabetas, da Rússia, como também as massas da Alemanha, muito cultas, sem nenhum analfabeto, precisaram experimentar em sua própria carne toda a impotência, toda a veleidade, toda a fraqueza, todo o servilismo ante a burguesia, toda a infâmia do governo dos cavalheiros da II Internacional, toda a inelutabilidade da ditadura dos ultra-reacioná rios (Kornilov na Rússia, Kapp & Cia. na Alemanha), única alternativa diante da ditadura do proletariado, para orientar-se decididamente rumo ao comunismo.

A tarefa imediata da vanguarda consciente do movimento operário internacional, isto é, dos partidos, grupos e tendências comunistas, consiste em saber atrair as amplas massas (hoje, em sua maior parte, ainda adormecidas, apáticas, rotineiras, inertes) para essa sua nova posição, ou, melhor dizendo, em saber dirigir não só seu próprio partido, como também essas massas no período de sua aproximação, de seu deslocamento para essa nova posição. Se a primeira tarefa histórica (ganhar para o Poder Soviético e para a ditadura da classe operária a vanguarda consciente do proletariado) não podia ser cumprida sem uma vitória ideológica e política completa sobre o oportunismo e o social-chovinismo, a segunda tarefa, que é agora imediata e que consiste em saber atrair as massas para essa nova posição capaz de assegurar o triunfo da vanguarda na revolução, não pode ser cumprida sem liquidar o doutrinarismo de esquerda, sem corrigir completamente seus erros, sem desembaraçar- se deles.

Enquanto se trata (e na medida em que se trata ainda hoje) de ganhar para o comunismo a vanguarda do proletariado, a propaganda deve) ocupar o primeiro lugar; inclusive os círculos, com todas ás suas debilidades, são úteis neste caso e dão resultados fecundos. Mas quando se trata da ação prática das massas, de movimentar – se me é permitido usar essa expressão – exércitos de milhões de homens, dispor todas as forças da classe de uma determinada sociedade para a luta final e decisiva., não conseguireis nada através, unicamente dos hábitos de propagandista, com a simples repetição das verdades do comunismo “puro”. E é porque nesse caso a conta não é feita aos milhares, como faz o propagandista membro de um grupo reduzido e que ainda não dirige massas, e sim aos milhões e dezenas de milhões. Nesse caso é preciso perguntar a si próprio não só se convencemos a vanguarda da classe revolucionária, como também se estão em movimento as forças historicamente ativas de todas as classes da tal sociedade, obrigatoriamente de todas, sem exceção, de modo que a batalha decisiva esteja completamente amadurecida, de maneira que 1) todas as forças de classe que nos são adversas estejam suficientemente perdidas na confusão, suficientemente lutando entre si, suficientemente debilitadas por uma luta superior a suas forças; 2) que todos os elementos vacilantes, instáveis, inconsistentes, intermediários, isto é, a pequena burguesia, a democracia pequeno-burguesa, que se diferencia da burguesia, estejam suficientemente desmascarados diante do povo, suficientemente cobertos de opróbrio por sua falência prática; 3) que nas massas proletárias comece a aparecer e a expandir-se com poderoso impulso o afã de apoiar as ações revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia. É então que está madura a revolução, que nossa vitória está assegurada, caso tenhamos sabido levar em conta todas as condições levemente esboçadas acima e tenhamos escolhido acertadamente o momento.

As divergências entre os Churchill e os Lloyd George de um lado - tipos políticos que existem em todos os países com peculiaridades nacionais ínfimas - e, de outro, entre os Henderson e os Lloyd George, não têm absolutamente nenhuma importância e são insignificantes do ponto de vista do comunismo puro, isto é, abstrato, ainda incapaz de ações políticas práticas, de massas. Mas, do ponto de vista dessa ação prática das massas, tais divergências têm extraordinária importância. Saber levá-las em conta, saber determinar o momento em que amadureceram plenamente os conflitos inevitáveis entre esses “amigos”, conflitos que debilitam e extenuam todos os “amigos” tomados em conjunto, é o trabalho, a missão do comunista que deseje ser não só um propagandista consciente, convicto e teoricamente preparado, como também um dirigente prático das massas na revolução. É necessário unir a mais absoluta fidelidade às idéias comunistas à arte de admitir todos os compromissos práticos necessários, manobras, acordos, ziguezagues, retiradas, etc., para precipitar a ascensão ao Poder político dos Henderson (dos heróis da II Internacional, para não citar nomes desses representantes da democracia pequeno-burguesa que se chamam de socialistas) e seu malogro no mesmo; para acelerar seu fracasso inevitável na prática, o que educará as massas precisamente em nosso espírito e as orientará precisamente para o comunismo; para acelerar as rusgas, as disputas, os conflitos e a separação total, inevitáveis entre os Henderson, os Lloyd George e os Churchill (entre os mencheviques e os social-revolucioná rios, os democratas constitucionalistas e os monárquicos; entre os Scheidemann, a burguesia, os partidários de Kapp, etc.) e para escolher acertadamente o momento de máxima dissensão entre todos esses “baluartes da sacrossanta propriedade privada”, a fim de esmagá-los por completo, mediante uma resoluta ofensiva do proletariado, e conquistar o Poder político.

A história em geral, e a das revoluções em particular, é sempre mais rica de conteúdo, mais variada de formas e aspectos, mais viva e mais “astuta” do que imaginam os melhores partidos, as vanguardas mais conscientes das classes mais avançadas. E isso é compreensível, pois as melhores vanguardas exprimem a consciência, a vontade, a paixão e a imaginação de dezenas de milhares de homens acicatados pela mais aguda luta de momentos de exaltação e tensão especiais de todas as faculdades humanas, pela consciência, a vontade, a paixão e a imaginação de dezenas de milhões de homens, enquanto que a revolução é feita, em classes. Dai se depreendem duas conclusões práticas muito importantes: 1) a classe revolucionária, para realizar sua missão, deve saber utilizar todas as formas ou aspectos, sem a menor exceção, da atividade social (terminando depois da conquista do Poder político, às vezes com grande risco e imenso perigo, o que não terminou antes dessa conquista); 2) a classe revolucionária deve estar preparada para substituir uma forma por outra do modo mais rápido e inesperado.

Todos hão de convir que seria insensata e até mesmo criminosa a conduta de um exército que não se dispusesse a conhecer e utilizar todos os tipos de armas, todos os meios e processos de luta que o inimigo possui ou pode possuir. Mas essa verdade é ainda mais aplicável à política que à arte militar. Em política é ainda menos fácil saber de antemão que método de luta será aplicável e vantajoso para nós, nessas ou naquelas circunstâncias futuras. Sem dominar todos os meios de luta podemos correr o risco de sofrer uma derrota fragorosa - às vezes decisiva - se modificações, independentes da nossa vontade na situação das outras classes puserem na ordem do dia uma forma de ação na qual somos particularmente débeis. Se dominamos todos os meios de luta, nossa vitória estará garantida, pois representamos os interesses da classe realmente avançada., realmente revolucionária, inclusive se as circunstâncias nos impedirem de utilizar a arma mais perigosa para o inimigo, a arma mais capaz de assestar-lhe golpes mortais com a maior rapidez. Os revolucionários inexperientes imaginam freqüentemente que os meios legais de luta são oportunistas, uma vez que a burguesia enganava e lograva os operários com particular freqüência nesse terreno (sobretudo nos períodos chamados “pacíficos”, nos períodos não revolucionários) , e que os processos ilegais são revolucionários. Mas isso não é justo. O justo é que os oportunistas e traidores da classe operária são os partidos e chefes que não sabem ou não querem (não digam: não posso, mas sim: não quero) aplicar os processos ilegais de luta numa situação, por exemplo, como a guerra imperialista de 1914,/1918, em que a burguesia dos países democráticos mais livres enganava os operários com insolência e crueldade nunca vistas, proibindo que se dissesse a verdade sobre o caráter de rapina da guerra. Mas os revolucionários que não sabem combinar as formas ilegais de luta com todas as formas legais são péssimos revolucionários. Não é difícil ser revolucionário quando a revolução já estourou e está em seu apogeu, quando todos aderem à revolução simplesmente por entusiasmo, modismo e inclusive, às vezes, por interesse pessoal de fazer carreira. Custa muito ao proletariado, causa-lhe duras penas, origina-lhe verdadeiros tormentos “desfazer-se” depois do triunfo desses “revolucionários” . É muitíssimo mais difícil - e muitíssimo mais meritório - saber ser revolucionário quando ainda não existem as condições para a luta direta, aberta, autenticamente de massas, autenticamente revolucionária, saber defender os interesses da revolução (através da propaganda, da agitação e da organização) em instituições não revolucionárias e, muitas vezes, simplesmente reacionárias, numa situação não revolucionária, entre massas incapazes de compreender imediatamente a necessidade de um método revolucionário de ação, Saber perceber, encontrar, determinar com exatidão o rumo concreto ou a modificação particular dos acontecimentos suscetíveis de levar as massas à grande luta revolucionária, verdadeira, final e decisiva é a principal missão do comunismo contemporâneo na Europa Ocidental e na América.

Um exemplo: Inglaterra. Não podemos saber e ninguém pode determinar de antemão - quando eclodirá ali a verdadeira revolução proletária e qual será o motivo principal que despertará, inflamará e lançará à luta as grandes massas, hoje ainda adormecidas. Temos o dever, por conseguinte, de realizar todo nosso trabalho preparatório tendo as quatro patas aferradas ao solo (segundo a expressão predileta do falecido Plekhanov quando era marxista e revolucionário) . Talvez seja uma crise parlamentar que “abra o caminho”, que “rompa o gelo”, talvez uma crise que derive das contradições coloniais e imperialistas irremediavelmente complicadas, cada vez mais graves e exacerbadas, ou talvez outras causas. Não falamos da espécie de luta que decidirá a sorte da revolução proletária na Inglaterra (essa questão não permite nenhuma dúvida para nenhum comunista, pois para todos nós está firmemente decidida), mais sim do motivo que despertará as massas proletárias hoje ainda adormecidas, que as colocará em movimento e as levará à revolução. Não esqueçamos, por exemplo, que na república burguesa da França, numa situação que era cem vezes menos revolucionária que a atual, tanto internacional como internamente, bastou uma circunstância tão “inesperada” e “fútil” como o caso Dreyfus - uma das mil façanhas desonestas do bando militarista reacionário para levar o povo às bordas da guerra civil.

Na Inglaterra, os comunistas devem utilizar constantemente, sem descanso nem vacilação, as eleições parlamentares, todas as peripécias da política irlandesa, colonial e imperialista do governo britânico no mundo inteiro e todos os demais campos, esferas e aspectos da vida social, atuando neles com espírito, novo, com o espírito do comunismo, com o espírito da III e não da II Internacional. Não disponho de tempo nem espaço para descrever aqui os processos “russos”, “bolcheviques” , de participação nas eleições e na luta parlamentar; mas posso assegurar aos comunistas dos demais países que em nada se pareciam com as habituais campanhas parlamentares na Europa Ocidental. Desse fato tira-se freqüentemente a

seguinte conclusão : “Isso é assim no vosso país, na Rússia, mas o nosso parlamentarismo é diferente”. A conclusão é falsa. Os comunistas, os partidários da III Internacional existem em todos os países exatamente para transformar em toda linha, em todos os aspectos da vida, o antigo trabalho socialista, tradeunionista, sindicalista e parlamentar num trabalho novo, comunista. Em nossas eleições também vimos, à vontade, traços puramente burgueses, traços de oportunismo, praticismo vulgar, fraude capitalista. Os comunistas da Europa Ocidental e da América devem aprender a criar um parlamentarismo novo, incomum, não oportunista, sem arrivismo. É necessário que o Partido Comunista lance suas palavras de ordem; que os verdadeiros proletários, com a ajuda da gente pobre, inorganizada e completamente oprimida, repartam entre si e distribuam volantes, percorram as casas dos operários, as palhoças dos proletários do campo e dos camponeses que vivem nas aldeias longínquas (que, felizmente, existem em número muito menor na Europa que na Rússia, e são raras na Inglaterra), entrem nas tabernas freqüentadas pelas pessoas mais simples, introduzam-se nas associações, sociedades e reuniões fortuitas das pessoas pobres; que falem ao povo não de forma doutoral (e não muito à parlamentar) , não corram, por nada neste mundo, atrás de um “lugarzinho” no parlamento, mas despertem em toda parte o pensamento, arrastem a massa, tomem a palavra da burguesia, utilizem o aparelho por ela criado, as eleições por ela convocadas, seus apelos a todo o povo e tornem conhecido deste último o bolchevismo, como nunca antes haviam tido oportunidade de fazê-lo (sob o domínio burguês) fora do período eleitoral (sem contar, naturalmente, os momentos de grandes greves, quando esse mesmo aparelho de agitação popular funcionava em nosso país com maior intensidade ainda). Fazer isso na Europa Ocidental e na América é muito difícil, dificílimo; mas pode e deve ser feito, pois é totalmente impossível cumprir as tarefas do comunismo sem trabalhar, e é preciso esforçar-se para resolver os problemas práticos, cada vez mais variados, cada vez mais ligados a todos os aspectos da vida social e que vão arrebatando cada vez mais à burguesia, um após outro, um setor, uma esfera de atividade.

Nessa mesma Inglaterra é necessário também organizar de modo novo (não de modo socialista, mas comunista; não de modo reformista, mas revolucionário) o trabalho de propaganda, de agitação e de organização no exército e entre as nações oprimidas e que não gozam de plenos direitos que formam “seu” Estado (Irlanda, as colônias). Pois todos esses setores da vida social, na época do imperialismo em geral e sobretudo agora, depois da guerra, que atormentou os povos e que lhes abriu rapidamente os olhos à verdade (a verdade de dezenas de milhões de homens terem morrido ou terem ficado mutilados exclusivamente para decidir se seriam os bandidos ingleses ou os bandidos alemães que saqueariam maior número de países), todos esses setores da vida social saturam-se particularmente de matérias inflamáveis e dão origem a multas causas de conflitos e de crises e à exacerbação da luta de classes. Não sabemos nem podemos saber qual das centelhas que surgem agora em grande número por toda parte em todos os países, sob a influência da crise econômica e política mundial, poderá causar o incêndio, isto é, despertar de modo especial as massas. Por isso, com nossos princípios novos, comunistas, devemos empreender a “preparação”, de todos os campos, qualquer que seja a sua natureza, até dos mais velhos, vetustos e, aparentemente, mais estéreis, porque em caso contrário não estaremos à altura de nossa missão, faltar-nos-á alguma coisa, não dominaremos todos os tipos de armas, não nos prepararemos nem para vitória sobre a burguesia (que organizou a vida social em todos os seus aspectos à moda burguesa e que agora a desorganizou também à moda burguesa) nem para a reorganização comunista de toda a vida, tarefa que deveremos cumprir uma vez conquistada a vitória.

Depois da revolução proletária na Rússia e de suas vitórias em escala internacional, inesperadas para a burguesia e os filisteus, o mundo inteiro se transformou e a burguesia também é outra em toda parte. A burguesia sente-se assustada com o “bolchevismo” e está irritada contra ele a ponto de quase perder a cabeça; precisamente por isso, acelera, de um lado, o desenvolvimento dos acontecimentos e, de outro, concentra a atenção no esmagamento do bolchevismo pela força, debilitando com isso sua posição em muitos outros terrenos. Os comunistas de todos os países avançados devem levar em conta para a sua tática essas duas circunstâncias.

Os democratas constitucionalistas russos e Kerenski passaram dos limites quando empreenderam uma furiosa perseguição contra os bolcheviques, sobretudo desde abril de 1917 e, mais ainda, em junho e julho desse mesmo ano. Os milhões de exemplares dos jornais burgueses, que gritavam em todos os tons contra os bolcheviques, ajudaram a conseguir que as massas valorizassem o bolchevismo, e toda a vida social, mesmo sem o concurso da imprensa, impregnou-se de discussões sobre o bolchevismo, graças ao “zelo” da burguesia. Os milionários de todos os países conduzem-se atualmente de tal modo em escala internacional que lhes devemos ficar agradecidos de todo o coração. Perseguem o bolchevismo com o mesmo zelo com que o perseguiam anteriormente Kerenski e companhia e, como estes, também passam dos limites e nos ajudam tanto quanto Kerenski. Quando a burguesia francesa converte o bolchevismo no ponto central de sua campanha eleitoral, injuriando por seu bolchevismo socialistas relativamente moderados ou vacilantes; quando a burguesia norte-americana, perdendo completamente a cabeça, prende milhares e milhares de indivíduos suspeitos de bolcheviques e cria um ambiente de pânico propagando em toda parte a notícia de conjurações bolcheviques; quando a burguesia inglesa, a mais “Séria” do mundo, com todo seu talento e experiência comete inacreditáveis tolices, funda riquíssimas “sociedades para a luta contra o bolchevismo”, cria uma literatura especial a seu respeito e toma a seu serviço, para a luta contra ele, um pessoal suplementar de sábios, agitadores e padres, devemos inclinar-nos e agradecer aos senhores capitalistas. Trabalham para nós, ajudam-nos a interessar as massas pela natureza e a significação do bolchevismo. E não podem fazer de outro modo, porque já fracassaram em suas tentativas de “fazer silêncio>> em torno do bolchevismo e sufocá-lo.

Mas, ao mesmo tempo, a burguesia vê no bolchevismo quase que exclusivamente um dos seus aspectos: a insurreição, a violência, o terror; por isso procura preparar-se de modo particular para opor resistência e responder nesse terreno. É possível que em casos isolados, em alguns países, nesses ou naqueles períodos breves, o consiga; é preciso contar com essa possibilidade, que nada tem de temível para nós. O comunismo “brota” literalmente de todos os aspectos da vida social, seus gemes existem absolutamente em toda parte, o “contágio” (para empregar a comparação predileta da burguesia e da polícia burguesa e a mais “agradável” para elas) penetrou profundamente em todos os poros do organismo e o impregnou completamente. Caso se “feche”, com particular cuidado uma das saídas, o “contágio” encontrará outra, às vezes a mais inesperada. A vida triunfa acima de todas as coisas. Que a burguesia se sobressalte, irrite-se até perder a cabeça; que ultrapasse os limites, faça tolices, vingue-se por antecipação dos bolcheviques e se esforce por aniquilar (na Índia, Hungria, Alemanha, etc.) centenas, milhares, centenas de milhares de bolcheviques de ontem ou de amanhã; ao fazer isso, procede como procederam todas as classes condenadas pela história a desaparecer. Os comunistas devem saber quê, seja como for, o futuro lhes pertence. E, por isso, podemos (e devemos) unir, na grande luta revolucionária, o máximo de paixão à análise mais fria e serena das furiosas convulsões da burguesia. A revolução russa foi cruelmente esmagada em 1905; os bolcheviques russos foram derrotados em julho de 1917; mais de 15.000 comunistas alemães foram aniquilados por meio da ardilosa provocação e das hábeis manobras de Scheidemann e Noske, aliados à burguesia e aos generais monárquicos; na Pínlândia e na Hungria o terror branco faz estragos. Em todos os casos e em todos os países, porém, o comunista está se temperando e cresce; suas raízes são tão profundas que as perseguições não o debilitam, não o extenuam, mas, pelo contrário, reforçam-no. Só falta uma coisa para que marchemos rumo à vitória com mais firmeza e segurança; que os comunistas de todos os países compreendamos em toda parte e até o fim que em nossa tática é necessária a máxima noxibilidade. O que falta atualmente ao comunismo, que cresce magnificamente, sobretudo nos países adiantados, é essa consciência e o acerto para aplicá-la na prática.

Poderia (e deveria) ser uma lição útil o que ocorreu com os chefes da II Internacional, tão eruditos e tão fiéis ao socialismo como Kautski, Otto Bauer e outros. Compreendiam perfeitamente a necessidade de uma tática flexível, haviam aprendido e ensinavam aos demais a dialética de Marx (e muito do que foi feito por eles nesse terreno será sempre considerado como uma valiosa aquisição da literatura socialista); mas ao aplicar essa dialética incorreram num erro de tal natureza ou se mostraram na prática tão afastados da dialética, tão incapazes de levar em conta as rápidas modificações de forma e o rápido aparecimento de um conteúdo novo nas formas antigas, que sua sorte não é mais invejável que a de Hyndman, Guesde e Plekhanov. A causa fundamental de seu fracasso consiste em que “fixaram sua atenção” numa determinada forma de crescimento do movimento operário e do socialismo, esquecendo o caráter unilateral dessa fixação; tiveram medo de ver a brusca ruptura, inevitável em virtude das circunstâncias objetivas, e continuaram repetindo as verdades simples memorizadas e à primeira vista indiscutíveis: três é maior do que dois. Mas a política se parece mais com a álgebra que com a aritmética e mais ainda com as matemáticas superiores que com as matemáticas elementares. Na realidade, todas as formas antigas do movimento socialista adquiriram um novo conteúdo, razão pela qual surgiu diante das cifras um sinal novo, o sinal “menos”, enquanto nossos sábios continuavam (e continuam) tratando teimosamente de persuadir-se e de persuadir todo mundo de que “menos três” é maior que “menos dois”.

É preciso fazer com que os comunistas não repitam, só que em sentido contrário, esse mesmo erro, ou melhor, que esse mesmo erro, cometido, só que em sentido contrário, pelos comunistas “de esquerda>, seja corrigido o mais cedo possível e curado rapidamente e com o menor sofrimento para o organismo. Não só o doutrinarismo de direita constitui um erro; o de esquerda também. Naturalmente, o erro do doutrinarismo de esquerda no comunismo é hoje em dia muito menos perigoso e grave que o de direita (isto é, do social-chovinismo e do kautskismo); mas isso é devido apenas a que o comunismo de esquerda é uma tendência novíssima, que acaba de nascer. Só por isso, a doença pode ser, em certas condições, curada facilmente e é necessário empreender seu tratamento com a máxima energia.

As formas antigas romperam-se, pois aconteceu de seu novo conteúdo - antiproletário, reacionário - adquirir um desenvolvimento desmedido. Do ponto de vista do desenvolvimento do comunismo internacional possuímos hoje um conteúdo tão sólido, tão forte e tão poderoso de nossa atividade (em prol do Poder dos Soviets, em prol da ditadura do proletariado) que pode e deve manifestar-se sob qualquer forma, tanto antiga como nova; que pode e deve transformar, vencer, submeter todas as formas, não só novas como também antigas, não para conciliar-se com estas, mas para saber convertê-las todas, as novas e as velhas, numa arma da vitória completa e definitiva, decisiva e irremissível do comunismo.

Os comunistas devem consagrar todos os seus esforços para orientar o movimento operária e o desenvolvimento social em geral no sentido do caminho mais reto e rápido para a vitória mundial do Poder Soviético e da ditadura do proletariado. Trata-se de uma verdade indiscutível. Mas basta dar um pequeno passo além - ainda que pareça um passo dado na mesma direção - para que essa verdade se transforme em erro. Basta dizer, como dizem os comunistas de esquerda alemães e ingleses, que não aceitamos senão um caminho, o caminho reto, que não admitimos manobras, acordos e compromissos, para que isso se torne um erro que pode causar, e em parte já causou e continua causando, os mais sérios prejuízos ao comunismo. O doutrinarismo de direita obstinou-se em não admitir senão as formas antigas e fracassou do modo mais completo por não ter percebido o novo conteúdo. O doutrinarismo de esquerda obstina-se em repelir incondicionalmente certas formas antigas, sem ver que o novo conteúdo abre seu caminho através de todas as espécies de formas e que nosso dever de comunistas consiste em dominá-las todas, em aprender a completar umas com as outras e a substituir umas por outras com a máxima rapidez, em adaptar a nossa tática a qualquer modificação dessa natureza, causada por uma classe que não seja a nossa ou por esforços que não sejam os nossos.

A revolução universal, que recebeu um impulso tão poderoso e foi acelerada com tanta intensidade pelos horrores, vilezas e abominações da guerra imperialista mundial e pela situação sem saída que esta originou, essa revolução estende-se e aprofunda-se com rapidez tão extraordinária, riqueza tão magnífica de formas sucessivas, com uma refutação prática tão edificante de todo doutrinarismo, que existem todos os motivos para acreditar que o movimento comunista internacional se curará rapidamente e por completo da doença infantil do comunismo “de esquerda”.

27 de abril de 1920.

Apêndice

Enquanto as editoras de nosso país - que foi saqueado pelos imperialistas de todo o mundo em vingança pela vitória da revolução proletária e que continua sendo saqueado e bloqueado, apesar de todas as promessas feitas aos operários desses países imperialistas - organizavam a publicação do meu folheto, recebemos do estrangeiro dados complementares. Sem aspirar, absolutamente, a que meu folheto seja algo mais que breves notas de um publicista, abordarei ligeiramente alguns pontos.

I

Cisão dos comunistas alemães

A cisão dos comunistas na Alemanha é um fato. Os “esquerdistas” ou “oposição de princípio” construiriam um “Partido Comunista Operário”, à parte, em contraposição ao “Partido Comunista”. Na Itália, pelo visto, as coisas também marcham para a cisão. Digo “pelo visto” porque disponho apenas de dois novos números, o 7 e o 8, do jornal esquerdista II Soviet, onde se discute abertamente a possibilidade e a necessidade da cisão, além de falar-se também de um congresso da fração dos “abstencionistas” (ou boicotadores, isto é, dos inimigos da participação no parlamento) que até agora pertence ao Partido Socialista Italiano.

Há receio de que a cisão dos “esquerdistas” , antiparlamentarista s (e em parte também antipolíticos, inimigos do partido político e do trabalho nos sindicatos), converta-se num fenômeno internacional, como a cisão dos “centristas” (ou kautskistas, longuetistas, “independentes” , etc.). Assim seja. Afinal de contas, a cisão é melhor que a confusão, que impede o desenvolvimento ideológico, teórico e revolucionário do Partido e seu amadurecimento, assim como seu trabalho prático unitário, verdadeiramente organizado, que realmente prepare a ditadura do proletariado. ,

Que os “esquerdistas” provem o acerto de sua linha na prática, em âmbito nacional e internacional, que tentem preparar (e depois realizar) a ditadura do proletariado sem um partido rigorosamente centralizado, dotado de uma disciplina férrea, sem saber dominar todas as esferas, ramos e variedades do trabalho político e cultural. A experiência prática os ensinará com rapidez.

É preciso fazer todos os esforços necessários para que a cisão dos “esquerdistas” não dificulte, ou dificulte o mínimo possível, a fusão num só partido, necessária e inevitável num futuro próximo, de todos os participantes do movimento operário que defendem sincera e honradamente o Poder Soviético e a ditadura do proletariado. Para os bolcheviques da Rússia foi uma felicidade singular disporem de 15 anos para lutar de modo sistemático e até o fim tanto contra os mencheviques (isto é, os oportunistas e os “centristas”) como contra os “esquerdistas” muito antes da luta direta das massas pela ditadura do proletariado. Esse mesmo trabalho tem que ser feito agora na Europa e na América em ritmo de “marcha forçada”. Algumas pessoas, sobretudo as que figuram entre os frustrados candidatos a chefe, podem insistir durante muito tempo em seus erros (se lhes, faltam disciplina proletária e “honradez consigo mesmo”); mas as massas operárias, quando chegar a hora, unir-se-ão fácil e rapidamente e unirão todos os comunistas sinceros num só partido, capaz de instaurar o regime soviético e a ditadura do proletariado* .

* No que concerne à futura fusão dos comunistas de "esquerda”, dos antiparlamentarista s, com os comunistas em geral acrescentarei o seguinte: na medida em que pude conhecer os jornais dos comunistas "de esquerda" e dos comunistas em geral da Alemanha, os primeiros levam a vantagem de saber efetuar melhor a agitação entre as massas. Algo semelhante observei várias vezes - ainda que em menores proporções e em organizações locais isoladas, e não em todo o pais - na história do Partido Bolchevique. Em 1907-1908, por exemplo, os bolcheviques "de esquerda" realizavam às vezes e em alguns lugares seu trabalho de agitação entre as massas com maior êxito que nós. Isso se explica, em parte, por ser mais fácil aproximar-se das massas com a tática da negação "pura e simples" numa situação revolucionária, ou quando ainda estão bem vivas as lembranças da revolução. Isso, contudo, não chega a ser um argumento em favor de semelhante tática. Em todo caso, não há a menor dúvida de que um Partido Comunista que queira ser realmente a vanguarda, o destacamento avançado da classe revolucionária, do proletariado, e que deseje, além disso aprender a dirigir a grande massa não só proletária, como também não proletária, a massa trabalhadora e explorada, tem obrigação de saber fazer propaganda, organizar e agitar da maneira mais acessível, compreensível, clara e viva tanto na "praça" urbana, abril, como nas aldeias. (Nota do autor)

II

Os comunistas e os independentes na Alemanha

No folheto expressei a opinião de que o compromisso entre os comunistas e a ala esquerda dos independentes é necessário e útil para o comunismo, mas que não é fácil realizá-lo. Os exemplares dos jornais que recebi depois confirmam ambas as coisas. No n.º. 32 de Bandeira Vermelha, órgão do C.C. do Partido Comunista da Alemanha (Die Rote Fahne, Zentralorgan der Kommun. Partei Deutschlands, Spartacusbund - União de Espartaco - de 26 de março de 1920), foi publicada uma “declaração” do referido C.C. sobre o “putch” (complô, golpe) de Kapp-Lüttwitz19 e sobre o “governo socialista”. Essa declaração é absolutamente justa tanto na premissa fundamental quanto na conclusão prática. A premissa fundamental consiste em que, atualmente, não há “base objetiva” para a ditadura do proletariado, porquanto a “maioria dos operários urbanos” apóia os independentes. Conclusão: promessa de “oposição leal” ao governo “socialista (isto é, renúncia de preparar sua “derrubada através da violência”) excluindo-se os partidos burgueses-capitalis tas”.

A tática, sem dúvida alguma, é justa no fundamental. Mas, se não é necessário que nos detenhamos em pequenas inexatidões de fórmula, é impossível, por outro lado, deixar de assinalar que não se pode chamar de “socialista” (numa declaração oficial do Partido Comunista) um governo de social-traidores; que não se pode falar de exclusão “dos partidos burgueses-capitalis tas”, quando os partidos dos Scheidemann e dos senhores Kautski-Críspien são pequeno-burgueses- democráticos; que não se pode escrever coisas como o parágrafo 4 da declaração, que diz:

"... Para continuar ganhando as massas proletárias para o comunismo tem enorme importância, quanto ao desenvolvimento da ditadura do proletariado, uma situação em que a liberdade política possa ser utilizada de modo ilimitado e a democracia burguesa não possa atuar como ditadura do capital..."

Tal situação é impossível. Os chefes pequeno-burgueses, os Henderson (Scheidemann) o os Snowden (Críspien) alemães não vão além, nem podem ir, dos limites da democracia burguesa, que, por sua vez, não pode deixar de ser a ditadura do capital. Do ponto de vista dos resultados práticos propostos com absoluta clareza pelo C.C. do Partido Comunista, essas coisas de modo algum deveriam ter sido escritas, erradas por principio e prejudiciais politicamente. Teria sido suficiente dizer (caso se quer dar demonstrações de cortesia parlamentar) : enquanto a maioria dos operários urbanos seguir os independentes, nós, os comunistas, não podemos impedir que esses operários se libertem de suas últimas ilusões democrático-pequeno- burguesas (ou seja, também “burguesas-capitalis tas”) com a experiência de “seu” governo. Isso basta para justificar o compromisso, que é realmente necessário e que deve consistir em renunciar durante certo tempo às tentativas de derrubada pela força de um governo que conta com a confiança da maioria dos operários urbanos. No que concerne à agitação diária entre as massas, que dispensa a cortesia oficial, parlamentar, poder-se-ia, naturalmente, acrescentar: deixemos que miseráveis como os Scheidemann e filisteus como os Kautski-Crispien demonstrem com seus atos até que ponto enganam os operários e a si próprios; seu governo “puro” realizará com “mais pureza que ninguém” o trabalho de “limpar” as cavalariças dos Augias do socialismo, do social-democratismo . e demais variações da social-traiçào.

A verdadeira natureza dos atuais chefes do “Partido Social-democrata Independente da Alemanha” (desses chefes de quem se diz, fugindo à verdade, que já perderam toda a influência e que, na realidade, ainda são mais perigosos para o proletariado que os social-democratas húngaros, que se denominavam comunistas e prometiam “apoiar” a ditadura do proletariado) manifestou-se mais de uma vez durante a korniloviada alemã, isto é durante o “putch” dos senhores Kapp e Lüttwitz*. Exemplo disto, pequeno mas eloqüente, nos é dado pelos artigos de Karl Kautski - Os minutos decisivos (Entscheidende Stunden), publicado em Freiheit (A Liberdade, órgão dos independentes) aos 30 de março de 1920 - e de Arthur Crispien - Sobre a situação política, no mesmo jornal, n.º. 14 de abril de 1920. Estes senhores carecem totalmente da capacidade de pensar e .raciocinar como revolucionários. São uns choramingas democratas pequeno-burgueses, mil vezes mais, perigosos para o proletariado declarando-se partidários do Poder Soviético e da ditadura do proletariado, pois, de fato, cometerão inevitavelmente uma traição em cada momento difícil e perigoso... “sinceramente” , convencidos de que ajudam o proletariado! Também os social-democratas húngaros, que se batizaram de comunistas, queriam “ajudar” o proletariado quando, por covardia e baixeza, consideraram desesperada a situação do Poder Soviético na Hungria e se lamuriaram diante dos agentes dos capitalistas da Entente e seus verdugos.

* Isso foi explicado, diga-se de passagem, com extraordinária clareza, concreção e exatidão, à maneira marxista, pelo excelente órgão do Partido Comunista Austríaco Bandeira Vermelha em seus n.ºs de 28 e 30 de março de 1920 (Die Rote Fahne, Wien 1920, n.ºs 226 und 267; L. L.: Ein neuer Abschnitt der deutschen Revolution). (L.L.: Uma nova etapa da revolução alemã). (Nota da Redação)

III

Turati e companhia na Itália

Os números do jornal italiano II Soviet a que me referi confirmam tudo que eu disse no folheto a respeito do erro do Partido Socialista Italiano, que tolera em suas fileiras membros desse tipo e, inclusive, um grupo de parlamentares dessa espécie. Mais ainda o confirma uma testemunha desinteressada, o correspondente em Roma do jornal liberal burguês The Manchester Guardian (Inglaterra) , que no número de 12 de março de 1920 publicou uma entrevista sua com Turati.

"0 Sr. Turati - diz o correspondente – é de opinião que o perigo revolucionário não é tão grande que possa suscitar temores na Itália. Os maximalistas jogam com o fogo das teorias soviéticas exclusivamente para manter as massas em estado de tensão e excitação. Essas teorias são, contudo, noções puramente fantasistas, programas imaturos, que não servem para ser usados na prática. Servem apenas para manter as classes trabalhadoras em estado de expectativa. Essa gente que as emprega como isca para deslumbrar os proletários, vê-se obrigada a enfrentar uma luta cotidiana para conquistar algumas melhorias econômicas, muitas vezes insignificantes, a fim de adiar o momento em que as classes trabalhadoras irão perder as ilusões e a fé em seus mitos queridos. Dai esse grande surto de greves de todas as grandezas e a qualquer pretexto, inclusive as últimas nos Correios e nas ferrovias, que tornam ainda mais grave a situação, já difícil em si. O país está excitado pelas dificuldades provenientes de seu problema adriático, sente-se esmagado por sua dívida externa e por sua desmedida emissão de papel-moeda, e, contudo, ainda está muito longe de compreender a necessidade de assimilar a disciplina no trabalho, único fator capaz de restabelecer a ordem e a prosperidade. . - "

Está claro como a luz do dia que o correspondente inglês deu liberdade à sua pena e disse uma verdade que, provavelmente, o próprio Turati. E seus defensores, cúmplices e inspiradores burgueses na Itália ocultam e procuram embelezar. Essa verdade consiste em que as idéias e o trabalho político dos senhores Turatí, Treves, Modigliani, Dugoni e Cia. são exatamente como o correspondente inglês esboça.. Isso é uma autêntica social-traição. Como é significativa a simples defesa da ordem e da disciplina para os operários que vivem na escravidão assalariada, que trabalham para o enriquecimento dos capitalistas ! Como são bem conhecidos por nós, russos, todos esses discursos mencheviques ! Como é valiosa a confissão de que as massas estão a favor do Poder Soviético ! Como é estúpida e vulgarmente burguesa a sua incompreensão do papel revolucionário das greves que crescem espontaneamente ! Sim, sem dúvida, o correspondente inglês do jornal liberal burguês prestou um mal serviço aos senhores, Turati & Cia. e confirmou de modo excelente o quanto são justas as exigências do camarada Bordiga e seus amigos do I1 Soviet, que reclamam do Partido Socialista Italiano, se este quer realmente estar a favor da III Internacional, a expulsão de suas fileiras, cobrindo-os de opróbrio, dos senhores Turati & Cia. e sua transformação num Partido Comunista autêntico, tanto por seu nome quanto por seus atos.

IV

Conclusões erradas de premissas justas

De sua justa crítica aos senhores Turati & Cia., porém, o camarada Bordiga e seus amigos “esquerdistas” tiram a conclusão falsa de que é prejudicial em geral participar do parlamento. Os “esquerdistas” , não podem, nem de longe, apresentar argumentos sérios em defesa dessa opinião. Simplesmente desconhecem (ou tratam de esquecer) os exemplos internacionais de utilização verdadeiramente revolucionária e comunista dos parlamentos burgueses, indiscutivelmente proveitosa para preparar a revolução proletária. Simplesmente não imaginam uma forma “nova” de utilização do parlamentarismo e esbravejam, repetindo-se até o infinito, contra a utilização “antiga”, não bolchevique.

Nisso, precisamente, reside seu erro básico. Não só no terreno do parlamentarismo, mas em todos os terrenos da atividade humana,. o comunismo deve apresentar (e não, poderá fazê-lo sem um trabalho prolongado, persistente e tenaz) algum princípio novo, que rompa de modo radical com as tradições da II Internacional (conservando e desenvolvendo ao mesmo tempo tudo que esta apresentou de bom).

Tomemos, por exemplo, o trabalho de imprensa. Os jornais, folhetos e manifestos. cumprem uma função necessária de propaganda, agitação e organização. Não pode haver um movimento de massas em nenhum país, por menos civilizado. que ele seja, sem um aparelho de imprensa. E nem os gritos contra os “chefes”, assim como os juramentos de resguardar a pureza das massas. contra a influência dos chefes, podem eliminar a necessidade de utilizar-se nesse trabalho pessoas procedentes dos meios intelectuais burgueses, ou podem livrar-nos da atmosfera e do ambiente democrático-burguese s, “de propriedade privada”, em que se realiza esse trabalho sob o regime capitalista. Passados já dois anos e meio depois da derrubada da burguesia e da conquista do Poder político pelo proletariado ainda sentimos em torno de nós essa atmosfera, esse ambiente de relação de propriedade privada, democrático-burguesa s, de massas (camponesas, artesãs).

0 parlamentarismo é uma forma de trabalho; o jornalismo é outra. O conteúdo pode ser comunista em ambas, e deve sê-lo, se os que trabalham num e noutro setor são verdadeiros comunistas, verdadeiros membros do partido proletário, de massas. Mas, tanto numa como noutra - e em qualquer esfera de trabalho no capitalismo e no período de transição do capitalismo para o socialismo - é impossível evitar as dificuldades e as tarefas originais que o proletariado deve vencer e resolver para utilizar em seu benefício pessoas que procedem de meios burgueses, para alcançar a vitória sobre os preconceitos e a influência dos intelectuais burgueses, para debilitar a resistência do ambiente pequeno-burguê s (e, posteriormente, para transformá-lo por completo).

Não vimos, por acaso, em todos os países, até a guerra de 1914-1918, uma extraordinária abundância de exemplos de anarquistas, sindicalistas e demais elementos muito “esquerdistas” que fulminavam o parlamentarismo, que zombavam dos parlamentares socialistas eivados de vulgaridade burguesa, fustigavam seu arrivismo, etc., etc.,. e faziam a mesma carreira burguesa através do jornalismo, através do trabalho nos sindicatos? Acaso não são típicos os exemplos dos senhores Jouhaux e Merrheim, para só falarmos na França ?

A infantilidade de “negar” a participação no parlamentarismo consiste, exatamente, em que com esse método tão “simples”, “fácil” e pseudo-revolucioná rio querem “resolver” a difícil tarefa de lutar contra as influências democrático-burguesa s no seio do movimento operário e, na realidade, a única coisa que fazem é fugir de sua própria sombra, fechar os olhos diante das dificuldades e desembaraçar- se delas apenas com palavras. Não há dúvida de que o arrivismo mais desavergonhado, a utilização burguesa dos postos no parlamento, a gritante deformação reformista da ação parlamentar e a vulgar rotina pequeno-burguesa são traços peculiares, habituais e predominantes, engendrados pelo capitalismo em toda parte, e não só fora como também dentro do movimento operário. Mas o capitalismo e o ambiente burguês por ele criado (e que mesmo depois da derrubada da burguesia só desaparece muito lentamente, porquanto o campesinato faz a burguesia renascer incessantemente) engendram inevitavelmente em todas as esferas do trabalho e da vida, no fundo, o mesmo arrivismo burguês, o mesmo chovinismo nacional, a mesma vulgaridade pequeno-burgues, etc., com insignificantes variações de forma.

Imaginais ser, caros boicotadores e antiparlamentarista s, “terrivelmente revolucionários” , mas, na realidade, vos assustastes diante das dificuldades relativamente pequenas da luta contra a influências burguesas no movimento operário; no entanto, a vossa vitória, isto é, a derrubada da burguesia e a conquista do Poder político pelo proletariado criará essas mesmas dificuldades em proporções maiores, incomensuravelmente maiores. Vós vos assustastes como crianças com a pequena dificuldade que amanhã e depois de amanhã tereis, de qualquer maneira, de aprender, e aprender completamente, a vencer as mesmas dificuldades, em proporções imensamente mais consideráveis.

Sob o Poder Soviético, tratarão de penetrar ainda mais no vosso – e no nosso – partido proletário elementos procedentes da intelectualidade burguesa. Penetrarão também nos Soviets, nos tribunais e no aparelho administrativo, pois é impossível construir o comunismo com outra coisa que não seja o material humano prolongada, nas bases da ditadura do proletariado, os próprios proletários, que não se libertam de seus preconceitos pequeno-burgueses de repente, por milagre, por obra e graça do espírito santo, ou pelo efeito mágico de uma palavra de ordem, de uma resolução ou um decreto, mais sim exclusivamente através de uma luta de massas longa e difícil contra a influência das idéias pequeno-burguesas entre as massas. Sob o Poder Soviético, essas mesmas tarefas que o antiparlamentarista afasta agora com um gesto cheio de orgulho, altivez, leviandade e infantilidade, essas mesmas tarefas ressurgirão dentro dos Soviets, dentro da administração soviética, entre os “procuradores” soviéticos (eliminamos na Rússia, e fizemos bem em eliminar, a advocacia burguesa, e entretanto ela renasce entre nós sob o disfarce dos “procuradores”20 "soviéticos”). Entre os engenheiros soviéticos, os advogados soviéticos e os operários privilegiados (isto é, os de mais alta qualificação e melhor colocados) nas fábricas soviéticas vemos renascer de modo constante absolutamente todos os aspectos negativos próprios do parlamentarismo burguês, e só através de uma luta renovada, incansável, longa e tenaz do espírito de organização e disciplina proletárias vamos vencendo - a pouco e pouco - este mal.

É claro que sob o domínio da burguesia é muito “difícil” vencer os costumes burgueses no próprio partido, isto é, no partido operário: é “difícil” expulsar do partido os chefes parlamentaristas acostumados com os preconceitos burgueses e por eles irremediavelmente corrompidos; é “difícil” submeter à disciplina proletária o número absolutamente necessário (mesmo que numa quantidade bem limitada) de pessoas que procedem da burguesia; é “difícil” criar no parlamento burguês uma fração comunista plenamente digna da classe operária; é “difícil” conseguir que os parlamentares comunistas não se deixem levar pelas frivolidades parlamentaristas dos burgueses, e que se entreguem ao mais que essencial trabalho de propaganda, agitação e organização das massas. Não há dúvida de que tudo isso é “difícil; foi difícil na Rússia e é incomparavelmente mais difícil na Europa Ocidental e na América, onde a burguesia, as tradições democrático-burguesa s, etc., são muito mais fortes.

Mas todas essas “dificuldades” são, na verdade, pueris se as compararmos com as tarefas exatamente da mesma espécie que o proletariado terá de resolver inevitavelmente para triunfar, durante a revolução proletária e depois de tomar o Poder. Em comparação com estes problemas, verdadeiramente gigantescos, que surgirão sob a ditadura do proletariado – quando será preciso reeducar milhões de camponeses e pequenos proprietários, centenas de milhares de empregados, funcionários e intelectuais burgueses, para subordiná-los todos ao Estado proletário e extirpar-lhes os hábitos e tradições burgueses – tornar-se de uma facilidade infantil criar sob o domínio da burguesia uma fração autenticamente comunista do verdadeiro partido proletário no parlamento burguês.

Se os camaradas “esquerdistas” e antiparlametares não aprenderam agora a vencer uma dificuldade que é até pequena, pode-se dizer com segurança que ou não estarão em condições de instaurar a ditadura do proletariado, não poderão subordinar e transformar em grande escala os intelectuais e instituições burgueses, ou serão obrigados a terminar de aprender a toda velocidade, pressa que os fará causar grandes danos à causa proletária, cometer maior número de erros que os que comumente cometeriam, dar mostras de debilidade e incapacidade acima do normal, etc., etc.

Enquanto a burguesia não for derrubada - e, depois de sua queda, enquanto não desaparecerem totalmente a pequena economia e a pequena produção mercantil - o ambiente burguês, os hábitos de propriedade privada e as tradições pequeno-burguesas prejudicarão o trabalho do proletariado tanto dentro como fora do movimento operário, não só na atividade parlamentar, como, inevitavelmente, em todas e em cada uma das esferas da atividade social, em todos os setores culturais e políticos, sem exceção. E constitui um erro profundíssimo, pelo qual inapelavelmente se deverá pagar mais tarde, procurar livrar-se ou esquivar-se de uma das tarefas desagradáveis ou das dificuldades surgidas numa das esferas de trabalho. É preciso aprender, e aprender plenamente, a dominar todos os aspectos da atividade e do trabalho, sem nenhuma exceção, a vencer em toda parte todas as dificuldades e todos os costumes, tradições e hábitos burgueses. Qualquer outra maneira de encarar a questão é totalmente despida de seriedade, é infantil.

12 de maio de 1920

V
Na edição russa desse livro apresentei com certa inexatidão a conduta do Partido Comunista Holandês em seu conjunto, no terreno da política revolucionária mundial. Por isso, aproveito a oportunidade para publicar a carta abaixo transcrita, carta de nossos camaradas holandeses sobre este problema. Além disso, aproveito também para corrigir a expressão “tribunistas holandeses” que empreguei no texto russo, substituindo- a, pelas palavras “alguns membros do Partido Comunista Holandês”.

I. Lênin

Carta de Wíjnkoop

Moscou, 30 de junho de 1920

Querido camarada Lênin:

Graças à sua amabilidade, os membros da delegação holandesa ao II Congresso da Internacional Comunista tivemos a possibilidade de ler seu livro A Doença Infantil do "Esquerdismo” no Comunismo, antes de ser ele publicado nos idiomas da Europa Ocidental. Nesse livro você ressalta várias vezes a sua desaprovação do papel desempenhado por alguns membros do Partido Comunista Holandês na política internacional,

Devemos protestar, contudo, contra o fato de você atribuir ao Partido Comunista a responsabilidade pelos atos desses membros, o que é extremamente inexato. Além disso, é injusto, pois esses membros do Partido Comunista Holandês participam muito pouco, ou não participam absolutamente, da atividade cotidiana do Partido; procuram também, direta ou indiretamente, aplicar no Partido Comunista as palavras de ordem oposicionistas, contra as quais o Partido Comunista Holandes e todos os seus órgãos empenharam-se e empenham-se até hoje na mais enérgica luta.

Saudações fraternais

(em nome da delegação holandesa)

D. I. Wijnkoop

Notas

1 A Doença Infantil, do "Esquerdismo" no Comunismo foi escrito por Lênin em abril de 1920, e o Apêndice em 12 de maio do mesmo ano. Foi publicado na imprensa, de 8 a 10 de junho em russo, e em julho em alemão, francês e inglês. Lênin controlou pessoalmente os prazos marcados para a composição e a impressão do livro, a fim de que ele fosse editado antes do início dos trabalhos do II Congresso da Internacional Comunista. O livro foi distribuído entre todos os delegados ao II Congresso. De julho a novembro de 1920, foi reeditado em alemão em Leipzig, em francês em Paris e em inglês em Londres.

No manuscrito de A Doença Infantil do "Esquerdismo” no Comunismo há um subtítulo: Ensaio de palestra popular sobre a estratégia o a tática marxistas. Em todas as edições publicadas em vida de Lênin. esse subtítulo foi suprimido. Na 4ª edição das obras de V. I. Lênin, A Doença Infantil do "Esquerdismo" no Comunismo foi publicada de acordo com a primeira edição do livro, cuja revisão foi feita por Lênin..- pág. 4

2 Os acontecimentos do Lena de 1912: alusão ao metralhamento dos operários dos areais auríferos do Lena (Sibéria). em abril de 1912 pelas tropas czaristas. - pág. 20

3 Longuetismo: corrente centrista do Partido Socialista Francês, à frente da qual figurava Jean Longuet.

Durante a primeira guerra mundial, os longuetistas mantiveram uma posição social-pacifista. Depois do triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro na Rússia, declararam-se, em palavras, partidários da ditadura do proletariado, mas, na realidade, eram seus inimigos. Seguiram a política de reconciliação com os social-chovinistas e apoiaram o rapace Tratado de Versafiles. Em dezembro de 1920, os longuetistas, juntamente com os reformistas desavergonhados, separaram-se do partido aderiram à Internacional chamada, de Segunda e meia e depois do desmoronamento desta, voltaram à II Internacional. - pág. 21

4 0 Partido Trabalhista Independente da Inglaterra (Independent Labour Party) fot fundado em 1893. À sua frente estavam James keir Hardie, R. MacDonald e outros. Pretendendo ser independente politicamente dos partidos burgueses, o Partido Trabalhista Independente era, na realidade, "independente do socialismo, mas dependente do liberalismo" (Lênin). - pág. 21

5 Fabianos: membros da "Sociedade Fabiana", reformista e extremamente oportunista, fundada na Inglaterra em 1884 por um grupo de intelectuais burgueses. Veja-se a definição dos fabianos nos trabalhos de Lênin "Prefácio da versão russa do livro Cartas de J. Becker, J. Dietzgen, F. Engels, K. Marx e outro” (Obras, 4ª ed. russa, tomo 12, pág. 330/331); 0 Programa Agrário da Social-democracia na Revolução Russa (Obras, 4ª ed. russa, t. 15 , pág, 154); 0 Pacifismo Inglês e o Desamor Inglês pela Teoria (Obras, 4ª ed, russa, t. 21, pág. 234) e outras. - pág. 21

6 Partido Social-democrata Independente da Alemanha: partido centrista fundado em abril de 1917

Dividiu-se em seu Congresso de Halle, em outubro de, 1920. Uma parte ponderável do partido fundiu-se, em dezembro do mesmo ano, com o Partido Comunista da Alemanha. Os elementos direitistas formaram um partido isolado, adotando a antiga, designação de Partido social-democrata Independente. Em 1922, os "independentes" reingressaram no Partido Social-democrata Alemão.

7 Espartaquistas: membros da Liga "Espartaco", fundada durante a primeira guerra mundial, em janeiro de 1916, sob a direção de K. Liebknecht, R. Luxemburgo, F. Mehring, C. Zetkin e outros. Os espartaquistas fizeram propaganda revolucionária entre as massas contra a guerra imperialista e desmascararam a política de rapina do imperialismo alemão e a traição dos chefes social-democratas. Mas os espartaquistas, esquerdistas alemães, não se depuraram dos erros mencheviques, nas questões mais importantes da teoria e da política. A crítica dos erros dos esquerdistas alemães pode ser encontrada nas obras de Lênin A Respeito do Folheto de Junius (Obras, 4ª ed. russa, t. 22, pág. 291/305), Acerca de uma Caricatura do Marxismo e Sobre o Economismo Imperialista (Obras, 4ª ed. russa, t. 23, pág. 16/64) e outras, e na carta de I.V. Stálin à redação da revista A Revolução Proletária, carta intitulada Sobre Algumas Questões da História do Bolchevismo (Questões do Leninismo, 11ª ed. russa, pág. 350/361). Em abril de 1917, os espartaquistas ingressaram no Partido Social-democrata Independente da Alemanha, partido centrista, conservando dentro dele sua independência orgânica. Depois da revolução de novembro de 1918 na Alemanha, os espartaquistas romperam com os "independentes" e em dezembro do mesmo ano fundaram o Partido Comunista da Alemanha. -- pág. 27

8 O Partido Trabalhista (Labour Party) foi fundado em 1900 como um agrupamento de organizações operárias, com a finalidade de criar uma, representação operária no parlamento. Esse agrupamento denominou-se, inicialmente, "Comitê de Representação Operária" e, a partir de 1906, Partido Trabalhista. Em 1913, Lênin caracterizou o Partido Trabalhista como "a união dos sindicatos não socialistas com o Partido Trabalhista Independente, oportunista ao extremo". Durante a guerra imperialista mundial de 1914/1918, os líderes do Partido Trabalhista mantiveram uma posição social-chovinista.

O Partido Trabalhista subiu ao Poder em 1924, 1929, 1945 "e 1950. A política dos -governos trabalhistas dentro do país baseou-se na colaboração de classes com a burguesia; sua política exterior coincidiu, em seus aspectos fundamentais, com a dos governos conservadores. - pág. 31

9 Partido Democrata Constitucionalista - (k. d. - kadetes) - principal partido burguês na Rússia, partido da burguesia liberal-monárquica, fundado em outubro de 1905. Acobertando- se sob um falso caráter democrático e denominando- se o partido da "liberdade popular", os democratas constitucionalistas trataram de ganhar para suas posições o campesinato. Inclinavam-se pela manutenção do czarismo sob forma de monarquia constitucional.

Depois da vitória da Revolução Socialista de Outubro, os democratas constitucionalistas organizaram "complots" e insurreições contra-revolucioná rios contra a República Soviética. - pág. 34

10 “Tribunistas” holandeses: denominação dada por Lênin aos membros do Partido Comunista Holandês. Inicialmente, os tribunistas formavam o grupo esquerdista do Partido Operário Social-democrata Holandês, que em 1907 organizou a publicação do jornal A Tribuna (De Tribune). Em 1909 foram expulsos do Partido Operário Social-democrata e constituíram um partido independente: o Partido Social-democrata da Holanda, Os tribunistas representavam a ala esquerda do movimento operário da Holanda, mas não constituíam um partido revolucionário conseqüente. Em 1918 participaram da fundação do Partido Comunista da Holanda. - pág. 38

11 Horner: A. Pannekoek - pág. 40

12 Diário Operário Comunista (Kommunistische Arbeiterzeitung: órgão do grupo pequeno-burguê s, anarco-sindicalista , de comunistas "de esquerda" que se separou em 1919 do Partido Comunista da Alemanha (espartaquistas) . O jornal circulou de 1919 até 1927. Os comunistas "de esquerda" alemães não cumpriram o acordo firmado no III Congresso da Internacional Comunista, que deles exigia a renúncia à tática sectária e a adesão ao Partido Comunista da Alemanha, sendo excluídos da Internacional Comunista. Os dirigentes dos comunistas "de esquerda" passaram-se para o campo da contra-revoluçã o. __ pág. 40

13 Depois da revolução de fevereiro de 1917 e até 1919, Inclusive, o número de membros do Partido modificou-se da seguinte maneira: quando se realizou a VII Conferência do P.O.S.D.R. (bolchevique) - Conferência de Abril - em 1917, o Partido tinha 80.000 membros; ao realizar-se o VI Congresso, julho/agosto de 1917, cerca de 240 000; ao começar o VII Congresso do P. C. R. (bolchevique, em março de 1918, mais de 270 000; e no VIII Congresso do P.C.R. (bolchevique) , em março de 1919, 313 766. - pág, 46

14 "Operários Industriais do Mundo" ("Industrial Workers of the World”, I W W ): organização dos operários dos E.U.A., fundada em 1905. Entre seus dirigentes e membros de base estavam difundidas as opiniões anarco-sindicalista s, que se traduziam na renúncia à luta política, na negação da necessidade de participar dos parlamentos burgueses, etc. Em 1914/1918, os "Operários Industriais do Mundo" lutaram ativamente contra a guerra imperialista, razão pela qual foram cruelmente perseguidos. A organização chegou a ter naquele período mais de 100.000 filiados. Ao observar que "estamos diante de um movimento profundamente proletário e de massas", Lênin criticava a linha política errada dos dirigentes dos "Operários Industriais do Mundo”, que caíam no sectarismo "de esquerda", negando-se a atuar entre as massas que aderiam aos sindicatos reacionários e pronunciando- se contra a participação nos parlamentos burgueses.

Posteriormente, a associação "Operários Industriais do Mundo", da qual se separaram os elementos autenticamente revolucionários, transformou- se numa organização sectária pouco numerosa, sem nenhuma influencia entre as massas operárias. - pág. 55

15 O Partido Socialista Italiano foi fundado em 1892 como "Partido dos Operários Italianos"; em 1893 adotou o nome de "Partido Socialista Italiano". Depois da vitória da Grande Revolução Socialista de Outubro na Rússia, a ala esquerda das fileiras do Partido Socialista Italiano viu-se fortalecida Em janeiro de 1921, no Congresso do Partido realizado em Livorno os esquerdistas romperam com o Partido Socialista, convocaram seu Congresso e fundaram o Partido Comunista da Itália.

Nos anos de ditadura fascista na Itália. tornou a formar-se uma influente ala esquerda no Partido Socialista Italiano. Em 1934, o Partido Socialista concertou um pacto de unidade de ação com o Partido Comunista da Itália, pacto que serviu de base para a colaboração entre os dois partidos durante a segunda guerra mundial e no período de após-guerra. Em janeiro de 1947 um grupo de direitistas encabeçado por Saragat abandonou as fileiras do Partido Socialista e formou o chamado "Partido Socialista dos Trabalhadores Italianos", que desde 1952 se denomina Partido Social-democrata. - pág. 71

16 Lênin refere-se a um trecho da carta de F. Engels a F. Sorge, datada de 29 de novembro de 1886, na qual Engels, criticando os emigrados social-democratas residentes na América, diz que, para eles, a teoria "é um dogma e não um guia para a ação”. -, pág. 78

17 O "Partido Socialista Britânico (British SociMist Party) foi fundado em 1911, em Manchester. Realizou a propaganda e a agitação dentro do espírito marxista e era um partido "não oportunista, verdadeiramente independente dos liberais" (Lênin). Seus pequenos efetivos e o isolamento das massas davam-lhe certo caráter sectário.

Durante a primeira guerra mundial determinaram- se, nele duas tendências: uma abertamente social-chovinista, encabeçada por Hyndman, e outra internacionalista, chefiada por A. Inkpin e outros. O partido cindiu-se em abril de 1916. Hyndman e seus correligionários ficaram em minoria e abandonaram suas fileiras. A partir daquele momento, ficaram à frente do Partido Socialista Britânico elementos internacionalistas. A esse partido coube a iniciativa de constituir o Partido Comunista da Grã-Bretanha, fundado em 1920. - pág. 87

18 O "Partido Socialista Operário" foi fundado em 1903 por um grupo de social-democratas de esquerda dissidente da Federação Social-democrata. A "Sociedade Socialista de Gales do Sul" era um pequeno grupo, integrado inicialmente por mineiros do País de Gales. A "Federação Socialista Operária”' era uma organização pouco numerosa, surgida da "Sociedade de defesa dos direitos eleitorais da mulher" e integrada principalmente por mulheres.

Ao ser fundado o Partido Comunista da Grã-Bretanha (o Congresso que o estatuiu realizou-se de 31 de julho a 1 de agosto de 1920), que incluiu em seu programa um ponto sobre a participação do Partido nas eleições parlamentares e sobre a filiação ao Partido Trabalhista, todas as organizações "esquerdistas" negaram-se a ingressar no partido. No Congresso do Partido Comunista realizado em janeiro de 1921, a Sociedade Socialista de Gales do Sul e a Federação Socialista Operária (que haviam adotado nessa ocasião as denominações de Partido Comunista Operário e Partido Comunista) fundiram-se com o Partido Comunista da Grã-Bretanha, que tomou o nome de Partido Comunista Unificado da Grã-Bretanha. A direção do Partido Socialista Operário negou-se a participar da unificação. - pág. 87

19 Lênin refere-se ao golpe de Estado monárquico-militar na Alemanha, ao chamado "putch de Kapp", efetuado pela reacionária camarilha militar alemã sob a direção de Kapp. Os conspiradores prepararam o golpe de Estado em evidente conivência com o Governo social-demócrata. A 13 de março de 1920 os golpistas deslocaram unidades militares para Berlim e, não encontrando resistência do Governo, declararam-no derrubado e formaram um novo governo. Os operários berlinenses responderam ao golpe de Estado com a greve geral. O Governo Kapp caiu em virtude da pressão operária, retornando ao Poder os social-democratas, que seguiram uma política. de repressão aos operários. - pág. 128

20 "Procuradores" "Soviéticos”: colégios de procuradores criados em fevereiro de 1918, junto aos Soviets de deputados operários, soldados, camponeses e cossacos. Em outubro de 1920 esses colégios foram suprimidos. - pág. 134